Escarificação e gessagem influenciando atributos físicos de um latossolo vermelho distroférrico

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O objetivo desse trabalho foi avaliar os efeitos da escarificação e gessagem em alguns atributos físicos de um Latossolo Vermelho Distroférrico.

Autores: SANTOS, E.L.1; BALBINOT JUNIOR, A.A. 2; DEBIASI, H. 2; FRANCHINI, J.C. 2

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Introdução 

O manejo do solo pode ser compreendido como sendo um conjunto de práticas que, usado racionalmente, permite elevada produtividade das culturas a custos que compensam ao produtor. Entre as práticas de manejo, destaca-se o Sistema Plantio Direto (SPD) que, executado em concordância com seus fundamentos básicos, pode ser classificado como prática conservacionista, que confere sustentabilidade aos sistemas produtivos. No entanto, o atendimento parcial em seus fundamentos tem provocado a perda de qualidade do solo, com o aumento da compactação e consequente redução da capacidade de armazenamento e infiltração de água (FRANCHINI et al., 2016).

Uma prática comum destinada à eliminação ou redução de impedimentos mecânicos é a escarificação, a qual pode desestruturar as camadas do solo. Por sua vez, o gesso agrícola (CaSO4) pode ser uma alternativa para reduzir o estado de compactação do solo e promover a sua estruturação, em razão do seu efeito floculante e ao aumento da disponibilidade de Ca e S às plantas, permitindo maior crescimento de raízes quando há carência desses nutrientes no solo. Nesse sentido, o gesso pode proporcionar rápida reestruturação do solo após a escarificação em um solo originalmente com alta densidade. A taxa de infiltração de água no solo (TI) é um importante indicador para avaliar a qualidade física do solo (REICHERT et al., 2009).

O conhecimento da dinâmica da água no solo é uma ferramenta importante para avaliar o sistema de manejo executado em uma área (CALHEIROS et al., 2009). Adicionalmente, outro indicador relevante de compactação é a resistência do solo à penetração (RP). O objetivo desse trabalho foi avaliar os efeitos da escarificação e gessagem em alguns atributos físicos de um Latossolo Vermelho Distroférrico.

Material e Métodos

O experimento foi conduzido na área experimental do Curso de Agronomia da UNIFIL, município de Londrina-PR, em um Latossolo Vermelho Distroférrico muito argiloso. O delineamento experimental foi de blocos completos casualizados, com nove repetições. Foram avaliados quatro tratamentos: SPD sem gesso, SPD com gesso, solo escarificado sem gesso e solo escarificado com gesso. A dose de gesso foi calculada conforme Tecnologias (2013), a partir do teor de argila, sendo equivalente a 3,5 Mg ha-1. O gesso foi distribuído a lanço em maio de 2014, antes da escarificação. As parcelas mediram 10 x 10m, totalizando 100 m2, e a área foi ocupada pelas culturas do trigo (outono/ inverno) e soja (primavera/verão).

A avaliação da infiltração da água no solo foi realizada em outubro de 2015, em três pontos por parcela, utilizando-se um infiltrômetro modelo Cornell. A precipitação simulada foi mantida na intensidade de 300 mm h-1 de água, nos quatro tratamentos estudados. A RP foi realizada em duas avaliações. Na implantação do experimento foram realizadas nove leituras distanciadas de 0,11m entre si, em um transecto de 0,9m. Na segunda avaliação de RP – 20 meses após a escarificação – foram realizadas nove leituras transversalmente, com três leituras na linha e seis na entrelinha da soja. Foi utilizado um medidor automatizado de RP marca Falker (Solotrack), até a profundidade de 0,50 m. Juntamente com a RP foram coletadas amostras nas camadas de 0,0-0,1 e 0,1-0,2 para determinação de umidade do solo. Para comparar a RP das duas avaliações realizadas, as umidades foram corrigidas com base na densidade do solo avaliada nas duas épocas.

Os dados foram submetidos à análise de variância e teste F (p≤0,05). Havendo efeito significativo de tratamentos, as médias foram comparadas pelo teste de Tukey (p≤0,05).

Resultados e Discussão

Após 17 meses da implantação do experimento, a área manejada em SPD sem a aplicação de gesso agrícola apresentou a menor taxa de infiltração (TI) e o maior volume de escoamento superficial (ES) (Tabela 1). Os dois sistemas de manejo do solo com aplicação de gesso agrícola apresentaram respostas intermediárias para TI e ES. Entre os sistemas de manejo do solo, as TI foram maiores e os de ES menores no solo que foi escarificado.

Tabela 1. Taxa de Infiltração e escoamento superficial de água no solo (mm) em razão de precipitação simulada por infiltrômetro de Cornell, em diferentes sistemas de manejo do solo, em um Latossolo Vermelho Distroférrico, Londrina/PR.

Isso demonstra o grande impacto da escarificação sobre a dinâmica de infiltração de água no solo. Por outro lado, é necessário enfatizar que a mobilização do solo provocada pela escarificação pode reduzir a retenção de água no meio edáfico.

A área manejada sob SPD sem gesso apresentou o início do ES aos 4,32 minutos após o início da precipitação, enquanto que no SPD escarificado sem gesso o início do ES ocorreu apenas aos 13,53 minutos (Figura 1). No caso destes dois tratamentos, este comportamento resultou, respectivamente, em infiltração total de 40% e 80% da chuva simulada, o que pode representar grandes diferenças em estratégias de uso de práticas de controle ao ES em cada situação.

Figura 1. Tempo de início do ES e infiltração total da água no solo em relação à precipitação simulada por infiltrômetro de Cornell em diferentes sistemas de manejo, em um Latossolo Vermelho Distroférrico, Londrina/PR.

No início do experimento, maio de 2014, os valores médios de resistência à penetração (RP) foram semelhantes entre os quatro tratamentos, indicando certa homogeneidade entre tratamentos. Na camada de 0,20-0,30m, constatou-se RP superior a 3000 kPa, o que pode restringir o crescimento radicular de culturas anuais (Figura 2A). Após 20 meses, uma segunda avaliação da RP mostrou que, em geral, ocorreu redução da RP em todos os tratamentos (Figura 1B). O fato da diminuição nos valores de RP durante o período pode ser decorrente de menor tráfego de máquinas durante a condução da área experimental em relação ao histórico da área. Na segunda avaliação da RP, verificam-se maiores diferenças entre tratamentos, principalmente na camada de 0,10 a 0,30 m, com maiores valores para o SPD contínuo em relação ao solo escarificado com ou sem gesso. Verifica-se também que a aplicação de gesso no SPD tendeu a reduzir a RP nessa camada em relação ao SPD sem gesso.

Figura 2. Valores médios de resistência à penetração (RP) avaliada até 0,50 m. A figura 2A se refere à avaliação no início do experimento (maio/2014); a figura 2B se refere à  valiação realizada em janeiro/2016, para os sistemas de manejo do solo estudados em um Latossolo Vermelho Distroférrico, Londrina/PR.

Conclusão

A escarificação aumentou a taxa de infiltração de água no solo e reduziu a resistência à penetração. A aplicação superficial de gesso agrícola em Sistema Plantio Direto proporcionou redução da resistência à penetração na camada de 0,10 a 0,30 m.

Referências

CALHEIROS, C. B. M.; TENÓRIO, F. J. C.; CUNHA, J. L. X. L.; SILVA, E. T.; SILVA, D. F.; SILVA, J. A. C. Definição da taxa de infiltração para dimensionamento de sistemas de irrigação por aspersão. Revista Brasileira Engenharia Agrícola e Ambiental, v. 13, n. 6, p. 665-670, 2009.

FRANCHINI, J. C.; ARMACOLO, N. M.; DEBIASI, H.; BALBINOT JUNIOR, A. A.; SANTOS, E. L. Eficiência na manutenção e readequação do sistema de terraceamento numa fazenda no norte do Paraná. In: REUNIÃO BRASILEIRA DE MANEJO E CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA, 20., 2016, Foz do Iguaçu. O solo sob ameaça: conexões necessárias ao manejo e conservação do solo e água: anais. Curitiba: SBCS-NEPAR; Londrina: IAPAR, 2016. p. 492-494.

REICHERT, J. M.; SUZUKI, L.; REINERT, D. J.; HORN, R.; HAKANSSON, I. Reference bulk density and critical degree-of-compactness for no-till crop production in subtropical highly weathered soils. Soil and Tillage Research, Amsterdam, v. 102, n. 2, p. 242-254, 2009.

TECNOLOGIAS de produção de soja – Região Central do Brasil 2014. Londrina: Embrapa Soja, 2013. 265 p. (Embrapa Soja. Sistemas de Produção, 16).

Informações dos autores:

1Centro Universitário Filadélfia de Londrina – Unifil, Campus Palhano, Londrina-PR,;

2Embrapa Soja, Rod. Carlos João Strass, Distrito de Warta, C.P. 231, CEP 86001-970, Londrina-PR.

Disponível em: Anais da XXXVI Reunião de Pesquisa de Soja. LONDRINA – SC, Brasil.

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