Este trabalho teve como objetivo avaliar o efeito de diferentes estirpes de Bradyrhizobium sp. na nodulação e biomassa da cultura da soja em duas épocas de avaliação, crescida em condições de solo e clima do Rio de Janeiro.

Autores: MARANHÃO, F.M.1;MARANHÃO, F.M.SANTOS, W.M.2; SANTOS, R.C.2;ALVES, B.J.R.3; ARAÚJO, K.E.C2; MARTINS, M.R.3; VERGARA, C.2; ARAÚJO, P.H.C.S.2; SANT’ANNA, S.A.C.3; JANTALIA, C.P.3; ZILLI, J.E.3; BODDEY, R.M. 3; URQUIAGA, S.3

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

A fixação biológica do nitrogênio (FBN) através da simbiose das bactérias do gênero Bradyrhizobium com a soja foi uma das grandes propulsoras para o cultivo em larga escala dessa cultura no Brasil. Estas bactérias quando em contato com as raízes da soja as infectam via pelos radiculares, formando os nódulos. Esse processo resulta na FBN, que é a transformação do N2 atmosférico em amônia (NH3), mediada pela enzima nitrogenase (Silva et al., 2010). A eficiência dessas bactérias tem possibilitado a obtenção de altos rendimentos de grãos para cultura da soja, sem a necessidade de aplicação de nitrogênio mineral (Alves et al., 2003).

A quantidade de nitrogênio fixada pela soja pode alcançar 300 kg N ha-1, fornecendo até 94% da necessidade da planta (Hungria et al. 2006). Este processo é viabilizado pela prática da inoculação com estirpes de Bradyrhizobium sp., considerando que a soja não é uma cultura nativa do Brasil e a bactéria não existe naturalmente nos solos brasileiros (Mercante et al., 2011).

Atualmente, no Brasil tem-se utilizado nos inoculantes a combinação de duas das quatro estirpes: Bradyrhizobium elkanii: Semia 587 e Semia 5019 (29w), B. japonicum: Semia 5079 (CPAC-15), e B. diazoefficiens: Semia 5080 (CPAC-7) (ZILLI et al., 2006), tornando difícil a compreensão da eficiência agronômica de cada estirpe isoladamente.

Este trabalho teve como objetivo avaliar o efeito de diferentes estirpes de Bradyrhizobium sp. na nodulação e biomassa da cultura da soja em duas épocas de avaliação, crescida em condições de solo e clima do Rio de Janeiro.

O experimento foi conduzido na Estação Experimental da Embrapa Agrobiologia, chamada “Terraço”, localizada no município de Seropédica (RJ), cujas coordenadas geográficas são 22º45′ S, 43º40′ W e altitude média de 26 m.

O solo da área experimental é um Argissolo Vermelho-Amarelo distrófico (Santos et al., 2013). A temperatura média é de 24,6 ºC e a precipitação anual de 1.200 mm. O solo da área experimental apresentou as seguintes características químicas: pH (H2O) = 5,8; Ca+2 = 3,66 cmolc dm-3; Mg+2= 0,48 cmolc dm-3; P = 4,56 mg dm-3 e K+ = 73,98 mg dm-3; Al+3 = não detectado.

O delineamento experimental foi em blocos ao acaso com 4 repetições, sendo testadas 4 estirpes de Bradyrhizobium sp. via inoculação em meio turfoso, único fator do experimento, formado pelos seguintes tratamentos: a) Controle (não inoculado); b) SEMIA 5080 (Bradyrhizobium diazoefficiens); c) SEMIA 5079 (B. japonicum); d) SEMIA 5019 (B. elkanii) e) SEMIA 587 (B. elkanii). Cada parcela apresentou dimensões de 4 m x 6 m (24 m2).

O preparo do solo constou de uma escarificação a 40 cm de profundidade, seguido da aplicação de 500 kg ha-1 de gesso agrícola, incorporado a 20 cm de profundidade com o uso da grade niveladora. Na sequência foi realizada a abertura dos sulcos de semeadura com espaçamento de 50 cm.

Após a inoculação, a semeadura da soja cultivar TMG 7062 IPRO (tipo de crescimento semi-determinado, grupo de maturação 6.2) foi realizada manualmente no dia 30/10/2017. Na adubação de plantio foram aplicados 80 kg ha-1 de P2O5 na forma de superfosfato simples, 40 kg ha-1 de K2O na forma de cloreto de potássio, e 3 kg h-1 de micronutrientes (Cana Micros Plus®). Após a emergência foi realizado o desbaste de forma a estabelecer uma população final de 400.000 plantas ha-1.

Para o controle das plantas daninhas foram aplicados 10 dias após a emergência (DAE) o herbicida Glifosato na dose de 1.080 g ha-1 do i.a., e, para melhorar o desempenho da FBN, foram aplicados aos 30 DAE via foliar, 200 mL ha-1 do produto Super Seep Soja®, que equivale à dose de 2,6 g ha-1 de Co e 26 g ha-1 de Mo.

As avaliações de nodulação e biomassa foram realizadas aos 35 e 80 DAE, tendo-se coletado 5 plantas linearmente na segunda linha de plantio de cada parcela, desconsiderando 1 m de bordadura.

Foram separadas a parte aérea e raízes na altura do nó cotiledonar, sendo lavadas as raízes, e os nódulos destacados. Após este procedimento os materiais coletados foram acondicionados em sacos de papel e secos em estufa de circulação forçada de ar a 65 °C até peso constante, em seguida foram determinadas suas respectivas massas em balança.

Os dados foram submetidos ao teste de normalidade de Shapiro-Wilk e, no caso de ausência de normalidade, estes foram transformados pela √x. Em seguida, realizou-se análise conjunta para as duas épocas de avaliação e submeteram-se os dados à análise de variância e comparação de médias pelo teste de Tukey a p≤0,05 com auxílio do programa estatístico [SISVAR V. 5 (Universidade Federal de Lavras)].

As massas secas de nódulos, parte aérea e raízes, obtidas com a inoculação de diferentes estirpes de Bradyrhizobium sp. sob duas épocas de avaliação são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1. Matéria seca de nódulos, raízes e parte aérea de plantas de soja aos 35 e 80 dias após a emergência, no município de Seropédica (RJ).

Foram constatadas diferenças significativas para todas as variáveis analisadas aos 80 DAE em relação aos 35 DAE, havendo um incremento médio de 583, 288 e 88% para a massa seca de nódulos, parte aérea e raízes, respectivamente.

Para a massa seca de nódulos foi realizada a transformação dos dados para atender aos preceitos da normalidade. Para esta variável, a estirpe SEMIA 5019 (B. elkanii) apresentou as maiores médias nas duas épocas avaliadas, porém aos 80 DAE não diferiu da SEMIA 587 (B. elkanii).

A nodulação pelas estirpes foi considerada adequada, uma vez que uma massa de nódulos entre 100 a 200 mg planta-1 é suficiente para garantir o fornecimento de N requerido por uma planta de soja para seu desenvolvimento normal (Hungria et al., 2007); todos os tratamentos ficaram dentro desta faixa apenas aos 80 DAE.

A estirpe SEMIA 5079 e o controle apresentaram as menores médias, sendo que aos 35 DAE a SEMIA 5080 não diferiu destes tratamentos. As plantas do tratamento controle (sem inoculação) formaram poucos nódulos, evidenciando-se a necessidade de se fazer inoculação com Bradyrhizobium sp. em solos não cultivados anteriormente com soja. A média do tratamento controle neste estudo foi menor que a observada por Zilli et al. (2010), que foi de 40,6 mg planta-1 aos 35 DAE na média de dois anos agrícolas na região do Cerrado em Roraima.

Não foram observados efeitos (p≤0,05) das diferentes estirpes na massa seca da parte aérea e raízes nas duas épocas de avaliação. Resultados semelhantes foram observados por Nishi e Hungria (1996), também não encontrando diferenças significativas para estas variáveis aos 27 e 45 dias após o plantio. Segundo Alves et al. (2003), a FBN na cultura da soja é complementar ao fornecimento de N pelo solo. Mesmo havendo contrastes na nodulação em função dos tratamentos, possíveis diferenças nas taxas de FBN foram compensadas por maior utilização de N do solo, refletindo em similar produção de matéria seca até a data de avaliação. Não obstante, durante o enchimento de grãos existe uma alta demanda de N pela planta e essas diferenças na nodulação podem refletir em maior ou menor dependência pela FBN (Unkovich et al., 2008).

Referências

ALVES, B.J.R.; BODDEY, R.M.; URQUIAGA, S. The success of BNF in soybean in Brazil. Plant and Soil, v.252, p.1-9, 2003.

HUNGRIA, M.; CAMPO, R. J.; MENDES, I. C. A importância do processo de fixação biológica de nitrogênio para a cultura da soja: componente essencial para a competitividade do produto brasileiro. Londrina, Embrapa Soja, 2007. 80p. (Embrapa Soja. Documentos, 283).

HUNGRIA, M.; CAMPO, R.J.; MENDES, I.C.; GRAHAM, P.H. Contribution of biological nitrogen fixation to the N nutrition of grain crops in the tropics: the success of soybean (Glycine max (L.) Merr.) in SouthAmerica. In: SINGH, R.P.; SHANKAR, N.; JAIWAL, P.K. (Ed.). Nitrogen nutrition and sustainable plant productivity. Houston: Studium, 2006. p.43-93.

MERCANTE, F. M.; HUNGRIA, M.; MENDES, I. C.; REIS JÚNIOR, F. B. Estratégias para aumentar a eficiência de inoculantes microbianos na cultura da soja. Dourados, Embrapa Agropecuária Oeste, 2011. 4 p. (Embrapa Agropecuária Oeste. Documentos, 169).

NISHI, C. Y. M.; HUNGRIA, M. Efeito da reinoculação na soja [Glycine max (L.) Merrill] em um solo com população estabelecida de Bradyrhizobium com as estirpes SEMIA 566, 586, 587, 5019, 5079 e 5080. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.31, n.5, p. 359-368, 1996.

SANTOS, H. G; JACOMINE, P. K. T; ANJOS, L. H. C.; OLIVEIRA, V. A.; OLIVEIRA, J. B.; COELHO, M. R.; LUMBRERAS, J. F.; CUNHA, T. J. F. Sistema brasileiro de classificação de solos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Embrapa Solos, 2013.

SILVA, A. F.; CARVALHO, M. A. C.; SCHONINGER, E. L.; MONTEIRO, S.; CAIONE, G.; SANTOS, P. A. Doses de inoculante e nitrogênio na semeadura da soja em área de primeiro cultivo. Jornal de Biociências, Uberlândia, v. 27, n. 3, p. 404-412, 2011.

UNKOVICH, M.J.; HERRIDGE, D.F.; PEOPLES, M.B.; CADISCH, G.; BODDEY, R.M.; GILLER, K.E. Measuring plant-associated nitrogen fixation in agricultural systems. Canberra, Australia: ACIAR, 2008.

ZILLI, J. E.; MARSON, L. C.; CAMPO, R. J.; GIANLUPPI, V.; HUNGRIA, M. Avaliação da fixação biológica de nitrogênio na soja em áreas de primeiro cultivo no cerrado de Roraima. Roraima: Embrapa, 2006. 9 p. (Comunicado Técnico 20).

ZILLI, J. É.; SMIDERLE, O. J.; FERNANDES JÚNIOR, P. I. Eficiência agronômica de diferentes formulações de inoculantes contendo Bradyrhizobium na cultura da soja em Roraima.Revista Agro@mbiente On-line, v. 4, n. 2, p. 56-61, 2010.

Informações dos autores:  

1Faculdade Evangélica de Goianésia – FACEG, Goianésia, GO;

2Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro;

3Embrapa Agrobiologia.

Disponível em: Anais do VIII Congresso Brasileiro de Soja. Goiânia – GO, Brasil.

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