Volumes de calda e pontas de pulverização na aplicação de fungicidas para o controle da ferrugem-asiática da soja

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O trabalho objetivou determinar qual é a influência da ponta de pulverização e do volume de calda por hectare na deposição da calda fungicida, no controle da ferrugem-asiática e na produtividade final da soja

Autores: BIANCA DE MOURA1, CAROLINA C. DEUNER2, GABRIELA OTTONI3, CAROLINE GIONGO3, WALTER BOLLER2

RESUMO

Para o sucesso em uma aplicação de fungicidas para o controle da ferrugem-asiática da soja, é necessário que ocorra a deposição adequada do ingrediente ativo em todo o dossel das plantas. Apesar disso, na agricultura moderna, há uma tendência de se trabalhar com baixos volumes de calda, o que pode comprometer a eficácia do tratamento. Diante disso, o objetivo do trabalho foi avaliar a deposição da calda fitossanitária no dossel das plantas de soja submetidas a aplicações de fungicidas para o controle da ferrugem-asiática com dois volumes de calda. No campo experimental da FAMV/UPF, em delineamento inteiramente casualizado com seis repetições, três cultivares de soja de hábito de crescimento indeterminado, receberam os seguintes tratamentos: aplicações de fungicidas com volume de calda de 50 L/ha a partir de pontas de pulverização jato-cônico vazio, aplicações de fungicidas com volume de calda de 120 L/ha a partir de pontas jato-plano simples e ausência de aplicações. Foram avaliados a deposição da calda nos três terços do dossel das plantas, o controle da doença baseado na severidade em relação à testemunha sem aplicação e o rendimento final de grãos. Os resultados mostraram não haver diferenças significativas entre os volumes de calda fungicida às variáveis analisadas, sugerindo que para as cultivares testadas, é possível trabalhar-se com menores volumes de calda, sem comprometer o manejo da doença.

PALAVRAS-CHAVE: Phakopsora pachyrhizi, agricultura moderna, baixo volume de calda.

APPLICATION RATE AND SPRAY NOZZELS IN FUNGICIDADE APPLICATION FOR ASIAN SOYBEAN RUST CONTROL

ABSTRACT

For success in a fungicide application for soybean rust control, proper deposition of the active ingredient must occur throughout the plant canopy. Nevertheless, in modern agriculture there is a tendency to work with low spray rates, which may compromise the effectiveness of the treatment.

Therefore, the objective of this work was to evaluate the deposition throughout the soybean plant canopy of phytosanitary treatment to control Asian soybean rust when using two different spray volumes. In the experimental field of the FAMV/UPF, in a completely randomized design with six replicates, three soybean cultivars of indeterminate growth habit were treated with the following conditions: fungicide applications with a spray rate of 50 L/ha from hollow-cone nozzles, fungicide applications with spray rate of 120 L/ha from with flat-fan nozzles and the check without applications.

The spray deposition was evaluated for the three thirds of the plant canopy, as well as disease severity related to the control without application and the final grain yield. The results showed that there were no significant differences between the fungicides spray rates for the analyzed variables, suggesting that for the cultivars tested, it is possible to work with lower spray rates, without compromising the management of the disease.

KEYWORDS: Phakopsora pachyrhizi, modern agriculture, low spray rate.

INTRODUÇÃO

No Brasil, responsável por 30% da produção mundial de soja (USDA, 2016), a ferrugem-asiática da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, é a doença mais destrutiva da cultura, com danos que comprometem até 90% da produção (HARTMAN et al., 2015). Das estratégias de manejo da doença, a aplicação de fungicidas em órgãos aéreos das plantas é a mais importante para a manutenção da severidade da doença abaixo do nível de dano (KLOSOWSKI et al. 2016).

Para a obtenção de sucesso em uma aplicação, é necessário que ocorra a deposição das gotas da calda fungicida na quantidade correta sobre o sítio de infecção da doença (MOURA, 2015). No entanto, com o intuito de aumentar a capacidade operacional dos pulverizadores reduzindo o custo das aplicações, existe uma tendência de redução do volume de aplicação (BOLLER & MACHRY, 2007), o que pode comprometer quantitativa e qualificativamente a deposição da calda.

Diante disso, o mercado oferece alternativas que visam aprimorar a eficiência das pulverizações, buscando proporcionar a cobertura em todos os estratos das plantas. Como as variáveis volume de calda por hectare e espectro de gotas são diretamente proporcionais, em pulverizações hidráulicas com  baixo volume de calda, deve-se utilizar pontas que produzem gotas finas. As gotas de espectro fino, além de terem maior facilidade de penetração no interior do dossel das plantas, fornecem maior cobertura do alvo (ANTUNIASSI, 2012).

 

No entanto, em condições de temperatura elevada, baixa umidade relativa do ar e velocidade do vento abaixo de 3 km/h ou acima de 10 km/h, essas gotas podem ser perdidas mesmo antes de atingirem o alvo biológico (VITÓRIA & LEITE, 2014). Dessa forma, o trabalho objetivou determinar qual é a influência da ponta de pulverização e do volume de calda por hectare na deposição da calda fungicida, no controle da ferrugem-asiática e na produtividade final da soja.

MATERIAL E MÉTODOS

O ensaio foi estabelecido no campo experimental da FAMV/UPF, em Passo Fundo, RS na primeira quinzena de novembro de 2015, com população de plantio regulada para 300.000 plantas de soja/ha. Em esquema bifatorial 3 x 2 + 1, três cultivares de soja de hábito de crescimento indeterminado, com distribuição de índices de área foliar e grupos de maturação muito próximos (BMX Elite RR, NS 5445 IPRO e Pioneer 95Y51) foram submetidas às aplicações de fungicidas com volumes de calda de 50 L/ha, 120 L/ha e a testemunha isenta de aplicações. Em delineamento experimental inteiramente casualizado, com seis repetições, as parcelas experimentais foram compostas por seis linhas de plantio, com 10 m de comprimento e espaçamento de 0,45 m entre si, perfazendo uma área de 27,0 m2 por parcela.

A primeira e a sexta linhas foram utilizadas como bordaduras e as quatro linhas centrais foram utilizadas para as avaliações da severidade da doença, deposição da calda e rendimento de grãos. Para as aplicações com volume de 50 L/ha foram utilizadas pontas de pulverização jato-cônico vazio JA-1®, as quais produziram gotas de espectro muito-fino a fino à pressão de trabalho de 4,0 bars. Já nas aplicações com volume de calda de 120 L/ha foram utilizadas pontas de pulverização jato-plano simples XR 110015®, as quais produziram gotas com espectro fino sob pressão de trabalho de 3,0 bars (ASABE, 2014). As aplicações dos tratamentos tiveram início quando foi detectado 5% de incidência da ferrugem em plantas presentes no ensaio.

A primeira aplicação, feita em 08/01/2016 por volta das 16:30, foi composta por 400 mL do fungicida trifloxistrobina (15,0% SC) + protioconazol (17,5% SC) acrescido de 250 mL/ha do adjuvante éster metílico de óleo de soja. Na segunda e terceira aplicações, realizadas nos dias 22/01 e 05/02/2016, às 11:30 e 14:30 respectivamente, a calda fungicida foi composta por 200 g/ha de azoxistrobina (30% WG) + benzovindiflupir (15% WG), em mistura com 600 mL/ha do óleo mineral recomendado pelo fabricante. Todas as aplicações foram feitas sob condições de temperatura, umidade relativa do ar e velocidade do vento, adequadas.

As avaliações de severidade foram realizadas a partir de amostragens aleatórias de oito trifólios do dossel inferior das plantas localizadas na porção central das parcelas, 10 dias após a primeira, 10 dias após a segunda e 10, 17 e 24 dias após a terceira aplicação, seguindo a escala diagramática descrita por Godoy et al., 2006. Os dados obtidos nas avaliações da severidade foram utilizados na construção da curva de progresso da doença. Na terceira aplicação, foi acrescentado do traçador Helios SC 500® na calda de pulverização, na concentração de 0,1% do volume, para a quantificação da deposição da calda fitossanitária em cada terço do dossel das plantas.

Nesse momento, o índice de área foliar (IAF) da BMX Elite RR era 6,14, da cultivar NS 5445 IPRO era 6, 22 e da Pioneer 95R51 era 6,09. No final do ciclo da cultura, as parcelas foram colhidas separadamente para a determinação do rendimento com umidade dos grãos corrigida para 13%. Os dados foram submetidos a análise estatística – teste de Tukey a 5% de probabilidade de erro.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Apesar de constatada uma maior deposição da calda fungicida no dossel superior das plantas submetidas à aplicação com volume de 120 L/ha a partir de pontas de pulverização XR110015®, a utilização de pontas de pulverização JA-1® na aplicação com volume de 50 L/ha para as cultivares NS 5445 IPRO e Pioneer 95R51, demonstrou maior deposição da calda no dossel inferior das plantas, concordando com relatos de Antuniassi (2012), de que pontas de pulverização que produzem gotas de espectro mais fino, tendem a apresentar maior deposição no dossel inferior das plantas. Apesar disso, para a deposição de gotas nos três dosséis das plantas, não foram observadas diferenças significativas (FIGURA 1).

FIGURA 1. Deposição da calda fitossanitária nos dosséis superior, mediano e inferior de plantas.

Da mesma forma, tanto para o controle da ferrugem-asiática, quanto para a área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD) não foram observadas diferença significativas entre aplicações realizadas com volumes de 50 ou 120 L de calda fungicida/ha (FIGURA 2).

FIGURA 2. Área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD) e percentual de controle da severidade da ferrugem em relação à testemunha.

Também para os dados de rendimento de grãos, não foram observadas diferenças significativas entre aplicações feitas com volume de 50 ou 120 L de calda fungicida/ha, somente entre cultivares (Tabela 1).

TABELA 1. Rendimento de grãos (kg/ha) em plantas de soja de três cultivares distintas submetidas a três aplicações de fungicidas em três volumes de calda. Passo Fundo, 2016.

CONCLUSÃO

Para as cultivares de soja de hábito indeterminado utilizadas, não existem diferenças na qualidade da aplicação entre os volumes de calda e as pontas de pulverização comparadas nas aplicações de fungicidas para o controle da ferrugem-asiática da soja.

A deposição de calda fungicida nos três terços das plantas, o controle da doença e o rendimento de grãos não apresentam diferenças entre pontas de jato-cônico vazio e 50 L/ha e pontas de jato-plano e 120 L/ha.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Capes e PPGAgro pelo suporte e financiamento do trabalho e a equipe da Syngenta pela realização e acompanhamento do nosso trabalho de campo.

REFERÊNCIAS

ANTUNIASSI, U. R. Tecnologia de aplicação: conceitos básicos, inovações e tendências. Apostila preparada para os curso de graduação e pós-graduação em agronomia. FCA/UNESP: Botucatu/SP, 32 p.

ASABE. ASABE Standard, S572. 51st Edn. Spray nozzle classification by droplet spectra. St Joseph, MI: ASABE. 2014.

BOLLER, W.; MACHRY, M. Efeito da pressão de trabalho e de modelos de pontas de pulverização obre a eficiência de herbicida de contato em soja. Engenharia Agrícola, v. 27, n.3, p. 722-727, 2007.

GODOY, C. V.; KOGA, L. J.; CANTERI, M. G. Diagrammatic scale for assessment of soybean rust severity. Fitopatologia Brasileira, Viçosa, v.31, p. 63-68. 2006.

HARTMAN, G. L.; SIKORA, E. J.; RUPE, J. C. Rust. In: HARTMAN, G. L.; RUPE, J. C.; SIKORA, J.; DOMIER, L. L.; DAVIS, J. A.; STEFFEY, K. L. (E.). Compendium of soybean diseases and pests. 5 ed. Saint Paul: APS Press, 2015. p. 56-59.

KLOSOWSKI, A. C; DE MIO, L. L. M.; MIESSNER, S.; RODRIGUES, R.; STAMMLER, G. Detection of the F129L mutation in the cytochrome b gene in Phakopsora pachyrhizi. Pest Manager Science, v. 72, n. 6, p. 1211-1215, 2015.

MOURA, B. Deposição de fungicida em cultivares de soja com diferentes hábitos de crescimento, controle e sensibilidade de Phakopsora pachyrhizi a fungicidas. 2015. 137 f. Dissertação (Mestrado em Agronomia/Fitopatologia) – Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, 2015.

USDA. World agricultural production. Foreign Agricultural Service. Circular series, WAP 11-16. November, 2016. 28 p.

VITÓRIA, E. L. da; LEITE, J. U. Q. Espectro de gotas de pontas de pulverização de jato cônico vazio. Enciclopédia Biosfera, v. 10, n. 18, p. 1551-1559, 2014.

Informações do autores:     

1Engenheira Agrônoma, Mestre em Fitopatologia, Doutoranda em Proteção de Plantas da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS;

2Eng. Agr. Prof. Dr. do Programa de Pós-Graduação em Agronomia (PPGAgro) da FAMV/UPF, Universidade de Passo Fundo/RS;

3Aluno de graduação do curso de Agronomia da FAMV/UPF, Universidade de Passo Fundo/RS.

Disponível em: Anais do VVVI Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação – SINTAG  , Campinas  – SP , Brasil.

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