Em Boletim intitulado Sementes de Milho no Brasil – A
Dominância dos Transgênicos, lançado em Outubro/ 2018, os pesquisadores Israel Alexandre Pereira Filho e
Emerson Borghi avaliam o mercado de sementes de milho transgênico e não transgênico no Brasil. Para acessar o documento na integra, clique aqui.

O aumento do rendimento de grãos de milho no Brasil tem sido significativo graças ao uso consciente de novas tecnologias. Entre as principais, a biotecnologia aplicada ao desenvolvimento de híbridos com genética avançada, como as dos milhos Bt e RR, é a mais impactante no campo.

O produtor, sempre conectado a novas informações e atento à otimização dos recursos naturais, busca na adoção de práticas modernas de manejo aplicadas nos sistemas de cultivos o profissionalismo cada vez mais promissor nos campos.

O milho é considerado o alicerce do sistema produtivo brasileiro, em razão da sua plasticidade de épocas de cultivo, regiões produtoras e possibilidades de mercados no Brasil e, cada vez mais, no exterior.

Os ganhos constantes de produtividade têm relação direta com o desenvolvimento de novos híbridos mais responsivos e ao uso de práticas agronômicas mais adequadas para os diferentes ambientes de cultivo das regiões brasileiras.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Acompanhamento da Safra Brasileira [de] Grãos, 2018), em seu levantamento do mês de junho deste corrente ano, demonstra que, dos 229,75 milhões de toneladas de grãos previstas para a safra 2017/2018, aproximadamente 85 milhões de toneladas serão de milho (37%).

Em comparação com o ano anterior, são 12 milhões de toneladas a menos em comparação à safra 2016/2017 (97,9 milhões de toneladas), principalmente pela queda de produção em razão da restrição hídrica no milho segunda safra cultivado nos estados do Paraná e Mato Grosso do Sul, e também a redução de área cultivada com milho primeira safra face as condições econômicas mais favoráveis ao cultivo da soja nesta época do ano, principalmente na região Centro-Sul.

O clima foi fator preponderante na produtividade. Os dados apontam médias de produtividade de milho primeira safra ao redor de 118 sc/ha na região Centro-Sul do Brasil, 35% superior à média brasileira. Na segunda safra, a produtividade nesta porção do País é muito semelhante à produtividade das outras regiões produtoras.

Nesta época, embora a média seja de 84 sacas por hectare, não é raro produtividades em algumas regiões do Mato Grosso com médias acima de 120 sc ha-1 em diversas regiões do País (Acompanhamento da Safra Brasileira [de] Grãos, 2018).

Trabalhos de pesquisa utilizando modelagem matemática simulando diversas condições de cultivo demonstram potencial de produtividade utilizando híbridos modernos atuais que ultrapassa os 300 sc/ha-1, entretanto é necessário reconhecer que, para atingir esse potencial, é imprescindível que híbridos de alto potencial se desenvolvam num ambiente favorável, com suprimento adequado de água, controle de doenças, insetos e plantas daninhas, além de adequada fertilidade do solo.

Uma compilação dos dados de área, produção e produtividade de milho do Conab do levantamento de junho de 2018 está sintetizada na Tabela 1. É possível observar também os dados dos maiores estados produtores de milho primeira e segunda safra, respectivamente, Minas Gerais e Mato Grosso.

Um fenômeno interessante, que vem ocorrendo ao longo do tempo, é a inversão da área semeada com milho no Brasil. A área de milho cultivada no verão vem reduzindo gradativamente desde da safra 2008/2009, enquanto a safrinha vem crescendo desde a safra de 2005/2006 (Acompanhamento da Safra Brasileira [de] Grãos, 2018).

Até a safra 2011/2012, a área de milho verão, era superior à de safrinha, porém, a partir deste ano agrícola, a safrinha tornou-se a época de maior área semeada no Brasil, principalmente no sistema de sucessão com a soja (Figura 1).

Estes números mostram que o milho, juntamente com a soja, são as culturas produtoras de grãos mais importantes do País. Dados de consultorias especializadas em agronegócio apontam para uma exportação de 28 milhões de toneladas de milho neste ano. Além disso, os novos mercados se abrem no Mato Grosso com a implantação de usinas para produção de etanol e DDGS à base de milho, impulsionando os negócios e viabilizando o milho face às oscilações de mercado que este cereal enfrenta.

As novas oportunidades de negócios e o potencial crescente do Brasil na produção de alimentos no mundo estão provocando também mudanças estratégicas nas empresas de insumos.

Fusões de empresas multinacionais levaram a criação de novas marcas, além do aumento do interesse de países asiáticos, em especial a China, em negócios que vão desde a aquisição de bancos de germoplasma até empresas de comercialização de grãos.

O que pode parecer favorável sobre alguns aspectos mercadológicos acaba interferindo em pontos importantes, por exemplo, no acesso à informação.

A Embrapa Milho e Sorgo realiza desde a safra 2000/2001 um levantamento com as empresas produtoras de sementes milho no Brasil sobre as cultivares de milho que serão disponibilizadas para mercado, objetivando levar até ao produtor informações acerca dos materiais de milho disponíveis em cada safra.

A Figura 2 demonstra que houve um aumento no número de cultivares no mercado brasileiro a partir da safra 2009/2010, período em que as pesquisas e também alguns produtores já buscavam na semeadura de milho após a soja uma nova época de semeadura do milho.

A partir de então, o número de cultivares cresceu muito pouco, pois, com novos eventos sendo introgredidos em materiais já disponíveis no mercado, pode haver o engano de que novos materiais não estão disponíveis.

Porém, por meio do levantamento, é possível constatar que houve substituições, e os que foram lançados como novidades ocuparam o espaço de cultivares convencionais.

Tal afirmação é respaldada pela Figura 2, que demonstra a evolução de cultivares com algum evento transgênico desde a safra 2000/2001 até 2017/2018.

Importante ressaltar que o número de cultivares disponibilizadas no levantamento diminuiu substancialmente na safra 2016/2017, ano em que foram iniciadas as aquisições da Syngenta pela ChemChina além do início da fusão entre Dow e DuPont, além das negociações da Bayer com a Monsanto.

Por estratégias de mercado, algumas destas empresas optaram por não fornecer a lista de seus materiais de milho para este levantamento.

Correlacionando o número de cultivares com alguma tecnologia transgênica em relação ao número total de cultivares disponíveis no mercado em cada ano agrícola (Figura 3) constata-se que, no ano 2008/2009, ano de liberação do uso de cultivares transgênicas de milho no Brasil, a porcentagem de materiais com tecnologia transgênica representava apenas 6% do total.

A partir da safra seguinte (2009/2010), a proporção de transgênicos cresceu exponencialmente, e desde a safra 2014/2015 esta proporção fica acima de 60%, com exceção do ano agrícola 2015/2016.

Assim, é importante mencionar que, embora o número de cultivares disponíveis nestes dois últimos anos de levantamento seja menor, não significa que houve retração no lançamento de novos híbridos de milho.

A proporção de cultivares com alguma tecnologia transgênica vem se elevando e mantendo sempre uma porcentagem acima dos 59% do total, demonstrando a aptidão dos produtores pelas tecnologias hoje empregadas.

Pela análise destas informações, é possível inferir que, se todas as empresas, mesmo nestas novas configurações comerciais, enviassem suas listas atualizadas, a proporção de cultivares com evento transgênico seria muito diferente do levantamento realizado nesta publicação.

Análise do Levantamento

No levantamento da safra 2017/2018 foram relacionadas 298 cultivares, incluindo milho grão, silagem, pipoca e milho verde comum.

Do total das 298 cultivares, 195 são transgênicas, apresentando um ou mais eventos, e as restantes 103 são convencionais, o que significa que 65,43% das cultivares de milho que estão no mercado são transgênicas e apenas 34,56% são convencionais (Tabela 2).

A utilização de sementes com eventos transgênicos tem sido cada vez mais presente nas lavouras brasileiras, seja pelo menor custo de produção ou pela praticidade no manejo das culturas.

Todas as informações sobre as características de cada uma das cultivares, bem como tolerância ou resistência às pragas e doenças, estão detalhadamente nas Tabelas 7 e 8. Assim, elas mostram as recomendações dos materiais, objetivando facilitar o processo de tomada de decisão do produtor de qual a melhor cultivar para o objetivo desejado em consonância com sua região.

A adoção do milho transgênico na safrinha tem sido maior que na safra de verão, segundo a agência Céleres (2018). Segundo os dados publicados em relatório, o cultivo deverá chegar a 10,4 milhões de hectares, ou 91,8% da área total.

De acordo com o Conselho de Informações sobre Biotecnologia (2018) são cultivados no Brasil 50,2 milhões de hectares com sementes geneticamente modificadas e, deste total, 31% são de milho (15,6 milhões de hectares).

A Tabela 3 mostra que, em relação ao tipo de cultivar, os híbridos simples somaram 215 cultivares, representando 72% dos materiais informados neste levantamento. Em comparação ao ano agrícola 2016/2017, estas cultivares eram 213.

Na sequência, o levantamento mostra que os híbridos triplos representam 10,7% das cultivares, informação relevante principalmente para aqueles produtores que buscam híbridos com preço de semente mais acessível. Na sequência vêm os híbridos duplos e variedades com 8,7 e 5,3% dos cultivares levantados, respectivamente.

Existe no mercado uma pequena percentagem de híbridos simples e triplo modificados, porém, somados não alcançam 1% do total das 298 cultivares relacionadas.

Com relação aos ciclos das cultivares, predominam as precoces, que somadas representam 65,7% do total (Tabela 4). Esta representatividade mostra que as cultivares estão sendo disponibilizadas, em sua maior parte, para a semeadura em safrinha.

Esta tendência vem se consolidando, assim como constatado nos levantamentos do ano agrícola 2016/2017, conforme demonstra o trabalho realizado por Pereira Filho e Borghi (2016).

As informações repassadas neste levantamento ainda mostraram que 28,5% das cultivares informadas são de ciclo superprecoce, sendo cultivadas em sua grande maioria na região Sul. Apenas 5,7% das cultivares levantadas para o ano agrícola 2017/2018 são de ciclos semiprecoce, hiperprecoce e normal (Tabela 4).

A distribuição das cultivares transgênicas e convencionais em relação aos tipos de híbridos e variedades relacionadas na safra 2017/2018 está apresentada na Tabela 5.

As maiores variações encontradas no levantamento são para o híbrido simples. Além disso, no caso de híbrido simples modificado e variedade, o levantamento não encontrou versões transgênicas destes materiais.

Dentre os 195 híbridos transgênicos relacionadas, há 27 eventos que podem estar variando de um até quatro por cultivar, dependendo da tecnologia. Grande parte dos eventos estão agrupados em tecnologias como Optimum® Intrasect® (combinação de duas proteínas Cry1F e a Cry1Ab na mesma planta) e LeptraTM (combinação das tecnologias Agrisure® Viptera, YieldGard® e Herculex® I na mesma planta).

Os híbridos de milho com as tecnologias Herculex® I, Optimum® Intrasect® ou LeptraTM, além do controle das principais lagartas que atacam a cultura, possuem também tolerância aos herbicidas registrados para aplicação em pós-emergência da cultura do milho que apresentam como ingrediente ativo o glufosinato de amônio, bem como uma proteína específica para o controle da larva-alfinete, praga que fica abaixo da superfície do solo e se alimenta das raízes do milho, diminuindo a capacidade de absorção de água e nutrientes, impactando diretamente no crescimento e na produtividade da lavoura.

Na Tabela 6 é possível observar a divisão das quantidades de cultivares que apresentam algum evento transgênico levantadas com as empresas fornecedoras de sementes e que apresentaram informações para constar neste documento.

Dentre os eventos repassados pelas empresas para este levantamento a tecnologia Agrisure® Viptera PRO3 foi a mais utilizada (9,06%). Esta tecnologia apresenta como diferenciais o controle de lagartas da parte aérea (lagarta-da-espiga, lagarta-do-cartucho, lagarta-rosca e lagarta-elasmo) e, ainda, oferece tolerância ao herbicida glifosato.

Os eventos PRO, PRO2 e PRO3 representam 14% das cultivares no levantamento. As tecnologias menos empregadas nas cultivares deste levantamento são Agrisure® Viptera, GA21 e VIP2, com apenas 0,33% do total no levantamento (Tabela 6).

Importante ressaltar a presença de materiais somente com o evento Bt registradas neste levantamento, que somaram 3,02% do total de cultivares. Além disso, destaca-se o evento HX, encontrado em 2,34% das cultivares, está associada à tecnologia Liberty Link®, que confere aos híbridos tolerância ao herbicida glufosinato de amônia, e o Viptera PRO YieldGard®, este último presente em 4,69% das cultivares do levantamento. Esta última, com tecnologia Bt e duas proteínas (Cry1A.105 e Cry2Ab2), garante o controle da lagarta-do-cartucho, lagarta-da-espiga e da brocado-colmo. Os demais eventos apareceram menos percentualmente nas 195 cultivares transgênicas desta safra, que podem ser acessados na íntegra acessando o Boletim.

O boletim pode ser acessado pra download gratuito no Portal da Embrapa. Para acessar clique aqui.

Fonte: BOLETIM DE PESQUISA E DESENVOLVIMENTO, ISSN 1518-4277
Sementes de Milho no Brasil – A Dominância dos Transgênicos, publicado em Outubro/ 2018 de autoria dos pesquisadores Israel Alexandre Pereira Filho; Emerson Borghi.

 

Texto originalmente publicado em:
Embrapa
Autor: Embrapa Milho e Sorgo

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