Entressafra é momento oportuno para manejo da compactação do solo

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O período entressafra, durante o outono/inverno, é um dos momentos mais oportunos para manejar a compactação do solo. A compactação do solo é um dos principais fatores limitantes da produtividade de culturas agrícolas.

A compactação do solo é causada principalmente pelo trafego de máquinas agrícolas (figura 1), caminhões e pisoteio de animais que pastejam as áreas de integração lavoura/pecuária.  Em outras palavras, a  compactação do solo é a consequência de uma pressão exercida no solo, superior a sua capacidade de resistência, causando seu adensamento, redução da sua macroporosidade e espaço aéreo (Oliveira et al., 2019).

Figura 1. Compactação do solo causada por passada de máquina agrícola.
Foto: Henrique Debiasi

Uma das formas mais práticas de avaliar a compactação do solo, é por meio da análise da resistência do solo à penetração (RP), utilizando penetrômetros. No entanto, algumas orientações necessitam ser seguidas para obtenção de resultados fidedignos. O ideal é realizar as avaliações quando o solo atingir a capacidade de campo. A nível de lavoura para reduzir erros, recomenda-se a prática dois a três dias após eventos de chuva Beulter; Centurion; Silva (2007).

Figura 2. Uso de penetrômetro digital para avaliação da resistência a penetração do solo.
Foto: Moacir Tuzzin de Moraes

Conforme observado por Girardello et al. (2014), a medida em que há o aumento da resistência do solo à penetração, tem-se a redução da produtividade da soja. Fato, também observado para outras culturas agrícolas como milho e trigo. A restrição ao crescimento radicular imposta pelo impedimento físico resulta no menor volume de raízes, e consequentemente no menor volume de solo explorado, de água e nutrientes da solução do solo, restringindo o crescimento das plantas.

Figura 3. Produtividade da cultura da soja em função da resistência da penetração, determinada após o manejo da cultura de cobertura e classificada de acordo com Arshad et al. (1996), em Latossolo Vermelho na safra de 2008/09, muito alta.
Fonte: Girardello et al. (2014).

Tendo em vista o impacto da compactação na produtividade da soja, o período de entressafra das culturas de verão é um dos períodos mais oportunos para manejar solos compactados. Uma das principais estratégias, consiste na rotação de culturas com plantas com vasto sistema radicular, e/ou capacidade em descompactar o solo, tais como algumas espécies de gramíneas e culturas de cobertura como sistema radicular pivotante como o nabo-forrageiro (Figura 4).

Figura 4. Sistema radicular do nabo forrageiro.
Foto: Maria da Penha Angeletti.

A diversificação de espécies no sistema de produção é fundamental para manejar a compactação do solo. Além de atuar na descompactação do solo, por possuir um vasto sistema radicular, algumas espécies possuem a capacidade de ciclar os nutrientes do solo, absorvendo nutrientes nas camadas mais profundas do solo e disponibilizando-os para a cultura sucessora após a decomposição e mineralização dos resíduos culturais.


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Figura 5. Raízes de culturas produtoras de grãos e de cobertura, da esquerda para a direita são raízes de milheto, sorgo, milho, braquiária, soja, centeio e trigo.
Fonte: Embrapa Trigo, citado por Tiecher (2016)

Vale destacar que o manejo da compactação do solo deve ser ainda mais criterioso em sistemas de produção onde há a integração lavoura-pecuária. Além da carga animal por área, o período de entrada dos animais na área pode exercer influência sobre a compactação do solo. No geral, em conjunto com a carga animal, deve-se analisar a umidade do solo e a cobertura vegetal, visto que o pisoteio animal é um dos principais fatores responsáveis pela compactação do solo.

Figura 6. Efeito do pisoteio animal (bovino) em solo úmido.

A curto prazo, uma das medidas mais utilizadas para mitigar os efeitos da compactação do solo baseia-se na escarificação e/ou subsolagem do solo. Embora a prática divida opiniões, especialmente se tratando do sistema plantio direto, efeitos benefícios têm sido observados em função do uso de escarificadores, especialmente se tratando de solos altamente compactados.

Conforme analisado por Wagner, 2017, o efeito da escarificação do solo proporcionou aumento de produtividade de 3,2% em áreas de alta resistência à penetração (RP), já nas áreas de baixa RP, o autor observou incremento de produtividade superior a 12% (figura 6). Embora não seja considerada uma prática totalmente conservacionista, pode-se dizer que em termos gerais, a escarificação do solo pode contribuir para a melhoria das condições de solo para o crescimento e desenvolvimento da soja em solos compactados, além de possibilitar outros benefícios como o aumento da infiltração de água no solo.

Segundo Faé et al. (2020), a produtividade da soja esta diretamente relacionada a profundidade das raízes (Figura 7), que pode sua vez, é limitada pela compactação do solo. Em suma, pode-se dizer que quanto maior o volume radicular da soja, maior o volume de solo explorado e, consequentemente, maior o acesso da planta a água e nutrientes do solo, e maior a tolerância da soja a déficits hídricos.

Figura 7. Relação entre a profundidade de raízes da soja e a produtividade da cultura em lavouras comerciais de soja de alta produtividade nos EUA.
Fonte: Faé et al. (2020)

Considerando que solos compactados afetam o crescimento e desenvolvimento do sistema radicular das plantas, manejar a compactação do solo é essencial para a manutenção do potencial produtivo das culturas, e, o período entressafra é um dos melhores momentos para adotar medidas integradas como o cultivo de plantas de cobertura e/ou ajustar estratégias que permitam mitigar os efeitos da compactação do solo, como o ajuste da densidade do rebanho no caso da integração lavoura-pecuária.


Veja mais: Cobre e sua importância para a soja



Referências:

BEULTLER, A. N; CENTURION, J. F; SILVA, A. P. COMPARAÇÃO DE PENETRÔMETROS NA AVALIAÇÃO DA COMPACTAÇÃO DE LATOSSOLOS. Eng. Agríc. Jaboticabal, v.27, n.1, p.146-151, jan/abr. 2007. Disponível em: < https://www.scielo.br/j/eagri/a/945p7mTs3zSvGMKxfmMXmCN/?format=pdf&lang=pt >, acesso em: 12/04/2024.

FAÉ, G. S.; KEMANIAN, A. R.; ROTH, G. W.; WHITE, C.; WATSON, J. E. SOYBEAN YIELD IN RELATION TO ENVIRONMENTAL AND SOIL PROPERTIES. European Journal of Agronomy, v. 118, 2020. Disponível em: < https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1161030120300770#:~:text=Saturated%20hydraulic%20conductivity%20(ksat,exceeding%207%20Mg%20ha%2D1. >, acesso em: 12/04/2024.

GIRARDELLO, V. C. et al. RESISTÊNCIA À PENETRAÇÃO, EFICIÊNCIA DE ESCARIFICADORES MECÂNICOS E PRODUTIVIDADE DA SOJA EM LATOSSOLO ARGILOSO MANEJADO SOB PLANTIO DIRETO DE LONGA DURAÇÃO. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 2014. Disponível em: < https://www.scielo.br/j/rbcs/a/GL9npmLBjc5x5wY8zdVtCWS/?format=pdf&lang=pt >, acesso em: 12/04/2024.

MORAES, M. T. et al. BENEFÍCIOS DAS PLANTAS DE COBERTURA SOBRE AS PROPRIEDADES FÍSICAS DO SOLO. Manejo e Conservação do Solo e da Água em Pequenas Propriedades Rurais no Sul do Brasil: Práticas alternativas de manejo visando a conservação do solo e da água. Cap. III, 2016. Disponível em: < https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/149123/001005239.pdf?sequence=1&isAllowed=y >, acesso em: 112/04/2024.

OLIVEIRA, A. B. et al. SOJA: O PRODUTOR PERGUNTA, A EMBRAPA RESPONDE. Embrapa, Coleção 500 Perguntas 500 Respostas, 2019. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/208388/1/500-PERGUNTAS-Soja-ed-01-2019.pdf >, acesso em: 12/04/2024.

WAGNER, W. A. ESPACIALIZAÇÃO DA COMPACTAÇÃO DO SOLO E O EFEITO DA ESCARIFICAÇÃO MECÂNICA SOB A PRODUTIVIDADE DA CULTURA DA SOJA. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa Maria, 2017. Disponível em: < https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/13017/DIS_PPGAP_2017_WAGNER_WILLIAM.pdf?sequence=1&isAllowed=y >, acesso em: 12/04/2024.

Foto de capa: Embrapa.

 

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