Aurores da Circular Técnica: Maurício C. Meyer, Hercules D. Campos, Cláudia V. Godoy, Carlos M. Utiamada, Alexander H. Seii, Alfredo R. Dias, David S. Jaccoud Filho, Edson P. Borges, Fernando C. Juliatti, José Nunes Junior, Luis H. C. P. da Silva, Luiz Nobuo Sato, Mônica C. Martins, Wilson S. Venancio

O Brasil figura como um dos países líderes na produção mundial de soja, produzindo 117 milhões de toneladas em 35,1 milhões de hectares na safra 2017/18 (Conab, 2018). As doenças da soja representam um importante fator de restrição à produção e o mofo-branco, causado pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum (Lib.) de Bary, é uma das doenças que apresentam elevado potencial de causar prejuízo à soja e a várias outras culturas que compõem o sistema de produção (Jaccoud Filho et al., 2017).

Essa doença se manifesta com maior severidade em anos chuvosos, temperatura amena e constante umidade do solo (Campos et al., 2010), como observado em diversas áreas de produção de soja na safra 2017/18. Sua incidência na cultura da soja aumentou consideravelmente a partir de 2008, sendo estimado que cerca de 10 milhões de hectares da área brasileira de cultivo de soja estejam infestados pelo patógeno.

A principal forma de infecção das plantas de soja ocorre pelos ascosporos do fungo, que são produzidos nos apotécios, decorrentes da germinação carpogênica dos escleródios. Esses ascosporos colonizam preferencialmente as pétalas de soja, que servem de substrato para o fungo no início da infecção nas hastes e nos pecíolos (Grau; Hartman, 2015).

A aplicação de fungicidas foliares é uma das principais medidas de controle da doença, e deve ser adotada para proteger as plantas da infecção pelo patógeno, no período de maior vulnerabilidade da soja, que compreende o início da floração ou fechamento das entrelinhas até o início de formação de vagens (Meyer et al., 2017).

A eficiência do controle químico de mofo-branco em soja vem sendo avaliada desde 2009, por meio da rede de ensaios cooperativos conduzidos por pesquisadores de instituições de pesquisa e experimentação, nos estados de maior ocorrência da doença.

Com base nos resultados destes ensaios, para cada ponto percentual de aumento da incidência de mofo-branco ocorre uma redução média na produtividade da soja de 17,2 kg ha-1, e um incremento na produção de escleródios de 100 g ha-1 (Lehner et al., 2016). O objetivo dos ensaios cooperativos de controle químico de mofo-branco em soja é a avaliação da eficiência de fungicidas no controle do alvo biológico.


 

Para isso são utilizadas aplicações sequenciais de fungicidas, o que não constitui uma recomendação de controle. As informações devem ser utilizadas dentro de um sistema de manejo, priorizando sempre a rotação e/ou a associação de fungicidas com diferentes modos de ação para atrasar o aparecimento de resistência do fungo e obter níveis mais eficientes de controle.

Esta publicação apresenta os resultados sumarizados dos ensaios cooperativos, realizados na safra 2017/18.

Material e Métodos

Os ensaios da safra 2017/18 foram realizados em 11 locais distribuídos nos Estados do Paraná, de Goiás, da Bahia, do Mato Grosso do Sul e de Minas Gerais (Tabela 1), com o objetivo de avaliar a eficiência de fungicidas no controle do mofo-branco da soja.

O protocolo utilizado no ensaio com os fungicidas, doses e épocas de aplicação é apresentado na Tabela 2. Os experimentos foram realizados em delineamento de blocos casualizados, com quatro repetições e parcelas de seis linhas de 6 m de comprimento (16,2 m2 a 18 m2 ). As aplicações foram realizadas com pulverizador costal pressurizado com CO2 e volume de calda variando de 150 L ha-1 e 200 L ha-1.

Foram realizadas pelo menos três avaliações da incidência de mofo-branco durante a fase reprodutiva da soja, pela contagem do número de plantas com e sem sintomas nas duas linhas centrais da parcela (mínimo de 80 plantas por parcela).

Foi avaliada a produtividade da soja e também quantificada a massa de escleródios obtida na trilha das plantas de cada parcela. Os resultados foram analisados individualmente para
cada local, observando-se o quadrado médio residual, o coeficiente de variação, o coeficiente de assimetria, o coeficiente de curtose, a normalidade da distribuição dos resíduos (Shapiro; Wilk, 1965), a aditividade do modelo estatístico (Tukey, 1949) e a homogeneidade de variâncias dos tratamentos (Burr; Foster, 1972).

Além as análises exploratórias individuais, a correlação entre a incidência de mofo-branco em início e final de formação de grãos (R5.2 e R5.5); incidência em R5.5; produtividade e massa de escleródios e a razão de quadrados médios também foram utilizadas na seleção dos ensaios que compuseram as análises conjuntas.

O teste de comparações múltiplas de médias de Tukey (p≤0,05) foi aplicado à análise conjunta, a fim de se obter grupos de tratamentos com efeitos semelhantes. Todas as análises foram realizadas no programa SAS® versão 9.1.3 (SAS/ STAT, 1999).

Resultados e Discussão

Dos 11 locais onde os ensaios foram conduzidos, três locais não foram utilizados na análise conjunta (locais 02, 09 e 10, Tabela 1) por apresentarem baixa incidência da doença em razão das condições de ambiente desfavoráveis ao seu desenvolvimento. Em função da homogeneidade dos dados, as análises conjuntas para incidência de mofo-branco foram compostas pelos dados de seis locais e, para produtividade da soja e massa de escleródios, pelos dados de cinco locais.



A incidência média de mofo-branco no tratamento sem aplicação de fungicidas (T1) foi de 61,2%. O melhor nível de controle químico foi de 81% no tratamento com duas aplicações do fungicida dimoxistrobina + boscalida (T6) (Tabela 3).

Foi observada redução de 29% na produtividade da soja, no tratamento sem controle de mofo-branco (T1) em relação ao tratamento mais produtivo (T6). Os tratamentos com procimidona (T3 e T9), fluazinam (T4), fluopyram (T5), dimoxistrobina + boscalida (T6), associação de fluazinam e carbendazim (T7) e fluazinam + tiofanato metílico (T8) apresentaram as maiores médias de produtividade da soja (Tabela 3).

A média da produção de escleródios (massa de escleródios) de S. sclerotiorum coletados das plantas do tratamento sem controle (T1) foi de 3.355 g ha-1. Os tratamentos procimidona (T3 e T9), fluopyram (T5), dimoxistrobina + boscalida (T6), associação de fluazinam e carbendazim (T7) e fluazinam + tiofanato metílico (T8) apresentaram significativa redução na produção de escleródios, comparados à testemunha sem controle (T1), variando de 48% a 74% (Tabela 3).

A redução da produção de escleródios proporcionada pela maioria dos fungicidas avaliados reforça a importância da adoção do controle químico como uma das principais ferramentas no manejo do mofo-branco em soja. Contudo, considerando que o percentual máximo de controle observado foi de 81% e que ainda ocorre produção de escleródios, todas as demais medidas de manejo devem ser adotadas com a finalidade de inviabilização desses escleródios durante a entressafra, promovendo o manejo integrado da doença.

Os fungicidas mais eficientes no controle de mofo branco em soja estão distribuídos em diferentes grupos relacionados ao modo de ação sobre S. sclerotiorum. Procimidona é uma dicarboxamida que atua na transdução do sinal osmótico. Fluazinam é um inibidor da fosforilação oxidativa, atuando sobre a respiração do patógeno.

Fluopyram e boscalida pertencem ao grupo dos inibidores de succinato desidrogenase (ISDH), que atuam na fase II da respiração do fungo e, dimoxistrobina pertence ao grupo dos inibidores da quinona externa (IQe), inibindo a fase III da respiração do patógeno.

Essa diversidade em relação ao modo de ação dos fungicidas para controle de mofo-branco possibilita rotacioná-los, de forma que exerçam menor pressão de seleção sobre o patógeno e viabilize a adoção de estratégias antirresistência do fungo aos fungicidas, preservando a eficiência das moléculas pelo maior tempo possível.

Referências

BURR, I.W.; FOSTER, L.A. A test for equality of variances. West Lafayette: University of Purdue, 1972. 26 p. (Mimeo Series, 282). CAMPOS, H.D.; SILVA, L.H.C.P.; MEYER, M.C.; SILVA, J.R.C.;

NUNES JUNIOR, J. Mofo-branco na cultura da soja e os desafios da pesquisa no Brasil. Tropical Plant Pathology, v.35, Suplemento, p. C-CI, 2010.

CONAB. Acompanhamento da safra brasileira – grãos: maio/2018 – oitavo levantamento. Brasília: Conab, v.5, n.8, 2018. 140 p.

GRAU, C.R.; HARTMAN, G.L. Sclerotinia stem rot. In: HARTMAN, G. L.; RUPE, J. C.; SIKORA, E. J.; DOMIER, L. L.; DAVIS, J. A.; STEFFEY, K. L. Compendium of soybean diseases and pests. 5. ed. St. Paul, MN: American Phytopathological Society, 2015. p.59-62.

JACCOUD FILHO, D.S.; NASSER, L.C.B.; HENNENBERG, L.; GRABICOSKI, E.M.G.; JULIATTI, F.C. Mofo-branco: Introdução, histórico, situação atual e perspectivas. In: JACOOUD FILHO, D.S.; HENNENBERG, L.; GRABICOSKI, E.M.G. (eds.). Mofo branco. Ponta Grossa: Todapalavra, 2017. p. 29-73.

LEHNER, M.S.; PETHYBRIDGE, S.J.; MEYER, M.C.; DEL PONTE, E.M. Meta-analytic modelling of the incidence-yield and incidencesclerotial production relationships in soybean white mold epidemics. Plant Pathology, v.66, n. 3, p 460-468, 2016.

MEYER, M. C.; CAMPOS, H. D.; GODOY, C. V.; UTIAMADA, C. M.; PIMENTA, C. B.; JACCOUD FILHO, D. S.; BORGES, E. P.; JULIATTI, F. C.; NUNES JUNIOR, J.; CARNEIRO, L. C.; SILVA, L. H. C. P. da; SATO, L. N.; GOUSSAIN, M.; MARTINS, M. C.; TORMEN, N. R.; BALARDIN, R. S.; VENANCIO, W. S. Eficiência de fungicidas para controle de mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) em soja, na safra 2016/17: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos. Londrina: Embrapa Soja, 2017. 5 p. (Embrapa Soja. Circular técnica, 133).

SAS/STAT®. Versão 9.1.3 do sistema SAS para Windows, 1999- 2001. Cary: SAS Institute Inc., 1999. SHAPIRO, S.S.; WILK, M.B. An analysis of variance test for normality. Biometrika, Oxford, v.52, p.591-611, 1965.

TUKEY, J. W. One degree of freedom for non-additivity. Biometrics, Washington, v.5, p.232-242, 1949.

Fonte: Embrapa, CIRCULAR TÉCNICA 140: Eficiência de fungicidas para controle de
mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) em soja, na safra 2017/18: Resultados sumarizados dos ensaios cooperativos


Confira no vídeo mais sobre mofo branco em soja:

Mofo branco em soja

Dependente do clima, a doença se desenvolve em temperaturas amenas, e solos saturados sejam pela precipitação ou pela irrigação.Como manejar o mofo branco em soja?Confira o que o pesquisador da Embrapa Soja, Maurício Meyer tem a nos dizer.#maissoja #soja #mofobranco #fungicidads

Posted by Mais Soja on Friday, December 14, 2018

Texto originalmente publicado em:
Circular Técnica- 140
Autor: Embrapa

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