O aumento da radiação solar e redução da precipitação, são fatores que contribuem para a maior incidência da maioria das pragas.

Elas conseguem sobreviver melhor em condições de baixa umidade. Aliado ao estresse hídrico que a planta pode sofrer, as pragas se aproveitam e se reproduzem mais rapidamente, podendo gerar diversas gerações de descendentes em um curto período de tempo.

No texto de hoje, vamos estudar as consequências de elevação da temperatura e precipitação e, sua relação com as principais pragas agrícolas.

Figura 1. Lagarta Helicoverpa armigera atacando plântulas em condições de alta temperatura.

Lagartas

A lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus), apresenta faixa ótima de desenvolvimento de 27-33°C (Bueno et al., 2017).

 Quando ocorre altas temperaturas no início do desenvolvimento da plântula, a praga possui elevada capacidade de infestar e provocar destruição do estande de plantas. Para a lagarta-falsa-medideira (Chrysodeixis includens), a faixa ideal de temperatura é entre 25-28°C, como é possível observar na tabela 1.

Tabela 1. Faixas de temperaturas favoráveis para o desenvolvimento e reprodução de falsa-medideira.

Fonte: Bueno et al. (2017).

Na Região Sul, que apresenta temperaturas inferiores ao resto do país em alguns períodos do ano, a praga apresenta alta população, sendo considerada um dos principais lepidópteros na soja. Com o aumento da temperatura na região, a tendência é aumentar a densidade populacional da praga.

Surtos populacionais são normais com temperaturas elevadas, evidenciando sua densidade populacional significativa em regiões do norte do Paraná até as regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil.

Na tabela 2, observe que independente da temperatura, 25, 30 ou 40°C o nível de consumo das folhas foi extremamente alto. Taxas de desfolha de 30% já resultam na necessidade de entrarmos com controle na fase vegetativa da cultura.



É possível observar uma ampla faixa de temperatura (15°C) a qual as pragas se adaptam para manterem o seu desenvolvimento. Isso indica que as pragas podem se adaptar e persistirem nas lavouras, acarretando em prejuízos de desfolha e na redução do rendimento dos grãos.

Tabela 2. Desfolha (%) em plantas de soja Bt e não Bt, causada por Chrysodeixis includens, nos estádios fenológicos V5 e R1.

Fonte: Carvalho (2017).

Figura 2. Danos de lagartas desfolhadoras.

A lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) apresenta redução do ciclo de vida quando se encontra em elevadas temperaturas, pois ocorre aceleração do metabolismo. Como se desenvolve rapidamente, acarreta em subdesenvolvimento larval e mortalidade. A faixa ideal de desenvolvimento da desfolhadora, é igual da falsa-medideira e lagartas do Complexo Spodoptera: 25-28°C.

A lagarta Helicoverpa armigera apresenta elevada sobrevivência em condições de alta umidade relativa do ar. Quando encontramos elevada umidade do ar, ocorre redução da fase larval (Bueno et al. 2017).

Quanto menor o número de dias na fase de lagarta, mais rápido ocorrerá a reprodução e mais descendentes serão gerados. Fato indica que regiões com temperaturas elevadas e alta umidade, são cenários ideais para o desenvolvimento dessa praga devastadora.

Para as lagartas do Complexo Spodoptera, a faixa ideal de desenvolvimento é de 25-28°C. Temperaturas superiores a esses valores podem interferir negativamente na população das pragas. Quando encontra boas condições, podem gerar mais de 10 gerações anuais da praga (Bueno et al. 2017).

Figura 3. Ataque de Spodoptera eridania.

Ao contrário da radiação solar, as precipitações de alguma forma impedem o desenvolvimento das pragas.

Como notamos na figura 4, as chuvas foram elevadas até o estágio R2 (final do florescimento), o que possibilitou posteriormente significativo aumento da população de lagartas, atingindo cerca de 10.m-2 em plantas de soja não-Bt.

Figura 4. Lagartas em função da precipitação (mm.semana-1).

Fonte: Luz (2016).

Percevejos

Para os percevejos, como o percevejo-marrom, sendo considerado o principal sugador na cultura da soja, a faixa de temperatura ideal também se situa próxima dos 26-28°C, como notamos na tabela 3.

A procura por radiação é ainda mais intensa nos percevejos. Quando ocorre os primeiros feixes de iluminação solar no início da manhã, os sugadores sobem para o dossel superior da planta a fim de se aquecerem e estimularem a movimentação. Por isso, indica-se que as aplicações químicas sejam realizadas nestes períodos, quando encontramos as pragas mais expostas às moléculas de inseticidas.

O percevejo-marrom permanece na entressafra da cultura da soja, abrigando-se em plantas hospedeiras. Quando ocorre os veranicos no período de outono/inverno, as condições climáticas favorecem o seu desenvolvimento, podendo incidir na cultura da soja com maior população de pragas.

Tabela 3. Faixas de temperaturas favoráveis para o desenvolvimento e reprodução do percevejo-marrom.

Fonte: Bueno et al. (2017).

Contudo, para o percevejo-verde (Nezara viridula), altas temperaturas (27-37°C) podem desfavorecer a sua sobrevivência. Por isso é mais encontrado na região sul do país, onde encontramos temperaturas mais amenas (Bueno et al., 2017).

 Da mesma forma, o percevejo-asa-preta (Edessa meditabunda) está mais adaptado a condições amenas.

O percevejo-verde-pequeno (Piezodorus guildinii) é o sugador mais bem adaptado ao clima, podendo estar presente em regiões com temperaturas quentes e frias do país. No entanto, em regiões mais quentes, o percevejo-marrom e verde-pequeno são os sugadores mais abundantes.

Figura 5. Percevejo-marrom atacando legumes de soja.

O percevejo-barriga-verde (Dichelops melacanthus), em condições de 20°C apresenta quase 100% de mortalidade (Bueno et al., 2017).

 A sua preferência por altas temperaturas implica na maior incidência da praga no final do seu ciclo da soja e com grande abundância na safrinha.

Podemos observar que as elevadas temperaturas favorecem lagartas e percevejos. Além disso, o ciclo de vida das pragas é reduzido. Isso significa que quanto maior a temperatura, maior o número de gerações de pragas e maior será o número de indivíduos.

Pragas secundárias

Além de lagartas e percevejos, outras pragas com importância secundária também são favorecidas com o aumento da temperatura e redução da umidade relativa do ar. São insetos como ácaros, tripes e mosca-branca que se aproveitam de altas temperaturas e se reproduzem rapidamente.

Em relação aos ácaros, quanto maior a temperatura maior a taxa de sobrevivência. A faixa ideal de desenvolvimento dessas pragas é de 25-30°C (Bueno et al., 2017). Em casos de estiagem, a praga pode causar sérios danos à cultura da soja.

Como as condições ambientais afetam a população de ácaro-rajado (Tetranychus urticae), um dos principais na cultura da soja (Chinniah et al., 2009)?

  • O aumento de 1°C na temperatura eleva a população em 1,184%;
  • O acréscimo de 1% na umidade, reduz a população em 0,218%;
  • 1mm de chuva corresponde a uma redução de 0,195% de ácaros.

Verificamos que dependendo das condições ambientais, o próprio clima pode controlar naturalmente a praga através dos fatores abióticos.

Tripes (Frankiniella schultzei), um inseto sugador-raspador, apresenta faixa ótima de desenvolvimento de 25-28°C. A chuva desfavorece a praga, pois limpa os folíolos com as gotículas de água.

A mosca-branca (Bemisia tabaci) apresenta faixa ótima de 26-30°C. Entretanto, em condições superiores a 32°C, apresenta tolerância e adaptação (Bueno et al. 2017).

Isso corrobora com o poder destrutivo da praga em condições de verões extremamente quentes.

Considerações finais

A maioria das pragas se estabelece em condições de elevadas temperaturas, com uma média de faixa ideal de 25-30°C. Temperaturas extremas podem afetar negativamente o desenvolvimento dos insetos, como abaixo de 20°C e superior a 30°C.

Quando ocorre alta radiação solar, as populações das pragas apresentam ciclo de desenvolvimento menor, acarretando em rápido crescimento e maior reprodução de indivíduos. O resultado é a alta incidência de insetos.

Em anos com estiagem e temperaturas ideais para ocorrência de lagartas, percevejos, ácaros, tripes e mosca-branca, recomenda-se monitorar as lavouras de soja com maior intensidade e regularidade semanal. Em locais onde a temperatura é sempre elevada, os cuidados devem ser redobrados.

As precipitações são fatores abióticos que reduzem naturalmente a população, principalmente de insetos menores, pois ocorre a lavagem das folhas e mortalidade das pragas.


Veja também: Quantos dias vive um percevejo?


Referências

BUENO, Adeney et al. Efeitos do aquecimento global sobre pragas de oleaginosas. Embrapa, Aquecimento Global e Problemas Fitossanitários, 2017. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/165241/1/2017LV03.pdf >, acesso em: 11/11/2020.

CARVALHO, Marina Mouzinho. Arranjos de semeadura e acão da temperatura na resposta de plantas de soja ao ataque de Euschistus heros (Fabricius)(Hemiptera: Pentatomidae) e Chrysodeixis includens (Walker)(Lepidoptera: Noctuidae). 2017. Tese de Doutorado, Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp. Disponível em: < https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/151005/carvalho_mm_dr_bot_int.pdf?sequence=4&isAllowed=y >, acesso em: 11/11/2020.

CHINNIAH, C.; VINOTH KUMAR, S.; MUTHIAH, C.; RAJAVEL, D. S. Population dynamics of two spotted spider mite, Tetranychus urticae Koch in brinjal ecosystem. Karnataka Journal of Agricultural Sciences, v. 22, n. 3, p. 734-735, 2009. Disponível em: < http://14.139.155.167/test5/index.php/kjas/article/view/1602 >, acesso em: 11/11/2020.

LUZ, Priscila Maria Colombo da. Noctuóideos e parasitoides associados à soja não-Bt e Bt (Cry1Ac) no Cerrado. Universidade de Brasília, Dissertação de mestrado, 2016. Disponível em: < https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/23416/1/2016_PriscilaMariaColombodaLuz.pdf >, acesso em: 11/11/2020.

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Redação: Equipe Mais Soja.

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