O objetivo deste trabalho foi avaliar o IAF para a cultura da soja em diferentes épocas de semeadura no ambiente de terras baixas e verificar o comportamento das produtividades a partir destas variáveis.

Autores: Ioran Guedes Rossato1, Nereu Augusto Streck1, Gean Leonardo Richter1, Alexandre Ferigolo Alves1, Bruna San Martin Rolim Ribeiro1, Stefanía Dalmolin da Silva1, Ary José Duarte Junior1, Gilmara Peripolli Tonel1, Nícolas Leonardi1, Guilherme Foletto Pozzobon1, Isadora Hübner Brondani1, Giovana Ghisleni Ribas1

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

A cultura da soja é o principal commodity agrícola do Brasil, que apresentou uma produção de 110,2 milhões de toneladas no ano agrícola 2016/2017, sendo o segundo maior produtor mundial do grão, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Os principais estados produtores de soja são Mato Grosso (27,3%), Paraná (17,7%) e Rio Grande do Sul (16,9%) (CONAB, 2017). Nos últimos 20 anos, a área de cultivada com soja duplicou-se devido à alta demanda do setor produtivo e ao crescimento mundial no consumo deste grão.

O aumento da área cultivada e da produtividade da soja no Brasil e, mais especificamente no RS, deve-se a novas tecnologias de produção nos últimos anos, como a utilização de cultivares de ciclo precoce e de tipo de crescimento indeterminado, semeaduras precoces e tardias e o aumento do cultivo de soja em áreas de terras baixas (ZANON, 2015).

O máximo rendimento da soja é determinado pela capacidade de as plantas interceptarem radiação solar através do índice de área foliar (IAF) e converterem esta radiação em matéria seca pelo processo fotossintético. O IAF é a relação entre a área foliar (AF) e a área de solo ocupada pelo cultivo (HEIFFIG et al., 2006; ZANON et al., 2015). A evolução do IAF ao longo do ciclo de desenvolvimento depende da época de semeadura, genótipo, densidade de plantas, espaçamento entre linhas e manejo fitossanitário (ZANON et al., 2015).

O objetivo deste trabalho foi avaliar o IAF para a cultura da soja em diferentes épocas de semeadura no ambiente de terras baixas e verificar o comportamento das produtividades a partir destas variáveis.

O trabalho foi conduzido na Área Experimental da AGRUM Tecnologias Integradas, no interior de Santa Maria, RS. As cultivares utilizadas neste trabalho foram: i) NA 4823 RR1 (cultivar com o grupo de maturidade relativa 4.8, com alto potencial produtivo e super-precocidade) ii) 5855 RSF IPRO (ou BMX ELITE IPRO, cultivar de grupo de maturidade relativa 5.5, porte médio com elevado potencial produtivo e precocidade) e iii) 68i70 IPRO (ou BMX ÍCONE IPRO, de grupo de maturidade relativa 6.8, alto potencial produtivo com semiprecocidade).

As três cultivares possuem tipo de crescimento indeterminado. O delineamento experimental utilizado neste trabalho foi de blocos ao acaso, com 3 repetições. As datas de semeadura foram selecionadas afim de representar todo o período recomendado para o estado do RS, sendo elas: i) 05/10/2017 (representando a época 1); ii) 30/11/2017 (época 2); e iii) 10/01/2018 (época 3). A avaliação da área foliar foi realizada através de um método não destrutivo que consiste em mensurar quinzenalmente o comprimento e a largura dos folíolos centrais das folhas na haste principal e nas ramificações das plantas.

Na primeira época de semeadura (05/10/2017) a cultivar BMX Ícone IPRO apresentou produtividade de 107 sacos ha-¹, enquanto que a cultivar BMX Elite IPRO produziu 83 sacos ha-1. O IAF também foi superior na BMX Ícone IPRO: o pico da cultivar ocorreu entre 11 e 12 (Figura 1), sendo que na BMX Elite IPRO ocorreu entre 5 e 6 (Figura 2).

Um dos momentos críticos do desenvolvimento da cultura da soja é o período reprodutivo. Neste momento, é essencial que não ocorra nenhum estresse para as plantas afim de que não haja redução no potencial produtivo das cultivares.

Neste sentido, no momento em que ocorre o pico de IAF nas duas cultivares (entre 100 e 110 DAS na cultivar BMX Ícone IPRO e entre 120 e 130 DAS na cultivar BMX Elite IPRO), as plantas encontram-se em dois momentos do desenvolvimento distintos: a cultivar BMX Ícone IPRO finalizando a formação dos legumes e entrando em R5 (início do enchimento de grãos, segundo a escala fenológica de Fehr & Caviness, 1977) enquanto que a cultivar BMX Elite IPRO está na metade do enchimento de grãos.

Dessa maneira, em um dos períodos mais críticos para a cultura, o IAF encontra-se acima dos 6,3 necessários para se atingir altas produtividades (TAGLIAPIETRA et al., 2018), o que permite a perda de área foliar por qualquer eventualidade sem que haja decréscimo de produtividade na cultivar BMX Ícone IPRO (Figura 1). Já para a BMX Elite IPRO a perda de área foliar neste momento demanda maior atenção, pois não atinge o IAF ótimo para altas produtividades (Figura 2).

Figura 1. Evolução do IAF na cultivar BMX Ícone IPRO durante as três épocas de semeadura. Santa Maria, 2018.

As produtividades entre as duas cultivares avaliadas na segunda época de semeadura foram semelhantes: a cultivar BMX Ícone IPRO produziu 79 sacos ha-1 enquanto a cultivar NA 4823 RR, 78 sacos ha-1. Além disso, o comportamento do IAF nessas cultivares foi similar, sendo que o pico ocorreu entre 5,5 e 6,5 (Figura 1 e 2).

Figura 2. Evolução do IAF nas cultivares BMX Elite IPRO e NA 4823 RR (época 2) durante as três épocas de semeadura. Santa Maria, 2018.

Em decorrência da diferença entre os ciclos das cultivares, a ocorrência do período reprodutivo e do momento do enchimento de grãos foi distinta: a cultivar NA 4823 RR inicia o período reprodutivo antecipadamente à BMX Ícone IPRO (37 DAS e 55 DAS, respectivamente). O enchimento de grãos na NA 4823 RR ocorre aos 75 DAS, quando o IAF está entre 5 e 6 (Figura 2). Aos 83 DAS inicia o estádio R5 na cultivar BMX Ícone IPRO, sendo que o IAF neste momento coincide com o da outra cultivar analisada (Figura 1).

Com semeadura na primeira quinzena de janeiro de 2018, percebeu-se o encurtamento do ciclo das cultivares, sendo que foram, em média, 100 dias de ciclo. O encurtamento do ciclo foi influenciado pelo aumento da temperatura nesta época, ou seja, para maiores temperaturas, maior o efeito catalisador dos processos biofísicos e bioquímicos das plantas e menor a duração entre os estádios de desenvolvimento (ZANON et al., 2018).


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O máximo valor de IAF obtido para as cultivares BMX Ícone IPRO e BMX Elite IPRO foi de 2,7 e 1,5, respectivamente (Figura 1 e 2). Com IAF muito distante do IAF para a obtenção de altas produtividades, foram obtidos 22 sacos ha-1 para a cultivar BMX Ícone IPRO e 25 sacos ha-1 para a cultivar BMX Elite IPRO. Outro fator relevante a ser destacado é o fato de que em semeaduras mais tardias a contribuição das ramificações para o IAF baixa significativamente, o que interferiu para a obtenção do IAF total.

Nesse contexto, com o intuito de maximizar a produtividade nas lavouras de soja em terras baixas, a semeadura antecipada mostrou-se mais eficiente. Deve-se considerar o grau de maturidade relativa (GMR) no momento da decisão sobre qual cultivar semear, além das suas características genéticas (capacidade de ramificação, potencial produtivo e recomendação para áreas de várzea). Assim, para semeaduras antecipadas, é mais viável a utilização de cultivares com GMR maior. Além disso, o IAF máximo foi obtido em torno de R5 em todas as cultivares e nas três as épocas de semeadura, confirmando a característica das cultivares de tipo de crescimento indeterminado (ZANON et al., 2015).

Referências

CONAB. Acompanhamento da safra brasileira: grãos. Disponível em: < http://www.conab.gov.br/OlalaCMS/uploads/arquivos/17_08_10_11_27_12_bol etim_graos_agosto_2017.pdf >. Acesso em: 21 jun 2018.

Fehr, W. R., & Caviness, C. E. (1977). Stages of soybean development (Special Report, 80). Ames: Iowa State University of Science and Technology. 15 p.

Heiffig, L. S., Câmara, G. M. S., Marques, L. A., Pedroso, D. B., & Piedade, S. M. S. (2006). Fechamento e índice de area foliar da cultura da soja em diferentes arranjos espaciais. Bragantia, 65, 285-295. http:// dx.doi.org/10.1590/S000687052006000200010.

Tagliapietra, Eduardo Lago et al. Optimum Leaf Area Index to Reach Soybean Yield Potential in Subtropical Environment. Agronomy Journal, v. 110, n. 3, p. 932-938, 2018.

Zanon, Alencar Junior et al. Ecofisiologia da soja visando altas produtividades. 1 ed. Santa Maria, 2018.

Zanon, Alencar Junior et al. Contribuição das ramificações e a evolução do índice de área foliar em cultivares modernas de soja. Bragantia, v. 74, n. 3, p. 279-290, 2015.

ZANON, Alencar Junior. Variáveis meteorológica e de manejo que influenciam índice de área foliar, desenvolvimento e rendimento potencial em soja no Rio Grande do Sul. 2015. 151 p. Tese (Doutorado em Agronomia). Universidade Federal de Santa Maria, UFSM, Santa Maria, 2015.

Informações dos autores:  

1Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Avenida Roraima, n° 1000, CEP 97105-900, Santa Maria – RS, Brasil.

Disponível em: Anais da 42ª Reunião de Pesquisa de Soja da Região Sul, Três de Maio – RS, Brasil, 2018.

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