A mosca branca, Bemisia tabaci, é uma praga que se alimenta da seiva das plantas, causando danos em soja, feijão, algodão, culturas olerícolas e plantas ornamentais. Esta praga causa também danos indiretos por meio de secreção de uma substância açucarada, a qual proporciona o crescimento de fungos fuliginosos (fumagina) capazes de interferir na fotossíntese e, consequentemente, reduzir a produtividade das culturas. Entretanto, o maior impacto desta praga nas lavouras é devido à sua capacidade de trasmissão de viroses (Gilbertson et al., 2015; Kanakala e Ghanim, 2019).

Dentro do complexo B. tabaci, as principais espécies presentes no Brasil são as chamadas Middle East – Asia Minor 1 (MEAM1, anteriormente denominada biótipo B), Mediterranean (MED, anteriormente denominada biótipo Q) e New World (NW, anteriormente denominada biótipo A). Embora sejam morfologicamente idênticas, estudos moleculares revelaram que se tratam de espécies distintas, e não apenas biótipos diferentes, como se acreditou por muito tempo (De Barro et al., 2011). Como seus nomes indicam, a origem geográfica da espécie MEAM1 é provavelmente a região do Oriente Médio, enquanto MED é nativa da região do Mediterrâneo e NW das Américas.

No Brasil, a introdução de B. tabaci MEAM1 ocorreu em meados da década de 90, sendo atualmente a espécie de mosca-branca predominante na cultura da soja. Já a espécie B. tabaci MED foi detectada pela primeira vez no sul do país no ano de 2014. Desde então, várias detecções foram relatadas nas regiões sul, sudeste e centro-oeste do país, associadas ao cultivo de plantas ornamentais e hortaliças (Bello et al., 2020; Moraes et al., 2017). A espécie MED é considerada uma das mais invasivas em todo o mundo, sendo responsável por prejuízos severos na agricultura nas duas últimas décadas, associados principalmente à resistência a inseticidas.

Anteriormente, estudos no Brasil revelaram que a espécie MED é encontrada colonizando principalmente culturas olerícolas e ornamentais em condições de cultivo protegido (casa de vegetação). Entretanto, segundo Bello et al. (2021), esta espécie começou a se espalhar pelo país e a colonizar também lavouras de soja em condições de campo.

Figura 1. Adultos e ninfas de Bemisia tabaci espécie MED em lavoura de soja no município de Oléo, SP (fevereiro de 2019).

Fonte: Bello et al., 2021. Confira a imagem original em: https://bsppjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ppa.13387?af=R

Em um estudo realizado na safra 2018/19, Bello et al. (2020) mostraram que a espécie MED pode estar se espalhando para cultivos em campo aberto a partir de surtos em casas de vegetação (estufas). Portanto, conclui-se que as explosões populacionais da praga em cultivos protegidos e áreas adjacentes podem ter contribuído para a dispersão da espécie MED e colaborado para sua ocorrência em lavouras de soja, uma vez que a mosca-branca é capaz de se dispersar por até 7 km com a ajuda do vento (Byrne, 1999).



Por outro lado, ao repetirem o estudo na safra 2019/20, os autores supracitados encontraram exemplares da espécie MED em áreas distantes de estufas, sugerindo que a espécie pode estar se adaptando às condições de campo aberto e atingindo diferentes áreas produtoras de soja nos estados de São Paulo e Paraná (Bello et al., 2021).

Figura 2. Locais de detecção de Bemisia tabaci espécie MED (círculos vermelhos) e espécie MEAM1 (círculos verdes) em lavouras de soja nos estados de São Paulo e Paraná, Brasil.

Fonte: Bello et al., 2021. Confira a imagem original em: https://bsppjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ppa.13387?af=R

A ocorrência da espécie MED em lavouras de soja pode trazer consequências importantes no manejo da praga. Atualmente, a espécie MEAM1 é predominante na cultura; entretanto, vários estudos revelaram que a espécie MED é mais resistente a inseticidas do que MEAM1, o que pode aumentar sua prevalência sob alto uso de inseticidas (Horowitz et al., 2020; Sun et al., 2013). Além disso, observou-se que a espécie MED é mais eficiente do que MEAM1 na transmissão de carlavírus em plantas de soja e feijão (Bello et al., 2021).

Estratégias de manejo para mosca-branca no Brasil nas culturas da soja, feijão e algodão têm sido baseadas no uso de inseticidas como o principal método de controle. Esta estratégia pode ser um fator importante que favorece a ocorrência de MED sobre MEAM1 nas lavouras de soja, uma vez que MED possui resistência natural a muitos inseticidas (Horowitz et al., 2020).

Além disso, o clima tropical do país também contribui para prevalência de populações de Bemisia tabaci durante todo o ano em condições de campo. Portanto, o monitoramento contínuo das populações de mosca-branca no Brasil é necessário para compreendermos melhor a dinâmica desses insetos nas culturas agrícolas afetadas.

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro  e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM

Referências: 

BELLO, Vinicius Henrique et al. Outbreaks of Bemisia tabaci Mediterranean species in vegetable crops in São Paulo and Paraná States, Brazil. Bulletin of entomological research, v. 110, n. 4, p. 487-496, 2020.

BELLO, Vinicius Henrique et al. Detection of Bemisia tabaci Mediterranean cryptic species on soybean in São Paulo and Paraná States (Brazil) and interaction of cowpea mild mottle virus with whiteflies. Plant Pathology, 2021.

BYRNE, David N. Migration and dispersal by the sweet potato whitefly, Bemisia tabaci. Agricultural and forest meteorology, v. 97, n. 4, p. 309-316, 1999.

GILBERTSON, Robert L. et al. Role of the insect supervectors Bemisia tabaci and Frankliniella occidentalis in the emergence and global spread of plant viruses. Annu. Rev. Virol, v. 2, n. 1, p. 67-93, 2015.

HOROWITZ, A. Rami et al. Insecticide resistance and its management in Bemisia tabaci species. Journal of Pest Science, v. 93, n. 3, p. 893-910, 2020.

KANAKALA, Surapathrudu; GHANIM, Murad. Global genetic diversity and geographical distribution of Bemisia tabaci and its bacterial endosymbionts. PLoS One, v. 14, n. 3, p. e0213946, 2019.

DE MORAES, Letícia Aparecida et al. New invasion of Bemisia tabaci Mediterranean species in Brazil associated to ornamental plants. Phytoparasitica, v. 45, n. 4, p. 517-525, 2017.

SUN, Di-Bing et al. Competitive displacement between two invasive whiteflies: insecticide application and host plant effects. Bulletin of entomological research, v. 103, n. 3, p. 344, 2013.

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