Eficiência de fungicidas para o controle da mancha-alvo, Corynespora cassiicola, na safra 2016/17: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos.

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Fonte: Circular Técnica 130

A mancha-alvo, causada pelo fungo Corynespora cassiicola, foi relatada pela primeira vez na cultura da soja no Brasil, no Estado do Paraná e posteriormente no Estado de São Paulo, em 1976 (ALMEIDA et al., 1976). Em 1989, a doença foi relatada nos Estados do Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul e do Rio Grande do Sul (YORINORI, 1989). A incidência dessa doença tem aumentado nas últimas safras em razão do aumento da semeadura de cultivares suscetíveis e da menor sensibilidade/resistência do fungo aos fungicidas mais comumente utilizados na cultura da soja, sendo encontrada em praticamente todas as regiões de cultivo do Brasil. Perdas de até 50% podem ser observadas em cultivares suscetíveis.

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Nas folhas, os sintomas da doença se iniciam por pontuações pardas, com halo amarelado, evoluindo para manchas circulares, de coloração castanho-clara a castanho-escura (Figura 1). Normalmente, as manchas apresentam pontuação no centro e anéis concêntricos de coloração mais escura. Cultivares suscetíveis podem sofrer desfolha, com manchas na haste e nas vagens. O fungo sobrevive em sementes infectadas e em restos de cultura, podendo colonizar uma ampla gama de resíduos no solo. A infecção na folha é favorecida por alta umidade relativa (GODOY et al., 2016).

As estratégias de manejo recomendadas para essa doença são: a utilização de cultivares resistentes, o tratamento de sementes, a rotação/sucessão de culturas com milho e outras espécies de gramíneas e o controle químico com fungicidas (GODOY et al., 2016).

Desde a safra 2011/12, ensaios em rede vêm sendo realizados para a comparação da eficiência de fungicidas registrados e em fase de registro. O objetivo dos ensaios em rede é a avaliação da eficiência de controle no alvo biológico. Para isso são utilizadas aplicações sequenciais de fungicidas. No entanto, isso não constitui uma recomendação de controle.

As informações devem ser utilizadas dentro de um sistema de manejo, priorizando sempre a rotação de fungicidas com diferentes modos de ação para atrasar o aparecimento de resistência do fungo aos fungicidas.

O objetivo deste trabalho foi avaliar a eficiência de fungicidas para o controle da mancha-alvo na cultura da soja na safra 2016/17.

Material e Métodos

Foram instalados 23 ensaios na safra 2016/17 por 16 instituições (Tabela 1). A lista de tratamentos (Tabela 2), o delineamento experimental e as avaliações foram definidos por protocolo único, para a realização da sumarização conjunta dos ensaios. Os fungicidas utilizados nos tratamentos 2 a 5 e 9 a 11 apresentam registro no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), para o controle da mancha-alvo e os fungicidas dos tratamentos 6 a 8, 12 e 13 apresentam Registro Especial Temporário (RET) III.

Os fungicidas avaliados pertencem aos grupos: metil benzimidazol carbamato (MBC – carbendazim), inibidores da desmetilação (IDM – protioconazol, epoxiconazol e tebuconazol); inibidores da quinona externa (IQe – trifloxistrobina, piraclostrobina, azoxistrobina e picoxistrobina), inibidores da succinato desidrogenase (ISDH – fluxapiroxade e bixafen), ditiocarbamato (mancozebe), inorgânico (oxicloreto de cobre) e cloronitrila (clorotalonil). Foram avaliadas mistura de IDM e IQe (T3), mistura de IQe e ISDH (T5), misturas triplas de IDM, IQe e ISDH (T4 e T6), misturas de IDM, IQe e ditiocarbamatos (T7 e T8) e mistura de ditiocarbamato e inorgânico (T12). Os fungicidas carbendazim (MBC – T2), mancozebe (ditiocarbamato – T9 a T11) e clorotalonil (cloronitrila
– T13) foram avaliados de forma isolada.

O delineamento experimental foi blocos ao acaso com quatro ou cinco repetições, sendo cada repetição constituída de parcelas com, no mínimo, seis linhas de cinco metros.

Foram realizadas quatro aplicações de fungicidas nos tratamentos 11 a 13 e três nos demais tratamentos. As aplicações iniciaram-se no estádio R1 (início de florescimento), para cultivares de tipo de crescimento determinado ou no pré-fechamento das linhas de semeadura, para cultivares de tipo de crescimento indeterminado. Os tratamentos 11 e 13 receberam uma segunda aplicação 8 a 12 dias após a primeira, com média de 10 dias. Os demais tratamentos foram reaplicados 17 a 24 dias após a primeira aplicação, com média de 21 dias. O intervalo entre a segunda e a terceira aplicação variou de 11 a 19 dias, com média de 14 dias. Para a aplicação dos produtos foi utilizado pulverizador costal pressurizado com CO2 e volume de aplicação mínimo de 120 L ha-1.

Foram utilizadas cultivares consideradas suscetíveis a mancha-alvo, com base em observações de campo. Os ensaios foram instalados em semeaduras no início da época recomendada, para reduzir a incidência da ferrugem. Em situações onde ocorreu ferrugem foram realizadas aplicações de picoxistrobina + ciproconazol 60 g + 24 g i.a. ha-1 (Aproach®Prima, DuPont) + Nimbus 0,75 L ha-1 em área total no ensaio.

Foram realizadas avaliações da severidade da mancha-alvo após a última aplicação; da severidade de outras doenças; da produtividade em área mínima de 5 m² centrais de cada parcela e do peso de 1000 grãos. Para a análise conjunta, foram utilizadas as avaliações da severidade da mancha-alvo, realizadas entre os estádios fenológicos R5 (início de enchimento de grãos) e R6 (vagens com 100% de granação) e da produtividade.

O intervalo médio entre a terceira ou quarta aplicação e a avaliação de severidade utilizada na análise dos ensaios foi de 14 dias.

Foram realizadas análises de variância exploratória, para cada local. Nas análises individuais foram observados o quadrado médio residual, o coeficiente de variação, o coeficiente de assimetria, o coeficiente de curtose, a normalidade da distribuição de resíduos (SHAPIRO; WILK, 1965), a aditividade do modelo estatístico (TUKEY, 1949) e a homogeneidade de variâncias dos tratamentos (BURR; FOSTER, 1972). Além das análises exploratórias individuais, a severidade máxima em R6 foi utilizada na seleção dos ensaios que compuseram a análise conjunta. O teste de comparações múltiplas de médias de Tukey (p=0,05) foi aplicado à análise conjunta a fim de se obter grupos de tratamentos com efeitos semelhantes. Todas as análises foram realizadas em rotinas geradas no SAS/STAT software, Versão 9.4. Copyright© 2016 SAS Institute Inc.

Tabela 1. Instituições, locais, cultivares e datas da semeadura da soja.
Tabela 2. Ingrediente ativo (i.a.), produto comercial (p.c.) e dose dos fungicidas nos tratamentos para controle da mancha-alvo da soja, safra 2016/17.

Resultados

Os ensaios dos locais 4, 5, 9, 13, 21, 22 e 23 (Tabela 1) não foram utilizados na sumarização em razão da severidade da testemunha inferior a 15% no estádio R6. O ensaio do local 20 foi eliminado em razão da elevada incidência de ferrugem.

Para as análises estatísticas foram utilizados os resultados dos locais 1, 2, 3, 6, 7, 8, 10, 11, 12, 14, 15, 16, 17, 18 e 19 (15 resultados) (Tabela 1). As menores severidades e as maiores porcentagens de controle foram observadas nos tratamentos 4 a 6 (T4 – piraclostrobina + epoxiconazol + fluxapiroxade; T5 – piraclostrobina + fluxapiroxade e T6 – bixafen + protioconazol + trifloxistrobina), variando de 75% a 78% de controle, seguido do tratamento 3 (T3 – trifloxistrobina + protioconazol), com 68% de controle (Tabela 3). O aumento de três (T9 e T10) para quatro aplicações (T11) do tratamento com mancozebe aumentou a eficiência de controle, passando de 42% (T9) e 43% (T10) de controle para 55% (T11). Entre os fungicidas multissítios com quatro aplicações (T11 a T13), o tratamento com mancozebe (T11) apresentou a maior eficiência, seguido de oxicloreto + mancozebe (T12) e clorotalonil (T13). A menor porcentagem de controle foi observada para o tratamento com carbendazim (T2 – 26%) apresentando, no entanto, severidade inferior à testemunha (Tabela 3).

As maiores produtividades foram observadas para os tratamentos 6 (bixafen + protioconazol + trifloxistrobina), 5 (piraclostrobina + fluxapiroxade), 4 (piraclostrobina + epoxiconazol + fluxapiroxade) e 3 (trifloxistrobina + protioconazol), seguido do 7 (picoxistrobina + tebuconazol + mancozebe) (Tabela 3). A produtividade dos tratamentos com fungicidas multissítios (T9 – T13) não diferiu estatisticamente, independente do número de aplicações.

A média da redução de produtividade da testemunha sem controle em relação a maior produtividade (T6) foi de 17%. A correlação (r) entre as variáveis severidade e produtividade foi
de r=-0,98.

A utilização de fungicidas é uma das ferramentas de controle. Entretanto, no manejo da doença devem ser empregadas outras estratégias, tais como a utilização de cultivares resistentes, o tratamento de sementes e a rotação/sucessão de culturas com milho e/ou outras espécies de gramíneas.

Tabela 3. Severidade da mancha-alvo (Sev.), porcentagem de controle em relação à testemunha sem fungicida (C), produtividade (Prod.) e porcentagem de redução de produtividade (RP) em relação ao tratamento com a maior produtividade, para os diferentes tratamentos. Média de 15 ensaios. Rede de ensaios cooperativos, safra 2016/17.

Referências

ALMEIDA, A.M.R.; MACHADO, C.C.; FERREIRA, L.P.; LEHMAN, P.S.; ANTONIO, H. Ocorrência de Corynespora cassiicola (Berk. & Curt.) Wei no Estado de São Paulo. Fitopatologia Brasileira, v.1, p.111-112, 1976.

BURR, I.W.; FOSTER, L.A. A test for equality of variances. West Lafayette: University of Purdue, 1972. 26 p. (Mimeo Series, 282).

GODOY, C.V.; ALMEIDA, A.M.R.; COSTAMILAN, L.M.; MEYER, M.; DIAS, W.P.; SEIXAS, C.D.S.; SOARES, R.M.; HENNING, A.A.; YORINORI, J.T.; FERREIRA, L.P.; SILVA, J.F.V.; Doenças da soja. In: AMORIM, L.; REZENDE, J.A.M.; BERGAMIN FILHO, A.; CAMARGO, L.E.A. (Org.). Manual de Fitopatologia: v. 2. Doenças das Plantas Cultivadas. 5. ed. São Paulo: Ceres, 2016. p. 657- 675.

SHAPIRO, S.S.; WILK, M.B. An analysis of variance test for normality. Biometrika, v. 52, p. 591-611, 1965.

TUKEY, J.W. One degree of freedom for non-additivity. Biometrics, v. 5, p. 232- 242, 1949.

YORINORI, J.T. Levantamento e avaliação da situação de doenças da soja na safra 1987/88. In: EMBRAPA. Centro Nacional de Pesquisa de Soja (Londrina, PR). Resultados de pesquisa de soja 1988/89. Londrina, 1989. p.158-159. (EMBRAPA-CNPSO. Documentos, 43).

Fonte: Embrapa Soja – Circular Técnica 130

 

Texto originalmente publicado em:
Circular Técnica - 130
Autor: Embrapa - Soja

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