Esse trabalho tem como objetivo quantificar a influência do período juvenil longo (PJL) sobre a duração do ciclo desenvolvimento de soja no RS.

Autores:   Gean Leonardo Richter¹, Nereu Augusto Streck¹, Gilmara Peripolli Tonel¹, Bruna San Martín Rolim Ribeiro¹, Felipe Andrade Tardetti¹

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

INTRODUÇÃO

O fotoperíodo é definido como duração, em horas, do comprimento do dia mais os crepúsculos (Chang, 1974). Para a cultura da soja, o fotoperíodo é o regulador do desenvolvimento vegetal mais importante, pois de acordo com o fotoperíodo a planta de soja pode ou não ser induzida ao florescimento. Durante a década de 70, o melhoramento genético desenvolveu cultivares de soja menos responsivas ao fotoperíodo, adaptadas para regiões de baixa latitude, como o Centro Oeste brasileiro. Essas cultivares, com menor sensibilidade ao fotoperíodo, são conhecidas como cultivares com Período Juvenil Longo (PJL).

Apesar da importância do PJL para o cultivo da soja no Centro Oeste brasileiro, pouco se sabe da influência do PJL sobre o ciclo de desenvolvimento da soja na região Sul do Brasil, e do impacto do PJL na produtividade de grãos. Do ponto de vista científico, informações a respeito dessa característica são importantes para o melhoramento genético de soja e, principalmente, para posicionar as cultivares com PJL em regiões de baixa latitude ou, também, em regiões de alta latitude (Sul do Brasil e Argentina, por exemplo). Do ponto de vista prático, cultivares com PJL podem ser mais flexíveis, permitindo a semeadura da soja em uma janela de semeadura mais ampla, mantendo o potencial produtivo, o que pode ser um fator determinante para viabilizar o cultivo da soja safrinha na região Sul do Brasil, sobretudo para o Rio Grande do Sul (RS). Portanto, esse trabalho tem como objetivo quantificar a influência do período juvenil longo (PJL) sobre a duração do ciclo desenvolvimento de soja no RS.

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi conduzido no município de Santa Maria – RS, durante a safra 2017/18. A latitude do município de Santa Maria (29,7ºS) é representativa da média das latitudes do RS (que varia de 27ºS a 33ºS) e da maior amplitude fotoperiódica do Brasil. Sete épocas de semeadura foram realizadas: 05/08/2017, 02/09/2017, 17/10/2017, 21/11/2017, 19/12/2017, 16/01/2018 e 16/02/2018, representando fotoperíodos de 11,6 h a 15 h. Foram semeadas cultivares de soja que representam as principais empresas de genética de soja, com grupos de maturidade relativa (GMR) que variaram de 3.9 a 8.3. Do grupo de cultivares, duas foram selecionadas para esse estudo: a cultivar BMX Ícone IPRO (com PJL e GMR 6.8), e a cultivar TEC 7849 IPRO (sem PJL e com GMR 7.8), ambas de tipo de crescimento indeterminado.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O mês de outubro foi definido como período preferencial de semeadura nesse trabalho, quando foi possível atingir alto potencial produtivo (108 sc ha-¹ e 93 sc ha-¹ para a cultivar com e sem PJL, respectivamente). No mês de outubro, o comprimento do ciclo de desenvolvimento foi 156 dias (c/PJL) e 176 dias (s/PJL). O menor ciclo de desenvolvimento ocorreu na semeadura de fevereiro (110 dias e 104 dias) e o maior ciclo de desenvolvimento ocorreu na semeadura do mês de setembro (164 dias) e outubro (176 dias) para a cultivar com e sem PJL, respectivamente. De acordo com Zanon et al. (2018), o PJL retarda o início do florescimento, mesmo quando a indução do fotoperíodo é máxima.

Na figura 1, é possível observar que a antecipação da semeadura para o mês de agosto reduz o período vegetativo em até 30 dias na cultivar s/PJL e aproximadamente 15 dias para a cultivar c/PJL. Do ponto de vista prático, para semeaduras muito precoces, em propriedades que tem como objetivo realizar duas safras de soja por verão, é indicada semeadura de uma cultivar c/PJL, para que as plantas atinjam maior número de nós férteis e maior estatura, que permita a colheita mecanizada com eficiência e com boa produtividade. Durante os meses de outubro, novembro e dezembro, não houve diferença na duração do período de desenvolvimento vegetativo entre cultivares com e sem PJL (Figura 1).

Figura 1. Diferença na duração do período de desenvolvimento vegetativo em uma cultivar sem período juvenil longo (sem PJL) e com período juvenil longo (com PJL) em sete épocas de semeadura (agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro e fevereiro), em Santa Maria, RS. Safra 2017/18.

A partir do mês de Janeiro, a redução do período de desenvolvimento vegetativo foi maior na cultivar s/PJL. Na semeadura de Fevereiro, a redução do ciclo de desenvolvimento em relação ao período preferencial foi de 14 dias para a cultivar c/PJL e de 24 dias para a cultivar s/PJL (Figura 1). De acordo com esse estudo de caso, foi possível observar que o PJL aumenta a plasticidade da cultura da soja em semeaduras realizadas fora do período recomendado.

A duração do período de desenvolvimento reprodutivo (R1 até R8 da escala de Fehr e Caviness, 1977), foi maior na semeadura de setembro, com duração de 111 dias para a cultivar c/PJL e 126 dias para a cultivar s/PJL. A redução do período reprodutivo foi maior na semeadura de agosto (-30 dias c/PJL e -55 dias s/PJL) em relação a semeadura de setembro. A partir do mês de setembro, houve redução no comprimento do período de desenvolvimento reprodutivo de 17 dias para cultivares c/PJL e s/PJL (outubro), de 30 dias c/PJL e 43 dias s/PJL (novembro), e de 34 dias c/PJL e 52 dias s/PJL (dezembro).


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Nas semeaduras de janeiro e fevereiro a redução foi de 39 dias c/PJL e 55 dias s/PJL. De acordo com nosso conhecimento não há trabalhos que relacionem a duração do período de desenvolvimento reprodutivo em cultivares c/ e s/ PJL.

Figura 2. Diferença na duração do período de desenvolvimento vegetativo em uma cultivar sem período juvenil longo (sem PJL) e com período juvenil longo (com PJL) em sete épocas de semeadura (agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro e fevereiro), em Santa Maria, RS. Safra 2017/18.

As maiores produtividades ocorreram na época de semeadura de outubro, com 108 sc ha-¹ e 93 sc ha-¹ para a cultivar c/PJL e s/PJL, respectivamente. A amplitude da produtividade de grãos entre épocas de semeadura foi um pouco menor para a cultivar c/PJL (60%) em relação a cultivar s/PJL (65%). Além disso, o potencial produtivo da cultivar c/PJL foi maior nas sete épocas de semeadura.

CONCLUSÃO

De acordo com esses resultados conclui-se que cultivares c/PJL não apresentam redução do potencial produtivo em relação a cultivares sem o PJL. Além disso, o PJL aumentou a plasticidade e a estabilidade da cultivar de soja c/PJL. Essas características são desejáveis para lavouras semeadas em condições não ótimas para o cultivo como, por exemplo, o cultivo da soja safrinha no RS, ou a antecipação da semeadura para antes de outubro.

REFERÊNCIAS

CHANG, J. H. Climate and agriculture and ecological survey. Chicago: Transactions Publishers. 1974. 304p.

CONAB. Séries históricas de área e produção plantada por unidades da federação. 2018. Disponível em: www.conab.gov.br. Acesso em: 23 de junho de 2018.

FEHR, W. R.; CAVINESS, C. E. Stages of soybean development. Ames: Iowa State University of Science and Technology, 1977. 15p. (Special report, 80).

ZANON, A. J., et al. Ecofisiologia da Soja Visando Altas Produtividades. Ed. Palloti-SM, Santa Maria – RS. 2018.

Informações dos autores:  

1Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria/RS.

Disponível em: Anais do I Congresso Online para aumento da produtividade de soja 2018. Santa Maria, RS.

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