Cálculo da eficiência do controle da ferrugem da soja para igualar ao custo da aplicação terrestre de fungicida

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Autores: Erlei Melo Reis1, Mateus Zanatta2 e Andrea Camargo Reis2

O objetivo da fitopatologia é o manejo de doenças de plantas. Controlar não significa somente reduzir a intensidade da doença, mas sim resultar em ganho financeiro ao reduzir os danos causados.

A ciência da fitopatologia aceita o princípio do Manejo integrado de doenças (MID): “utilização de todas as técnicas disponíveis dentro de um programa unificado de tal modo a manter a população de organismos nocivos (doenças) abaixo do nível de dano econômico (NDE) e a minimizar os efeitos colaterais deletérios ao meio ambiente” (NAS, 1969).

A afirmação feita por Main (1977) de que os agricultores cultivam a terra (soja) para ganhar dinheiro e não para alimentar os famintos…”, salienta que o lucro continua a ter um papel fundamental, considerado o pilar da sustentabilidade econômica e, sem ele, as empresas não sobrevivem.

Em geral, no controle de insetos-praga, tem sido tomado como base do controle econômico uma eficiência >80% (McCarl, 1981; Reunião, 2016). Seria esse o controle eficiente e econômico também para doenças? Esse valor do controle para doenças não foi encontrado na literatura consultada.

Para facilitar o entendimento do texto recapitula-se os conceitos de dano e de perda em fitopatologia e lembrando-se que a ciência biológica sem números não tem valor (BEHE, 1997).

Dano (kg/ha) – é qualquer redução na qualidade ou na quantidade da produção devido ao ataque de um organismo nocivo numa lavoura (Nutter et al., 1993). Dano, portanto, corresponde à redução no rendimento de grãos da soja devido à ferrugem.  O dano econômico depende da quantidade e não da simples presença da ferrugem numa lavoura.

Perda (R$) – é a redução no retorno financeiro por unidade de área devido ao dano causado pela ferrugem (Nutter et al., 1993). Portanto, é o dano expresso e unidade monetária (R$).

Dados de experimentos do controle da ferrugem da soja conduzido na safra 2015/16 (Passo Fundo, RS) com diferentes programas de tratamentos com fungicidas (n=43) e os efeitos no controle da ferrugem e no rendimento de grãos/ha, foram analisados na busca às respostas formuladas. Foi usado nos cálculos, como exemplo, o preço da soja de R$ 70,00/60kg de grãos (em fevereiro de 2017). No cálculo do dano foi tomada a produção máxima obtida nos experimentos de 5132 kg/ha, da qual foram subtraídos os rendimentos correspondentes ao controle em de cada tratamento.

No cálculo do custo da aplicação de fungicida visando ao controle da ferrugem da soja, se levou em conta o amassamento da cultura pelo rodado do equipamento (bitola dos pneus, comprimento da barra de pulverização; aqui calculado considerando equipamento com GPS), o rendimento potencial da lavoura (kg/ha), o valor da soja (R$/saco de 60 kg), o custo da hora de uso do equipamento (combustível) e salário do o operador (Boller, 2010). O dano do amassamento foi considerado apenas para a primeira aplicação. Portanto, o dano (kg/ha) e a perda (R$/ha) resultante do amassamento não foram considerados na segunda e demais aplicações de fungicida. Os valores de depreciação de máquinas também não foram incluídos.

O custo do tratamento químico foi baseado em Boller (2010) e calculado para uma, duas, três e quatro aplicações/ha (incluindo o amassamento na primeira aplicação):

Demonstrativo de custo de uma aplicação/ha:

  • fungicida (de R$ 50,00 a 124,00):………………………….média R$ 74,00
  • amassamento da soja (de R$ 159,00 a R$ 314,50):…….média R$ 228,00
  • combustível:…………………………………………………….média R$ 20,00
  • salário opera ……………………………………………………………R$ 20,00
    • Custo total:…………………………………………………………..R$ 352,00.

Portanto,

  • Uma aplicação:…………………………….R$ 352,00, ou 301 kg de soja/ha;
  • Duas aplicações:…………………………..R$ 476,00, ou 407 kg de soja/ha;
  • Três aplicações:……………………………R$ 546,00, ou 467 kg de soja/ha;
  • Quatro aplicações:………………………..R$ 724,00, ou 619kg de soja/ha.

Com os dados do experimento citado, foi estabelecida a relação entre o rendimento de grãos de soja e o controle obtido expressa pela função R = 1927,9 kg/ha + 31,633 kg*C com R² = 0,86 (onde R = rendimento de grãos kg/ha, C = controle (%) da ferrugem e R2 o coeficiente de determinação).  Para cada 1% de controle da ferrugem existe uma probabilidade de aumento no rendimento de 31,633 kg/ha considerando o menor rendimento de grãos de 1927,9 kg/ha no tratamento sem controle (Fig. 1).

Figura 1. Relação positiva entre o rendimento de grãos da soja (kg/ha) e o controle (%) químico da ferrugem.

Com os mesmos dados do experimento citado, obteve-se a relação entre o controle (C, %) e o dano (D, kg/ha) cuja função foi: C = 95,127 – 0,0269 D, com R² = 0,85, indicando que para cada 1 kg/ha de dano, ocorreu uma redução de 0,0269 kg/ha de grãos de soja (Fig. 2).

Figura 2. Relação inversa entre o controle (C, %) e o dano (D, kg/ha) causado pela ferrugem da soja.

Com a equação obtida (Fig. 2) se pode obter a resposta à pergunta de quanto de controle é necessário para igualar o custo (R$) em função do número de aplicações.

Como não é fixo o número de aplicações de fungicidas visando ao controle da ferrugem, apresenta-se o cálculo para número variável:

a) Controle necessário para igualar o custo de uma aplicação:

  • C = 95,127 – 0,0269 D (kg/ha);
  • D = 301 kg/ha;
  • C (%) = 95,129 – 0,0269*301;
  • C = 88,3% de controle.

b) Controle necessário para igualar o custo de duas aplicações:

  • C = 95,127 – 0,0269 D (kg/ha);
  • D = 407 kg/ha;
  • C (%) = 95.127 – 0,0269*407;
  • C = 85,2% de controle.

c) Controle necessário para igualar o custo de três aplicações:

  • C = 95,127 – 0, 0269*D (kg/ha);
  • D = 467 kg/ha;
  • C (%) = 95,127 – 0, 0269 *467;
  • C = 82,6% de controle.

d) Controle necessário para igualar o custo de quatro aplicações:

  • C = 95,127 – 0, 0269 D (kg/ha);
  • D = 619 kg/ha;
  • C (%) = 95,127 – 0,0269 *619;
  • C = 78.5% de controle.

Com a análise dos dados, o controle (%) necessário para igualar o custo do controle em função do número de aplicações oscilou de 78,5% a 88,3%, dependente do número de aplicações.

O Agrônomo engajado na assistência técnica deveria (ajudar o produtor a ganhar mais dinheiro) determinar o custo da aplicação para a situação particular de cada lavoura (fungicida, dose, equipamento de pulverização, com e sem GPS, gastos com combustível e salários) e o controle obtido em cada safra. Os valores aqui calculados devem ser tomados apenas como exemplo orientador.

Considerando a eficiência atual (safra 2016/17) dos fungicidas em função do desenvolvimento da resistência de Phakopsora pachyrhizi Sydow & Sydow (isolados ou em misturas de monossítios) (Reis et al, 2015) o controle (%) obtido resulta na cobertura dos custos da aplicação do fungicida? Se o controle >80% é necessário para tal, qual o controle atual das misturas (triazóis + estrobilurinas; carboxamidas + estrobilurinas) obtido em cada lavoura? Para isso, os técnicos deveriam determinar também a eficácia do controle (%) em cada lavoura e em cada safra.

A importância desse texto é evidenciada quando se comparam os cálculos feitos mostrando a necessidade de controle >80%, com algumas providências tomadas por órgãos oficiais. Tanto a ADAPAR (Agência de Desenvolvimento da Agricultura do Paraná (Portaria nº 91, 2105/2015)) como o MAPA (Portaria nº 84, de 16 de agosto de 2016, Art. 4º parágrafo único) têm alertado os produtores quanto a dificuldade de controle (<80%)da ferrugem em função da redução da eficiência dos fungicidas. (www.agricultura.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid…tit=Adapar) (https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/19373781/mapa-suspende-registro-de-63-fungicidas-para-controle-da-ferrugem-da-soja).

Se o controle químico atual da ferrugem da soja não resultar em eficiência >80% o lucro está sendo reduzido pela deficiência do controle. Se a perda (R$) devido à ferrugem, for maior do que o custo (RS) do controle se deve buscar melhorar o controle. Behe (1977) afirmou que a ciência biológica sem números não tem valor!

É, pois, fundamental se saber o custo/ha e o controle (%) obtido nas lavouras de soja em cada safra.

Sabendo-se o controle (%) da ferrugem obtido em lavouras comerciais se pode calcular o dano (kg/ha) e a perda (R$/ha) ocorrentes. Por exemplo, se o controle for de 90, 80, 70, 60 ou 50% qual o dano e a perda correspondentes? O cálculo pode ser feito com a função de regressão da Figura 3, D = 3180,3 – 30,9993*C (onde D é o dano, C o controle e R2 o coeficiente de determinação.  Substituindo os valores de C por 90, 80, 70 60 e 59% na equação tem-se a resposta para a pergunta.

Figura 3. Relação inversa entre o dano (D, kg/ha) e o controle (C, %) causado pela ferrugem da soja.

Por exemplo: para uma lavoura com rendimento potencial de 3180,3 kg/ha, e onde o controle da ferrugem foi de 90%; D = 3180,3 – 30,9993*C; ou D = 3180,3 – 30,9993*90; ou D = 390 kg/ha; e P = perda, R$ 455,00.

Assim se pode calcular para os demais valores de controle:

  • Controle de 80% o dano calculado é de 700,3 kg/ha e a perda de R$ 819,35.
  • Controle de 70% o dano calculado é de 1010,4 kg/ha e a perda de R$ 1182,17.
  • Controle de 60% o dano calculado é de 1320,7 kg/ha e a perda de R$ 1542,24.
  • Controle de 50% o dano calculado é de 1630,3 kg/h e a perda de R$ 1907,49.

Esses danos podem ser normalizados para qualquer produção obtida numa lavoura!

Finalmente, considerando importância do MID, a literatura científica apresenta poucas alternativas técnicas como suporte científico e racionalmente fundamentada para a primeira aplicação de fungicidas numa cultura (Fawcett & Lee, 1926; Stern et al. 1959; FAO, 1967, NAS, 1969; Zadoks, 1985; Zadoks & Schein, 1979; Munford & Norton, 1984; Bergamin Filho e Amorin, 1996).

Referências

BEHE, M. A caixa preta de Darwin. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editora Ltda. 300p., 1997.

BERGAMIN FILHO, A.; AMORIM, L. Doenças de plantas tropicais: epidemiologia e controle econômico. São Paulo: Agronômica Ceres, 1996. 289p.: il.

BOLLER, W. Aspectos econômicos da aplicação de fungicidas em órgãos aéreos. In: Reis, E. M. Org. Critérios indicadores do momento para a primeira e intervalo de aplicações de fungicidas nas culturas de soja e trigo. Passo Fundo, Aldeia Norte Editora. 2010.

FAO. Report of the first session of the F.A. O. Panel of experts on integrated pest control. F.A. O. Meeting Report. No. PL/1967/M/7. Annals, Rome.

FAWCET, H. S.; LEE, H. A. Citrus diseases and their control. McGraw-Hill, New York. 1926.

MAIN, C.E. Crop destruction – the raison d’être of plant pathology. In: HORSFALL, J.G. & COWLING, E.B. (Ed.) Plant disease an advance treatise. How disease is managed. New York. Academic Press. pp 55-78. 1977.

McCARL, B.A. 1981. Economics of integrated pest management: An interpretive review of the literature. Oregon Agric. Exp. Stn. Spec. Rep. 636, 142p. 1981.

MUNFORD, J. D.; NORTON, G. A. Economics of decision making in pest management. Ann. Rev. Entomology 29:157-174.1984.

NAS. Insect pest management and control. Public. 1695. National Academy of Sciences, Washington. 1969.

NUTTER, F. W.; TENG, S. P.; ROYER, M. H.  Terms and concepts for yield, crop, and disease threshold. Plant Disease 77:211-215. 1993.

REIS, E. M. et al. Redução da sensibilidade de Phakopsora pachyrhizi a fungicidas e estratégia antirresistência. Por que os fungicidas falham. 2. ed. rev. e atual., 2015. 56p.

REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA DA REGIÃO SUL (41. : 2016 : Passo Fundo, RS) Ata e resumos [recurso eletrônico] / editores técnicos, José Roberto Salvadori, Benami Bacaltchuk. – Passo Fundo : Ed. Universidade de Passo Fundo, 2016. 6.280Kb; PDF Modo de acesso: < http://www.rpspassofundo.com.br/index.html>

STERN, V.M.; SMITH, R.F.; van den BOSCH, R.; HAGEN, K.S. The integrated control concept. Hilgardia 28:81-101. 1959.

ZADOKS, J. C. On the conceptual basis of crop loss assessment: the threshold theory. Annual Review of Phytopathology 23:455-473. 1985.

ZADOKS, J.C.; SCHEIN, R.D. Epidemiology and plant disease management. New York Oxford University Press, 1979. 427p.

Informações sobre os autores:

  1. Programa de Pós-graduação Universidade de Buenos Aires – AR
  2. Agroresearch/Agroservice – Pesquisa e consultoria agrícola. Passo Fundo, RS

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