Trabalho feito na Universidade Federal de Santa Maria, Campus de Frederico Westphalen, no objetivo de avaliar a germinação e vigor de sementes de soja sob deriva simulada de 2,4-D (670 g e.a. ha-1) e dicamba (480 g e.a. ha-1) nos estágios vegetativo e reprodutivo da soja. As doses representaram 0,77; 1,55; 3,1 e 6,2% da dose recomendada de cada herbicida.


Introdução

Com o desenvolvimento de culturas resistentes aos herbicidas auxinas sintéticas, principalmente 2,4-D e dicamba, são importantes tecnologias para o manejo de plantas daninhas resistentes ao glyphosate e outros herbicidas (SPAUNHORST & SIEFERT-HIGGINS; 2014).

Esta tecnologia de culturas resistentes a auxinas sintéticas permite que os herbicidas 2,4-D e dicamba sejam aplicados em pós emergência para o controle das plantas daninhas sem causar prejuízos às culturas. No entanto, com o aumento do uso desses herbicidas há um maior risco potencial por danos através da deriva e volatilização desses compostos em culturas suscetíveis e plantas nativas (OLSZYK et al., 2015). Os danos às culturas podem ser maiores quando herbicidas registrados em pós emergência são aplicados a exposição das plantas à deriva das auxinas sintéticas (BROWN et al., 2009).

Entre outros efeitos negativos ocasionados pela exposição das auxinas sintéticas em culturas não alvos estão baixa qualidade de sementes, principalmente quanto a concentração de óleo e proteínas nos grãos, atraso na maturidade, mal formação de legumes, redução do peso de semente, redução da qualidade de sementes e impactos sobre a progênie (ROBINSON et al., 2013ab; SOLOMON e BRADLEY, 2014; KESOJU et al., 2016; MILLER e NORSWORTH, 2017).

Os herbicidas auxinas sintéticas em baixas doses se comportam similarmente á auxina natural, porém elevando a dose dessas substâncias causam diversas anormalidades em dicotiledôneas sensíveis. No processo de germinação, além de condições de luz água e oxigênio, há necessidade de um balanço hormonal para que ocorra a germinação. A auxinas possuem efeito regulador de vários processos hormonais, incluído a biossíntese de ácido abscísico e ácido giberélico, os quais são reguladores de formação de frutos e sementes (REN & WANG, 2016).

Metodologia

Foi realizado um ensaio de campo entre novembro de 2016 e abril de 2017, na Universidade Federal de Santa Maria, em Frederico Westphalen, RS, em solo classificado como latossolo vermelho distrófico típico.

Os tratamentos constaram de aplicações de subdoses de 2,4-D (5,16, 10,4, 20,8 e 41,5g ea ha-1) e dicamba (3,7, 7,4, 14,9 e 29,8g ea ha-1), as quais correspondem de 0,77 a 6,2% da dose recomendada para os herbicidas. A cultivar de soja utilizada foi (BMX GARRA IPRO) Todos os tratamentos com herbicidas foram aplicados com um pulverizador pressurizado com CO2 equipado com 110015 bicos de jato plano a 100kPa calibrados para fornecer 150L ha-1. As aplicações de herbicidas foram feitas com uma barra de pulverização com quatro bicos espaçados de 50 cm.

Ao final do ciclo da cultura, amostras 100 g de sementes de cada parcela foram colhidas, e enviadas ao laboratório de análises de sementes. As amostras foram secas e mantidas com umidade de 13% e armazenadas a temperatura de 20-30 ºC. Foram avaliados testes de germinação e vigor de sementes, e os resultados foram expressos em percentagem.

Resultados

Os herbicidas afetaram negativamente a germinação das sementes de soja independente da dose e estágio de desenvolvimento da cultura em que foram aplicados (Figura 1). Para 2,4-D no estágio R2 e dicamba em V5, os dados foram ajustados em função da equação exponencial, onde foi possível estimar que nas maiores doses testadas há redução de 10 e 14 pontos percentuais na germinação, respectivamente. Já os dados de germinação em função da aplicação de 2,4-D no estágio V5 e dicamba em R2, não se ajustaram a nenhuma equação, e tiveram uma redução média de 8,3 e 16 pontos percentuais na germinação da soja em relação a testemunha, respectivamente.


Figura 1. Porcentagem de germinação e vigor de sementes de soja exposta a deriva de 2,4-D e dicamba nos estágios de V5 e R2.

Esses resultados corroboram com os encontrados por MILLER & NORSWORTH (2017), os quais testaram subdoses de dicamba em diferentes fases do estágio reprodutivo da soja, observaram que a germinação de sementes oriundas de plantas de soja tratadas com 28 g ha-1 de dicamba é seriamente afetada, principalmente em fases posteriores do estágio reprodutivo, podendo ser reduzida em mais de 60%. Da mesma forma, Já KESOJU et al. (2016) verificaram que a aplicação de 2,4-D e dicamba no período reprodutivo da alfafa afetaram drasticamente a emergência das sementes no campo. Por outro lado, NEVES et al., (1998) relatam que 2,4-D até 10 g ha-1 não altera a germinação de sementes de soja, quando aplicado em R1, no entanto em aplicação mais tardia reduz a germinação. Com base nos resultados obtidos e na literatura, pode-se inferir que os herbicidas 2,4-D e dicamba podem causar danos à qualidade de sementes de soja, contudo os danos variam em função da dose e época de aplicação na cultura da soja.

Entre os herbicidas e estágios de aplicação, dicamba e estágio R2 foram os mais prejudiciais para o vigor das sementes de soja, respectivamente (Figura 3). O vigor das sementes de soja da testemunha foi de 82%, sendo reduzido para 74, 70 e 63% quando foram aplicados 2,4-D em R2, dicamba em V5 e R2, respectivamente, nas maiores doses testadas. Esses resultados estão de acordo com os encontrados por KESOJU et al. (2016), os quais verificaram plântulas com crescimento deformado e anormais em função da aplicação de herbicidas auxínicos sintéticos na fase de início de formação de grãos na alfafa, sendo que dicamba causou maiores danos comparado com 2,4-D.

O efeito dos herbicidas auxínicos sintéticos sobre a qualidade fisiológica das sementes de soja podem estar relacionados à alterações dos níveis hormonais nas sementes, pois a aplicação de auxinas exógenas nas sementes de soja regula negativamente a biossíntese de ácido giberélico e reduzem a germinação de sementes de soja através do atraso ou contenção da protrusão da radícula (SHUAI, et al. (2017).

Outros fatores relacionados às sementes é menor produção de óleo e proteínas nas, principalmente pela aplicação de dicamba (ROBINSON et al, 2013b), uma vez que a redução dos teores de óleos e proteínas faz com que as sementes se deteriorem durante o armazenamento, resultando em diminuição da germinação e emergência no campo (WANG et al., 2012; DARGAHI et al., 2014).

Assim, com a comercialização de soja resistente aos herbicidas 2,4-D e dicamba, produtores e agrônomos devem estar cientes das técnicas de pulverização recomendadas para mitigar a deriva potencial, especialmente em áreas adjacentes à lavouras de produção de sementes, uma vez que baixas concentrações desses herbicidas afetarão a qualidade das sementes. Pesquisas adicionais são necessárias para entender os impactos da deriva da exposição à auxina sintética em outras plantas não-alvo como videira, pomar de citros, tabaco e vegetação nativa.

Fonte: Revista Ciência Rural, v.48, n.8, 2018. Disponível aqui.

Autores: Diecson Ruy Orsolin da Silva1, Edson Dalla Nora da Silva, Adalin Cezar Moraes de Aguiar , Bruna Dal’Pizol Novello, Álvaro André Alba da Silva e Claudir José Basso.

1Departamento de Ciências Agronômicas e Ambientais, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Campus de Frederico Westphalen, 98400-000, Frederico Westphalen, RS, Brasil. E-mail: diecsonros@hotmail.com.

 

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