Adaptabilidade e estabilidade na indicação de cultivares de aveia ecologicamente mais eficientes à redução de fungicida em condição de ano favorável ao progresso da doença

0
553

O objetivo deste estudo é empregar o modelo de adaptabilidade e estabilidade por Eberhart & Russel na proposta de identificação de cultivares de aveia com maior resistência genética às doenças foliares e estáveis à expressão da produtividade de grãos pelo uso de fungicida em função do momento e número de aplicações

Autores: Lorenzo Ghisleni Arenhardt¹, Eldair Fabrício Dornelles2, Luiz Michel Bandeira1, Natiane Carolina Ferreira Basso1, Ester Mafalda Matter1, Leonardo Norbert1, Vanessa Pansera3, Odenis Alessi3, Emerson André Pereira4, José Antonio Gonzalez da Silva4

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

A aveia branca é um cereal de múltiplos propósitos, utilizada na alimentação humana e animal, cobertura do solo e rotação de culturas (HAWERROTH et al., 2014; ARENHARDT et al., 2015). Devido as diversas utilidades deste cereal, houve  um aumento significativo nas áreas destinadas ao seu cultivo e por consequência, aumentando os riscos de epidemias, as quais podem acarretar em danos irreversíveis a produção de grãos (CONAB, 2018; ZHU; KAEPPLER, 2003; SILVA et al., 2015). Dentre as doenças que mais atacam a cultura, as foliares tem recebido atenção especial, pois causam danos irreversíveis acarretando em altas perdas na produção (NERBASS JUNIOR et al., 2010).

A utilização de cultivares mais resistentes às moléstias e que apresentam melhor resposta em relação ao uso de fungicida, tem sido uma das formas de minimizar os danos causados à planta e alcançar os caracteres desejáveis à indústria de alimentos (CRUZ et al., 2001, FLOSS et al., 2011; HAWERROTH et al., 2014). No entanto, Junior et al. (2009), relatam que o nível de resistência aos patógenos não é totalmente eficiente e tampouco duradoura, devido à rápida evolução, principalmente por mutação no desenvolvimento de novas raças. Sendo assim, há a necessidade do uso de fungicidas para conter de forma mais eficiente as principais doenças foliares (SILVA et al., 2015).

Devido a aveia ser um cereal usado na produção de alimentos “in natura”, o manejo correto e eficiente do fungicida é ponto chave na não contaminação do grão (NERBASS JUNIOR et al., 2010; ROMITTI et al., 2016). Portanto, a redução no uso de fungicidas é fundamental para diminuir o nível de contaminação na elaboração dos diferentes tipos de alimentos à base de aveia, além de amenizar os riscos de contaminação ambiental (SILVA et al., 2015).

A otimização das técnicas de manejo, pela identificação de cultivares ecologicamente mais sustentáveis, é essencial para maximizar a produtividade e a qualidade de grãos (SILVA et al., 2016). Neste contexto, o uso de modelos de adaptabilidade e estabilidade podem ser usados na identificação de cultivares mais responsivas ao uso de fungicida e estáveis a produtividade de grãos. Esses modelos permitem, através da quantificação de seus parâmetros, identificando genótipos e manejos mais produtivos e de comportamento previsível pelas condições ambientais (PEREIRA et al., 2013; SILVA, J. A. G. et al.,2016).

O objetivo deste estudo é empregar o modelo de adaptabilidade e estabilidade por Eberhart & Russel na proposta de identificação de cultivares de aveia com maior resistência genética às doenças foliares e estáveis à expressão da produtividade de grãos pelo uso de fungicida em função do momento e número de aplicações, considerando agrícola favorável ao progresso das doenças foliares.

O presente trabalho foi desenvolvido no ano agrícola de 2015 (favorável as doenças foliares), na área experimental do IRDeR/DEAg/UNIJUÍ no município de Augusto Pestana, RS. O delineamento experimental foi de blocos casualizados, seguindo um esquema fatorial 22 x 4, para as 22 cultivares de aveia branca e 4 condições de aplicações de fungicida respectivamente, com três repetições.

Foram avaliadas as 22 principais cultivares de aveia branca recomendadas para o cultivo no Brasil: URS Altiva, URS Brava, URS Guará, URS Estampa, URS Corona, URS Torena, URS Charrua, URS Guria, URS Tarimba, URS Taura, URS 21, FAEM 007, FAEM 006, FAEM 5 Chiarasul, FAEM 4 Carlasul, Brisasul, Barbarasul, URS Fapa Slava, IPR Afrodite, UPFPS Farroupilha, UPFA Ouro e UPFA Gaudéria. As condições de uso do fungicida foram definidas da seguinte maneira: sem aplicação de fungicida, com uma aplicação aos 60 dias após a emergência (DAE), com duas aplicações (uma aplicação aos 60 e outra aos 75 DAE), e com três aplicações (uma aplicação aos 60, outra aos 75 e outra aos 90 DAE).

No controle das doenças foliares, foi utilizado o fungicida FOLICUR® CE na dosagem de 0,75 L ha-1, (ingrediente ativo: tebuconazol; classe: sistêmico do grupo triazóis; e formulação: concentrado emulsionável). As parcelas eram constituídas por 5 linhas de 5 metros de comprimento e espaçadas 0,18 m, totalizando 4,5 m2.

Para cada avaliação de área foliar, foram coletadas três plantas de cada parcela, totalizando sempre três plantas por condição de fungicida e cultivar. Foram utilizadas para o estudo as três folhas superiores de cada planta coletada. As folhas foram digitalizadas utilizando o leitor de área foliar e o software WinDIAS. Ao final do ciclo, foi realizado o corte das três linhas centrais de cada parcela para a obtenção da produtividade.

Dos dados obtidos foram geradas as médias para classificação das cultivares em três grupos (Superior, Médio, Inferior), a partir da média mais ou menos um desvio padrão (DP) na produtividade de grãos e área foliar necrosada.

Na identificação das cultivares de aveia branca com maior adaptabilidade frente as alterações climáticas locais, responsivas ao uso de fungicida e estáveis a produtividade de grãos, os dados mensurados foram submetidos ao modelo de adaptabilidade e estabilidade de Eberhart & Russell (1966). Além disso, foi realizado o agrupamento de médias por Scott & Knott, na classificação das cultivares quanto a produtividade de grãos e área foliar necrosada. As análises estatísticas foram realizadas com o auxílio do software computacional GENES (CRUZ, 2006).

Na Tabela 1, da identificação de cultivares de aveia mais eficientes na redução do uso de fungicida, as cultivares URS Altiva e URS Guria evidenciaram superioridade de produtividade de grãos na grande maioria das condições de uso de fungicida e na ausência de controle da doença. Embora estas cultivares indiquem superioridade na ausência de fungicida, o aumento no número de aplicações incrementou consideravelmente a produtividade, principalmente pelo maior controle das doenças foliares. De modo geral, a segunda aplicação de fungicida aos 75 dias, após a emergência, mostrou resultados similares de produtividade e de área foliar necrosada, em comparação com a terceira aplicação aos 90 dias, após a emergência.

Tabela 1. Médias de produtividade de grãos em cultivares de aveia e área foliar necrosada em função das condições de uso de fungicida.

Na Tabela 2, da análise de adaptabilidade e estabilidade, as maiores produtividades de grãos também foram observadas pelas cultivares URS Altiva e URS Guria. Além disso, evidenciaram adaptabilidade especifica a ambientes desfavoráveis, ou seja, potencial de produtividade em condições mais restritivas pela redução do número de aplicações de fungicida. Destaca-se que a redução do número de aplicações também está condicionada ao maior intervalo entre a colheita e a última aplicação.

Tabela 2. Parâmetros de adaptabilidade e estabilidade em cultivares de aveia em função do uso de fungicida sobre a produtividade de grãos e área foliar necrosada.

Por outro lado, a cultivar URS Altiva evidencia instabilidade sobre a produtividade pelo número/momento da aplicação, o que na URS Guria a estabilidade é confirmada. Embora as cultivares URS Guará, FAEM 4 Carlasul e UPFPS Farroupilha evidenciem desempenho intermediário de produtividade, mostram simultaneamente adaptabilidade geral com estabilidade. Dentre as cultivares relatadas, apenas a  RS Altiva e UPFPS Farroupilha evidenciam as menores médias de área foliar necrosada com adaptabilidade geral e estabilidade.

Destaca-se, que a adaptabilidade geral denota o desempenho de cultivares que respondem ao estímulo ambiental independente de condição favorável ou desfavorável pelo uso de fungicida.

A recomendação da cultivar URS Altiva promove maior previsibilidade sobre a produtividade de grãos com a possibilidade de menor uso de agrotóxicos. Uma condição chave para o desenvolvimento de uma produção ecologicamente mais sustentável, com elevada produtividade e qualidade de grãos preconizado pela indústria de alimentos.

Referências:

ARENHARDT, E.G.; SILVA, J.A.G.; GEWEHR, E.; ARENHARDT, L.G.; ARENHARDT, C.L.; NONNENMACHER, G. CG PICAÇO: a new cultivar of sudangrass with high forage performance and seed yield, Crop Breeding and Applied Biotechnology, v. 15, n. 1, p. 51–55, 2015.

CRUZ, R.P.; FEDERIZZI, L.C.; MILACH, S.C.K. Genética da resistência à ferrugem da folha em aveia. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 36, n. 9, p. 1127–1132, 2001.

EBERHART, S.A.; RUSSELL, W.A. Stability parameters for comparing varieties. Crop science, v. 6, n. 1, p. 36-40, 1966.

FLOSS, E.L. Palestras. In: Reunião da Comissão Brasileira de Pesquisa de Aveia. Passo Fundo: UPF, p. 20-26, 2011.

HAWERROTH, M.C.; BARBIERI, R.L.; SILVA, J.D.; CARVALHO, F.D.; OLIVEIRA, A.D. Importância e dinâmica de caracteres na aveia produtora de grãos. Embrapa Clima Temperado. Documentos, v. 376, 2014.

JUNIOR, P.R.K.; CASA, R.T.; RIZZI, F.P.; MOREIRA, E.N.; BOGO, A. Desempenho de fungicidas no controle de doenças foliares em trigo. Revista de Ciências Agroveterinárias, v. 8, n. 1, p. 35–42, 2009.

NERBASS JUNIOR, J.M.; TREZZI CASA, R.; KUHNEM JÚNIOR, P.R.; BOGO, F.G.A. Modelos de pontos críticos para relacionar o rendimento de grãos de aveia branca com a intensidade de doença no patossistema múltiplo ferrugem da folha: helmintosporiose. Ciência Rural, v. 40, n. 1,p. 1–6, 2010.

SANTOS, H.P.; COSTA, A.F.; MELO, L.C.; DEL PELOSO, M.J.; FARIA, L.C.; WENDLAND, A. Interação entre genótipos de feijoeiro e ambientes no Estado de Pernambuco: estabilidade, estratificação ambiental e decomposição da interação. Semina: Ciencias Agrarias, v. 34, n. 6, p. 2603–2614, 2013.

ROMITTI, M.V., SILVA, J.A.G., MAROLLI, A., ARENHARDT, E.G., DE MAMANN, T. W. , SCREMIN, O. B., BANDEIRA, L. M. The management of sowing density on yield and lodging in the main oat biotype grown in Brazil. African Journal of Agricultural Research, v. 11, n. 21, p. 1935–1944, 2016.

SILVA, C.A.; AGOSTINI, P.S.; CALLEGARI, M.A.; SANTOS, R.D.K.S.; NOVAIS, A.K.; PIEROZAN, C.R.; JUNIOR, M.P.; ALVES, J.B.; GASÓ, J.G. Fatores que afetam o desempenho de suínos nas fases de crescimento e terminação. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 51, n. 10, p. 1780–1788, 2016.

SILVA, J.A.; GOI NETO, C.J.; FERNANDES, S.B.; MANTAI, R.D.; SCREMIN, O.B.; PRETTO, R. Nitrogen efficiency in oats on grain yield with stability. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, v. 20, n. 12, p. 1095–1100, 2016.

SILVA, J.A.G.; WOHLENBERG, M.D.; ARENHARDT, E.G.; OLIVEIRA, A.C.; MAZURKIEVICZ, G.; MULLER, M.; ARENHARDT, L.G.; BINELO, M.O.; ARNOLD, G.; PRETTO, R. Adaptability and stability of yield and industrial grain quality with and without fungicide in Brazilian oat cultivars, American Journal of Plant Sciences, v. 6, n. 9, p. 1560–1569, 2015.

SILVA, J.A.G.; FONTANIVA, C.; COSTA, J.S.P.; KRÜGER, C.A.M.B.; UBESSI, C.; PINTO, F.B.; ARENHARDT, E.G.; GEWBER, E. Uma proposta na densidade de semeadura de um biótipo atual de cultivares de aveia, Revista Brasileira de Agrociência, v. 18, n. 4, p. 253–263, 2012.

ZHU, S.; KAEPPLER, H.F. Identification of Quantitative Trait Loci for Resistance to Crown Rust in Oat Line MAM17-5. Crop Science, v. 43, n. 1, p. 358, 2003.

CONAB: COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Acompanhamento da safra brasileira: grãos. v. 4 – Safra 2016/17, n. 9 – Nono levantamento, Brasília, p. 1-174, Jun. 2017. Disponível em: < http://www.conab.gov.br/OlalaCMS/uploads/arquivos/17_06_08_09_02_48_boletim_graos_junho_2017.pdf >. Acesso em: 3 Mar. 2018.

Informações dos autores:  

¹ Estudante de agronomia, Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí, RS;

2 Estudante de mestrado em Modelagem Matemática, UNIJUÍ;

3 Estudante de doutorado em Modelagem Matemática, UNIJUÍ;

4 Eng. Agr., Doutor, Professor Dep. de Estudos Agrários, UNIJUÍ.

Disponível em: Anais do XXXVIII REUNIÃO DA COMISSÃO BRASILEIRA DE PESQUISA DE AVEIA, Ijui – RS, Brasil, 2018.

Nenhum comentário

Deixar um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.