Boas Práticas na Pós-Colheita de Grãos de Soja: Precisamos planejar nossa unidade para receber a nova safra

1
7610

Desta forma, nesse breve manuscrito, abordamos a importância dos grãos de soja no cenário nacional, e também destacamos algumas boas práticas de armazenamento que ainda podem ser realizadas antes de iniciar o recebimento de produto nas unidades, bem como algumas alternativas para manutenção da qualidade do produto e também para reduzir a quebra técnica.

Ricardo Tadeu Paraginski 1, Anderson Ely 2, Samuel Martes 2, Camila Fontoura e Luana Haeberlin 2

Mais uma safra de soja está iniciando em alguns dias, onde novos recordes de produção e produtividade são esperados em diversas regiões do país. Desta maneira, precisamos reforçar alguns cuidados que devem ser realizados nas unidades de armazenamento e beneficiamento de grãos para garantir a manutenção de matéria-prima de qualidade ao longo de todo o ano. Desta forma, nesse breve manuscrito, abordamos a importância dos grãos de soja no cenário nacional, e também destacamos algumas boas práticas de armazenamento que ainda podem ser realizadas antes de iniciar o recebimento de produto nas unidades, bem como algumas alternativas para manutenção da qualidade do produto e também para reduzir a quebra técnica.

 A importância da cultura

A cultura da soja (Glycine max L. Merril) vem apresentando um aumento de produção a cada ano, principalmente devido ao elevado valor de mercado observado na cultura nos últimos anos, alto teor de proteínas e lipídios, que permite grande utilização na alimentação humana, animal e produção de biocombustíveis, além de ser a commodity com maior impacto no PIB do setor. O Brasil é o segundo maior produtor mundial de soja, apenas atrás dos EUA, sendo que na safra 2015/2016, a cultura ocupou uma área de 33,17 milhões de hectares, o que totalizou uma produção de 95,63 milhões de toneladas, com produtividade média de 2.882 kg por hectare, sendo esta produção utilizada em diferentes setores, conforme apresentado na Figura 1.

Figura 1. Diversos produtos que utilizam grãos de soja como matéria-prima.
Figura 1. Diversos produtos que utilizam grãos de soja como matéria-prima.

Desta maneira, os grãos de soja produzidos, que são utilizados nos diferentes setores agroindústrias do país, necessitam de armazenamento adequado, para garantir a disponibilidade de matéria prima de qualidade na entressafra, porém o que observamos no setor é que ainda existem problemas no armazenamento (Figura 2), que reduzem a qualidade da matéria-prima, e em muitos casos a impossibilitam de utilização, devido a formação de grãos avariados, como grãos ardidos, mofados, fermentados, germinados e queimados, que além de apresentarem riscos para o consumo humano e animal, devido a formação de micotoxinas, dificultam também o processo industrial, devido a redução da qualidade da matéria prima, apresentando menor rendimento no processo de industrialização.

Figura 2. Qualidade de grãos de soja observados durante a comercialização no Brasil ao longo do ano.
Figura 2. Qualidade de grãos de soja observados durante a comercialização no Brasil ao longo do ano.
  1. Boas Práticas no Armazenamento de Soja

A qualidade de armazenamento está relacionada com a qualidade inicial dos grãos, porém durante o período de armazenamento os grãos são influenciados por fatores como temperatura, umidade dos grãos, umidade relativa do ar, atmosfera de armazenamento, teor de grãos quebrados, teor de impurezas, presença de micro-organismos, insetos, ácaros e tempo de armazenamento, que podem provocar perdas qualitativas e quantitativas dos grãos. Dentre as perdas observadas nos grãos, podemos destacar as quantitativas, que são representadas pelas perdas de peso e umidade, provocadas pelos processos de respiração e busca pelo equilíbrio higroscópico, respectivamente. Já nas perdas qualitativas, destacam-se as perdas de sabor, odor, valor nutricional, metabólitos, parâmetros fisiológicos (germinação e vigor), e aumento do risco de micotoxinas, além da desvalorização de mercado. Desta forma, para garantir a qualidade dos grãos, necessita-se etapas de pós-colheita adequadas para manutenção da qualidade dos grãos, que foram destacadas abaixo nos itens Boas Práticas na Pós-Colheita de Grãos de Soja.

paraginski_figura3

2.1. Manejo Pré-Colheita

A limpeza e preparo da unidade armazenadora deve ser realizado no período entressafra, geralmente nos meses de novembro e dezembro, onde a produção do ano anterior já foi expedida, devendo-se eliminar todas as sobras de grãos, detritos e restos de embalagens. Esta limpeza deve ser feita dentro dos armazéns e silos, dos equipamentos, bem como da área externa da unidade, sendo recomendado proceder a pulverização de toda a unidade com inseticidas adequados, para eliminar possíveis insetos e larvas que possam a vir a infestar a unidade.

2.2. Cuidados na pré-limpeza e limpeza dos grãos

A avaliação dos grãos realizada na recepção, pode determinar se esses grãos precisam da realização de etapas de pré-limpeza e limpeza. Recomenda-se, que quando necessária secagem dos grãos, os níveis de matérias estranhas e impurezas devem ser reduzidos para valores inferiores a 4%, já para armazenamento, esses níveis devem ser reduzidos para valores inferiores a 1%. As etapas de pré-limpeza e limpeza, devem ser realizadas com máquinas de ar e peneiras, que utilizam princípios de vazão de ar e também de peneiras de diferentes tamanhos para obtenção dos níveis desejados. A presença de matérias estranhas no interior das amostras no momento da secagem, dependendo do tempo de permanência destas no interior dos silos, pode provocar incêndio, e colocar em risco toda a unidade armazenadora. Já a permanência de grãos no interior dos silos, pode favorecer o desenvolvimento de micro-organismos, e além disso dificultar o processo de aeração dos silos, devido a interferir na frente de aeração.

 2.3. Cuidados na secagem

A secagem é etapa fundamental na conservação de todos os grãos, e caracteriza-se como o processo de remoção de água dos grãos até os níveis que permitam o armazenamento por períodos mais ou menos longos. O teor de água adequado para o armazenamento depende da espécie e do período que se pretende armazenar os grãos, sendo que além da umidade, fatores como temperatura, umidade relativa do ar, pragas e doenças podem interferir na qualidade. No caso da soja, a maturação fisiológica ocorre nos grãos com níveis de umidade entre 45 e 50%, sendo a colheita mecânica realizada com teores entre 20 e 14%, e recomenda-se o armazenamento com teores inferiores a 11% para armazenamento de até 1 ano, e entre 9 e 10% para períodos de armazenamento superiores a 1 ano, sendo portanto a secagem indispensável no processo de armazenamento de grãos de soja.

Dentre os métodos de secagem disponíveis para grãos de soja, podemos adotar métodos naturais, adaptados ou tecnificados, conforme as diversas situações existentes, entretanto como a maior parte da soja produzida é em grande escala, os sistemas mais utilizados são os tecnificados, caracterizados nos sistemas de sistema contínuo e seca-aeração. O sistema de secagem contínua (Figura 3) pode utilizar temperaturas do ar de 70 a 130°C, na entrada de secador, desde que os grãos não contenham muitas impurezas e/ou materiais estranhos, e que seja feita inspeção diária e remoção de poeiras, para evitar incêndio, além de acompanhamento da temperatura de massa dos grãos que não pode ser superior a 43ºC. Este sistema é muito utilizado na secagem de grãos de soja, devido aos mesmos não possuírem danos térmicos, assim, pode-se utilizar a secagem contínua, que ao final se obterá um produto de qualidade elevada.

Figura 3. Sistema de secagem contínuo (A) e detalhe do ventilador utilizado no sistema misto (B) utilizados para a grãos de soja.
Figura 3. Sistema de secagem contínuo (A) e detalhe do ventilador utilizado no sistema misto (B) utilizados para a grãos de soja.

O sistema misto, também chamado de seca-aeração, caracteriza-se pelos grãos passarem inicialmente por uma secagem preliminar convencional, quando perdem parte da água, em geral até cerca de dois a três pontos percentuais de umidade acima do que se deseja como adequada para o final da operação, e essa etapa é seguida por uma etapa de secagem estacionária, com ar sem aquecimento. Na secagem pelo sistema seca-aeração, podem ser empregadas temperaturas de 60 a 90C, sendo que neste sistema, geralmente é usado secador contínuo adaptado (o ar aquecido é insuflado em ambas as câmaras – a de secagem e a originalmente destinada ao arrefecimento quando do método contínuo) para a parte da secagem convencional e um silo-secador (fundo falso e chapas perfuradas), com ar sem aquecimento, para a parte estacionária do final da secagem. Este é um sistema que praticamente não causa danos mecânicos, nem danos ou choques térmicos, e que permite a obtenção de secagem mais rápida e mais uniforme.

A etapa de aeração é fundamental nesse processo, uma vez que os grãos são colocados ainda “quentes” no interior do silo, sendo que deve-se imediatamente ligar os exaustores no momento em que os grãos são depositados no silo, para que ocorra a redução da umidade destes, até os níveis desejados. Outro parâmetro que deve ser considerado é a redução do tempo de espera dos grãos para secagem, pois muitas vezes os grãos chegam até a unidade, e devido à um fluxo elevado de grãos acabem permanecendo nas moegas, onde na maioria dos casos ocorre o aquecimento destes grãos, o que a curto prazo não representa problemas, porém ao longo do período de armazenamento, estes grãos que tiveram um aquecimento antes da secagem, tendem a desenvolver uma maior quantidade de defeitos metabólicos, que reduzem a tipificação final do produto, podendo comprometer o valor de comercialização. Desta forma, recomenda-se que grãos permaneçam no interior de silos pulmões, que possuem sistema de resfriamento natural ou artificial, sendo o principal objetivo reduzir a temperatura desses, para valores próximos a 15ºC, visando a redução do metabolismo destes grãos, e também as alterações.

 2.4. Cuidados no carregamento de silos e armazéns

O carregamento de silos e armazéns é fundamental para que se tenha uma uniformidade da massa de grãos de soja, e evite-se o acúmulo de matérias estranhas, impurezas e grãos quebrados em pontos específicos do interior do silo, que podem dificultar a aeração. Desta forma, deve-se realizar o carregamento do silo até 1/3 de sua capacidade, e realizar a remoção da parte central, após deve-se voltar a realizar o carregamento até 2/3 e remover novamente a parte central, e por fim, realizar o carregamento total, e remover a parte central, voltando após a realizar o carregamento total do silo, respeitando a distância de 1,2 a 1,5 metros da distância entre a massa de grãos e a cobertura do silo. A manutenção desta distância na cobertura do silo é fundamental para facilitar as trocas gasosas na cobertura, e evitar também que ocorra a condensação na superfície da massa de grãos. Para auxiliar nas trocas gasosas, e evitar que ocorra a condensação, a utilização de exaustores é fundamental, conforme observado na Figura 4.

Figura 4. Remoção da parte centra do silo (A) e sistemas de trocas de ar utilizados na cobertura dos silos (B).
Figura 4. Remoção da parte centra do silo (A) e sistemas de trocas de ar utilizados na cobertura dos silos (B).

2.5. Manejo de Termometria e Aeração

A colocação de sensores em pontos considerados críticos e o número de sensores utilizados devem ser adequados para que o manejo da aeração possa se dar de forma eficiente, sendo que a Instrução Normativa Nº 29 de 2011, que determina as condições mínimas para a Certificação de Unidades Armazenadoras de Grãos, recomenda um número de sensores compatível com o tipo da estrutura e a capacidade estática do armazém, sendo o mínimo a ser usado, de um ponto de leitura a cada 150 m3 de capacidade estática de armazenamento.

Para manutenção das características do interior da massa de grãos, é necessário ter como primeiro princípio de conduta a redução da temperatura do grão e, por conseguinte, intervir quando a temperatura do ar for inferior em alguns graus à temperatura do grão. São levados em conta dois fatores restritivos: a umidade relativa do ar e a diferença de temperatura entre o ar e o grão, sendo que o diagrama de aeração de grãos pode auxiliar nesses casos. Modernamente, a recomendação indica evitar ligar o ventilador nas horas em que as umidades relativas do ar forem muitas elevadas, entretanto, se continuar aumentando a temperatura dos grãos, para se dar início à operação de aeração, deve ser considerada a diferença em relação à temperatura histórica de equilíbrio, registrada pelo sistema de leituras diárias através da termometria.

Figura 5. Detalhes de sistema de termometria e aeração de silo vertical.
Figura 5. Detalhes de sistema de termometria e aeração de silo vertical.

2.6. Redução do metabolismo dos grãos

O metabolismo dos grãos, resultado do processo respiratório ocorre naturalmente, sendo que juntamente com o ataque de micro-organismos e insetos, podem resultar nas seguintes alterações: (1) aparecimento de manchas e descoloração, (2) alterações no odor, (3) aquecimento e compactação da massa de grãos, (4) produção de toxinas (micotoxinas), (5) redução do poder germinativo e vigor de sementes e (6) alterações na composição química e nutricional dos grãos e (7) consumo de matéria seca. A razão do grande sucesso dos fungos é a sua reprodução através de esporos, que podem ser transportados por água, vento, plantas, produtos e subprodutos. O crescimento fúngico e a produção de micotoxinas pode ocorrer nas diversas fases de desenvolvimento, maturação, colheita, transporte, processamento ou armazenamento dos grãos, entretanto, no armazenamento é fundamental a redução da atividade de água dos grãos para evitar o desenvolvimento destes, conforme observado na Figura 6.

Figura 6. Teor de grãos mofados ao longo do período de armazenamento de seis meses de soja nas temperaturas de 15, 25 e 35ºC com teores de umidade de 12% (A), 15% (B) e 18% (C).
Figura 6. Teor de grãos mofados ao longo do período de armazenamento de seis meses de soja nas temperaturas de 15, 25 e 35ºC com teores de umidade de 12% (A), 15% (B) e 18% (C).

O aumento no teor de grãos de soja mofados indica que na umidade de 12%, o teor de grãos mofados permaneceu constante durante os 180 dias de armazenamento. Já na umidade de 15%, apenas os grãos armazenados na temperatura de 35ºC obtiveram níveis de 100% de grãos mofados, porém nas temperaturas de 15 e 25ºC, os teores de grãos mofados foram superiores a 20%. Aos 90 dias os grãos armazenados nas três temperaturas com 18% de umidade já apresentavam 100% de grãos mofados, indicando a baixa qualidade tecnológica deste produto, sendo considerado abaixo do padrão básico de comercialização, ou seja, com baixo valor de mercado

Trabalhos desenvolvidos pelo GRUPO POS-COL avaliaram a tipificação dos grãos (Figura 7) ao longo do período de armazenamento nas temperaturas de 15 e 25ºC, os grãos forma classificados com padrão básico nas umidades de 12 e 15% até os 180 dias, porém os grãos com umidade de 18%, simulando grãos armazenados sem secagem, já aos 45 dias, o teor de grãos mofados foi elevado, e os grãos foram considerados fora de tipo. Na temperatura de 35°C o armazenamento com teor de água de 15% manteve o padrão básico por apenas 45 dias. Já para as temperaturas de 15 e 25°C o padrão básico se manteve até os 135 dias de armazenamento. Estes resultados devem-se ao limite máximo de grãos de soja mofados para o padrão básico é de 6%, conforme IN MAPA N°11/2007. Considerando os resultados obtidos, o processo de resfriamento da massa de grãos, durante o período de armazenagem, é uma técnica eficaz e econômica para a manutenção da qualidade do produto, pois diminui a atividade da água e reduz a taxa respiratória dos grãos, e também retarda o desenvolvimento dos insetos-praga e da microflora presente, independentemente das condições climáticas da região, sendo que a presença de umidade acima de 14,5% pode resultar no desenvolvimento de mofo se a temperatura de grãos ultrapassar a faixa entre 22-24°C durante um longo período de tempo.

Figura 7. Processo de classificação dos grãos de soja para posterior tipificação e comercialização.
Figura 7. Processo de classificação dos grãos de soja para posterior tipificação e comercialização.

Portanto, as boas práticas de armazenamento de grãos de soja são fundamentais para garantir uma matéria-prima de qualidade e segurança alimentar ao consumidor, devendo-se sempre adotar manejos corretos, onde práticas simples, se bem executadas garantem a manutenção das características destas por longos períodos, devendo-se nós, técnicos do setor, orientar e capacitar os profissionais envolvidos nesse segmento, para que possamos melhorar o cenário atual do segmento pós-colheita.

*Mais informações podem ser obtidas pelo E-mail ricardo.paraginski@iffarroupilha.edu.br

1 Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor do Instituto Federal Farroupilha – Campus Alegrete, Alegrete – RS, E-mail: ricardo.paraginski@iffarroupilha.edu.br

2Acadêmico do Curso de Engenharia Agrícola do Instituto Federal Farroupilha – Campus Alegrete e da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)

1 COMMENT

Deixar um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.