A consolidação da cadeia produtiva da soja no sul do estado do Maranhão (Brasil): trajetórias tecnológicas

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A questão central desse trabalho foi identificar as trajetórias de inovações tecnológicas, sobretudo, das cultivares de soja, responsáveis pela dinâmica expansiva da cadeia produtiva da soja no sul do território maranhense.

Autores: CUNHA, R. C. C. 1; ESPÍNDOLA, C. J.2

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Introdução

O novo padrão de produção da agricultura brasileira é a expressão da aplicação das conquistas da ciência moderna na agricultura e das novas formas de organizar a produção agrícola. Delgado (1984), Dall´Agnol (2004) e Campos (2010) sublinham a atuação efetiva do Estado brasileiro, sobretudo, entre outras: na política tecnológica, com ênfase a partir da criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Sistema Nacional de Inovação (SNI), por meio da introdução de inovações, como a adaptação e a inserção de novas cultivares em diversas regiões. Essas inovações ajudaram no crescimento da produção de grãos – especialmente a soja – e no processo de expansão nas regiões de cerrado, com destaque para o Centro-Oeste (Mato Grosso), Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e, posteriormente, para as áreas úmidas da Amazônia (Roraima e Rondônia).

Em vista disso, a região Sul Maranhense, que se localiza na região do Matopiba, foi inserida nesse processo modernizador. Nos últimos anos os cerrados no sul do Maranhão transformaram-se em espaços de reprodução das atividades da cadeia produtiva da soja, principalmente por apresentarem fatores que propiciam a agricultura e, especialmente, no papel da Embrapa, que introduziu 36 cultivares ambientadas à região. O resultado disso foi que a produção de grãos de soja atingiu 1.7 milhão de toneladas na safra 2013/2014, usando uma área de plantação de 600 mil hectares, com produtividade média acima de 3.000 kg/ ha (CONAB, 2015).

A questão central desse trabalho foi identificar as trajetórias de inovações tecnológicas, sobretudo, das cultivares de soja, responsáveis pela dinâmica expansiva da cadeia produtiva da soja no sul do território maranhense.

Material e Métodos

Usou-se como categoria de análise as combinações geográficas de Cholley (1964a). As combinações geográficas são aquelas que interagem com a produção social, com a totalidade de um grupo de pessoas e tem mediações bem determinadas no espaço e no tempo (CHOLLEY, 1964a). Elas são extremamente importantes para se ter uma aproximação fiel da realidade. que ampliam as possibilidades das análises, pois a realidade é fruto da relação dialética entre os aspectos naturais e humanos.

Essas relações são estabelecidas em múltiplas escalas (mundial, nacional, regional e local), e permitem compreender um determinado objeto de estudo num universo mais amplo.

Cholley (1964b) assinala ainda que, se desejamos compreender os fenômenos econômicos, sem cair em verdadeiras abstrações e com falsas individualidades, devemos situá-los nas combinações geográficas, pois esses fenômenos interagem com fatores sociais, político, biológicos e etc. Em concomitância, utilizou-se, também, o aporte teórico advindo dos autores neoschumpeterianos que analisam: os processos de trajetórias tecnológicas (MOWERY; ROSENBERG, 2005); a importância dos sistemas nacionais de inovação (NELSON, 1993); a complementaridade dos sistemas regionais de inovação (DOLOREUX; PARTO, 2005): da continuidade tecnológica (FREEMAN; SOETE, 2008); e o papel do Estado empreendedor (MAZZUCATO, 2014).

Para a elaboração do trabalho, optou-se pelo método exploratório-analítico. As pesquisas exploratórias envolvem levantamento bibliográfico, documental, entrevistas (GIL, 1994). A pesquisa bibliográfica foi realizada com a contribuição de diversos autores acerca da conjuntura econômica e das políticas públicas.

Metodologicamente, foi desenvolvido com base a partir de fontes primárias e secundá rias. Dentre essas últimas destacam-se artigos em periódicos indexados, teses, dissertações, livros, sítios na internet de entidades constantes nos relatórios empresariais e governamentais.

Quanto às fontes primárias, recorreu-se a informações e dados dos relatórios técnicos da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) e ao banco de dados da Embrapa. As entrevistas e pesquisas de campo foram realizadas na cidade de Balsas (MA), em outubro de 2014 e Março de 2017.

Resultados e Discussão

Verificou-se que, até 2014, foram lançadas 358 cultivares de soja desenvolvidas pela Embrapa Soja em parceria com outras unidades da Embrapa, em especial a Embrapa Trigo, a Embrapa Cerrados e a Embrapa Agropecuária Oeste, e com as instituições públicas e privadas de 1975 (início do programa de melhoramento), (CUNHA; ESPÍNDOLA, 2016).

Constatou-se que as primeiras cultivares adaptadas ao cerrado do Nordeste, desenvolvidas pela Embrapa a partir das pesquisas do pesquisador Irineu Alcides Bays, foram testadas no Maranhão e foram batizadas de ‘Tropical’ e ‘Timbira’, suas produtividades surpreenderam e a média ficou 3.050 quilos por hectare, no caso da Timbira, e 2.080, para o caso da Tropical, em campo experimental da Embrapa (INTROVINI, 2010; PALUDZYSZYN FILHO, 1995).

A partir de 1995, a cultura da soja no sul do Maranhão entra na fase de consolidação (CUNHA; ESPÍNDOLA, 2016). O crescimento, tanto de produtividade como de área plantada e produção, é satisfatório. O Maranhão só perdia para Mato Grosso e para o Paraná. Até na safra de 2002/2003, as sementes de soja nas plantações do sul maranhense, atingiu 2.390 kg/ha neste ano (CUNHA, 2015). Entre 2002/2003 a 2013/2014 houve um crescimento  acelerado na produtividade da soja no Maranhão, um aumento de 700 kg/ha em média (CONAB, 2015). Esse resultado foi o maior do país. No mesmo período, o Mato Grosso ampliou em média 170 kg/ha. Entre outros motivos, explica-se essa amplificação na produtividade devido à implementação nas plantações comerciais dos resultados da parceria tecnológica entre a Embrapa e a Fundação de Apoio à Pesquisa do Corredor de Exportação Norte Irineu Alcides Bays (FAPCEN).

A Embrapa, em parceria com a FAPCEN e outras empresas (Monsanto, etc.), produz ao todo foram 16 cultivares transgênicas adaptadas a algumas áreas dos estados do Piauí, Maranhão e Tocantins (PEREIRA et al., 2014). Todas essas variedades de cultivares são mais produtivas, tolerantes a herbicidas e a maioria resistente a insetos, e adaptadas às condições naturais da região. Ademais, no Maranhão, a adoção da soja transgênica chega a 83,9% (CUNHA; ESPÍNDOLA, 2016).

Vale ressalvar que na agricultura, no caso da soja, as inovações demandam à indústria inovações em produto. Com o lançamento das cultivares citadas anteriormente, que apresentam sementes com características morfológicas e fisiológicas, a indústria de insumos foi obrigada a se adaptar a essas novas tecnologias agrárias. Disso, o sul maranhense, pelas condições desenvolvimento tardio da cultura referentes às áreas meridionais do país, teve excelente receptividade às inovações na armazenagem e plantio de sementes de soja, pois, em regiões de latitudes e altitudes baixas, a produção de sementes era considerada pouco provável, devido à grande amplitude térmica e a diferenças severas de umidade do ar.

Conclusão

Na análise do processo histórico de desenvolvimento, vimos o triunfalismo das trajetórias tecnológicas para a expansão (produtividade, produção) e a consolidação da soja no território do sul maranhense. Entre outros fatores, foram determinantes as trajetórias tecnológicas por meio da parceria da transferência de tecnologia Embrapa-FAPCEN e essas, por sua vez, estão condicionadas às combinações geográficas.

Referências

CAMPOS, M. C. A Embrapa/Soja em Londrina-PR a pesquisa agrícola de um país moderno. 2010. 123 f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

CHOLLEY, A. Observações sobre alguns pontos de vista geográficos. Boletim Geográfico, Rio de Janeiro, n. 179, p. 139-145, 1964a.

CHOLLEY, A. Observações sobre alguns pontos de vista geográficos. Boletim Geográfico, Rio de Janeiro, n. 180, p. 267-276, 1964b.

CONAB. Companhia Nacional de Abastecimento. Séries históricas de produção de grãos. Brasília: 2015. Disponível em: < http://www.conab.gov.br/conteudos. php?a=1252&t=2>. Acesso em: 10 mar. 2017.

CUNHA, R. C. C. Gênese e dinâmica da cadeia produtiva da soja no Sul do Maranhão. 221f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Geografia, Geociências, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

CUNHA, R. C. C.; ESPÍNDOLA, C. J. A relevância do progresso técnico na consolidação da cadeia produtiva da soja no sul do Maranhão (BRASIL). Revista de Geografia de Londrina, v. 25, n. 1, p. 87-106, 2016.

DALL’AGNOL, A. Soja, o fenômeno brasileiro. Visão da Agroindústria, n. 13, p. 36-38, set. 2004.

DELGADO, G. da C. Capital financeiro e agricultura no desenvolvimento recente da economia brasileira. 1984. 321 Tese (Doutorado) – Curso de Economia, Departamento de Economia, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

DOLOREUX, D.; PARTO, S. Regional innovation systems: currente discourse and unresolved issues. Technology in Society, v. 27, 133-153, 2005.

FREEMAN, C.; SOETE, L. A economia da inovação industrial. Campinas: Editora da Unicamp, 2008.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. Atlas: São Paulo, 1994.

INTROVINI, G. R. Semeando à linha do Equador, Castro: Kugler, 2010.

MAZZUCATO, M. O estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público x setor privado. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2014.

MOWERY, D. C.; ROSENBERG, N. Trajetórias de inovação: a mudança tecnológica nos Estados Unidos da América no século XX. Campinas: Editora da Unicamp, 2005.

NELSON, R. National Innovation Systems: a comparative analysis. New York: Oxford University Press. 1993.

PALUDZYSZYN FILHO, E. A cultura da soja no sul do Maranhão. Londrina: EMBRAPACNPSO, 34p. (EMBRAPA-CNPSO.Documentos, 84).

PEREIRA, M. J. Z.; KLEPKER, D.; MOREIRA, U. V. Cultivares de soja safra 2014/15 macrorregiões 4 e 5: Regiões Norte e Nordeste do Brasil. Londrina: Embrapa Soja, 2014. 1 folder.

Informações dos autores:

1Universidade Federal de Santa Catarina, Campus Universitário Reitor João David Ferreira Lima – Trindade;

2Universidade Federal de Santa Catarina, Campus universitário Reitor João David Ferreira Lima – Trindade.

Disponível em: Anais da XXXVI Reunião de Pesquisa de Soja. LONDRINA – SC, Brasil.

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