O objetivo deste trabalho foi identificar a influência da data de semeadura e do grupo de maturidade relativa no índice de área foliar da cultura da soja

Autores: Paulo Marcks1, Nereu Augusto Streck1, Thiago Schmitz Marques da Rocha1, Isabela Bulegon Pilecco1, Vladison Fogliato Pereira1, Simone Puntel1, Darlan Scapini Balest1, Bruno de Lima Fruet1, Guilherme Vinícius viesloski1, Anelise Lencina da Silva1, Gilmara Peripolli Tonel1 e Alexandre Ferigolo Alves1.

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

O índice de área foliar (IAF) é a relação entre a área foliar e a área de solo ocupada pelo cultivo. Através de medidas lineares das folhas, principal órgão fotossintetizante em plantas, podemos estimar a área foliar (RICHTER et al., 2014). O IAF pode ser utilizado para representar a eficiência fotossintética, para analisar o crescimento e, também, como fator condicionante da produtividade, pois através do IAF, é definida a capacidade do dossel em interceptar a radiação solar, converter em matéria seca através da fotossíntese, e determinar o potencial produtivo da cultura (ZANON et al., 2015). Em contraste, há uma lacuna de informações sobre o impacto do índice de área foliar, sobre o potencial de produtividade em soja (PP), principalmente em regiões que apresentam extensa janela de semeadura (setembro a fevereiro, + ou – 150 dias) e uso de cultivares com ampla faixa de grupos de maturidade relativa (GMR, indica a região que a cultivar apresenta a melhor adaptação), como ocorre no sistema de cultivo de soja no Sul do Brasil.

Estudos prévios no Brasil indicam que a deficiência hídrica e a época de semeadura são os principais fatores que limitam o aumento da produtividade das lavouras de soja (SENTELHAS et al., 2015; ZANON et al., 2016). Porém, pequeno é o conhecimento sobre a influência de fatores ecofisiológicos, e sua interação com práticas de manejo (p.e., data de semeadura, GMR e tipo de crescimento), sobre o potencial de produtividade de soja. Além disso, os estudos que determinaram que valores de IAF entre 3,5 a 4 maximizavam a produtividade de grãos de soja, foram realizados quando as máximas produtividades alcançadas em experimentos e lavouras eram de 3 a 4 Mg ha-1 (SPECHT et al., 1999).


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Com as mudanças nas características genéticas das cultivares e com o aumento do potencial de produtividade para aproximadamente 6 Mg ha-1 (SENTELHAS et al., 2015, ZANON et al., 2016), surge a necessidade de retomar estudos básicos para apontar os valores de IAF que permitem aumentar a eficiência na captura e uso da radiação solar visando maximizar a produção de biomassa e grãos em lavouras de soja, em uma abordagem de potencial de produtividade. Para preencher essa lacuna de informação sobre o IAF necessário para atingir o potencial de produtividade, e a partir disso ajustar as recomendações técnicas de densidade de semeadura, manejo de pragas e doenças em função do GMR, tipo de crescimento e época de semeadura das lavouras de soja, foram conduzidos experimentos durante quatro estações de crescimento (2011–2015) em instituições de pesquisa e lavouras de soja no RS, com uma ampla faixa de condições climáticas e práticas de manejo.

O objetivo deste trabalho foi identificar a influência da data de semeadura e do grupo de maturidade relativa no índice de área foliar da cultura da soja.

Foram utilizados nesse estudo um conjunto de dados de vinte e um experimentos, conduzidos em quatro anos agrícolas (2011/2012, 2012/2013, 2013/2014 e 2014/2015), abrangendo as diferentes condições edafoclimáticas na região produtora de soja no RS.

O conjunto de dados inclui experimentos irrigados e não irrigados e um total de 16 cultivares de soja. As cultivares de soja apresentavam tipo de crescimento determinado ou indeterminado e foram divididas em 3 grupos, conforme seu grupo de maturidade relativa (GMR), cultivares de GMR curto (GMR ≤ 5.4), GMR médio (5.5 ≥ GMR ≤ 6.9) e GMR longo (GMR > 7.0). As cultivares de soja foram semeadas em épocas, antes (final de setembro e início de outubro), durante (final de outubro até dezembro) e após (a partir de dezembro) o período recomendado pelo Zoneamento Agroclimático da Soja para o Rio Grande do Sul.

O delineamento experimental utilizado foi blocos ao acaso com quatro repetições. O espaçamento entre linhas foi de 0,45 m e a densidade foi de 30 plantas/m² em todos os locais. As avaliações de área foliar foram realizadas através de um método não destrutivo, medindo-se o comprimento e largura do folíolo central de todas as folhas, e a área foliar foi calculada pelo método descrito por Richter et al. (2014).

Em cultivares com GMR longo (> 7.0) e médio (5.5 < GMR > 6.9) os maiores valores de IAFmax ocorrem nas semeaduras no final de setembro e início de outubro, reduzindo o IAF com o atraso de semeadura (Figura 1). As cultivares com GMR curto (GMR < 5.4) apresentaram os maiores valores de IAFmax nas semeaduras realizadas no período preferencial (novembro), apresentando menores valores de IAFmax quando a semeadura é antecipada e principalmente quando a semeadura é tardia (a partir de dezembro) (Figura 1).

Esses resultados estão de acordo com os descritos recentemente para cultivares modernas de soja, que relatam redução no IAFmax com o atraso da época de semeadura, independentemente do grupo de maturação e tipo de crescimento (ZANON et al 2015), exceto para as cultivares com GMR menor que 5.5, pois essas apresentaram maiores valores de IAFmax em novembro. No entanto, divergindo de trabalhos clássicos (MIYASAKA & MEDINA, 1981), onde o IAFmax para as cultivares antigas ocorria principalmente no mês de novembro, pois nas semeaduras de final de setembro e início de outubro, essas cultivares apresentavam maior sensibilidade ao fotoperíodo, durante o período crítico de indução floral (V0-R0) (Setiyono et al., 2007), promovendo, assim, a antecipação do início do florescimento nas semeaduras do cedo, quando comparado as semeaduras de novembro, que por sua vez reduzia o crescimento vegetativo e os valores de IAFmax.

Figura 1: Relação entre o índice de área foliar máximo (IAFMax.) e a data de semeadura (expresso como dias após 20 de setembro), para diferentes grupos de maturação relativos (GMR). Linha sólida preta mostra a função de 2 grau ajustadas para os GMR < 5.4, linha sólida azul mostra a função de 1 grau ajustada para os GMR entre 5.5 a 6.9 e a linha sólida vermelha mostra a função de 1 grau ajustada para os GMR > 7. A linha tracejada preta representa o IAF ótimo no qual acima dele o ganho de produtividade é menor que 0,5 %.

Quando comparado as cultivares de GMR longo com as de GMR médio observa-se que a diferença de IAFmax é maior nas semeaduras antecipadas (IAFmax = 2,82), reduzindo no período preferencial (IAFmax = 1,06) e quando semeadas após dezembro a diferença é pequena (IAFmax = 0,33). As cultivares de GMR médio apresentam maior IAFmax que as de GMR longo quando a semeadura é realizada em meados de fevereiro (Figura 1).

Cultivares de GMR curto apresentam um fotoperíodo ótimo maior e, por isso, são induzidas a florescer antecipadamente quando semeadas no início da primavera em latitudes subtropicais, onde o fotoperíodo nessa época está abaixo do fotoperíodo ótimo, assim aumentando o estimulo e consequentemente antecipando seu florescimento, e reduzindo o IAFmax das cultivares modernas. Para cultivares modernas de GMR longo e GMR médio em função de apresentarem fotoperíodo ótimo menor, não são estimuladas a florescer nas semeaduras do cedo, prolongando assim o período vegetativo e aumentando o IAFmax (SETIYONO et al., 2011; ZANON et al., 2015).


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Nas recomendações para cultura da soja no Brasil e nos EUA, são aceitas perdas de no máximo 30% de IAF durante a fase vegetativa e de 15% a 20% na fase reprodutiva (BUENO et al., 2010, OHNESORG & HUNT, 2015). Porém, segundo nosso entendimento e levando em consideração a tendência dos dados na Figura 1, as recomendações devem ser ajustadas levando em consideração as épocas de semeadura e os GMR, pois quando ocorre atraso na data de semeadura ou optar-se por cultivares de GMR curto, o IAF encontrado será menor, assim tornando necessário ajustar o manejo fitossanitário da cultura da soja, sendo essa uma forte demanda para novas pesquisas.

Referências

BUENO, A. F. et al. Níveis de desfolha tolerados na cultura da soja sem a ocorrência de prejuízos à produtividade. Londrina: EMBRAPA, 2010. Disponível em: http://www.cnpso.embrapa.br/download/CT79VE.pdf. Acesso em: 29 Ago. 2016.

MIYASAKA, S.; MEDINA, J. C. (Ed.). A soja no Brasil. Campinas-SP: ITAL, 1981. 1062p.

OHNESORG, W. J.; HUNT, T. E. Managing Soybean Defoliators. Extension, Institute of Agriculture and Natural Resources, University of Nebraska– Lincoln, 2015.

RICHTER, G. L.; et al. Estimativa da área de folhas de cultivares antigas e modernas de soja por método não destrutivo. Bragantia, Campinas, v.73, p.416-425, 2014.

SENTELHAS, P. C.; BATTISTI, R. ; CÂMARA, G. M. S. ; FARIAS, J. R. B. ; HAMPF, A. C. ; NENDEL, C. . The soybean yield gap in Brazil – magnitude, causes and possible solutions for sustainable production. Journal of Agricultural Science, v. 153, p. 1394-1411, 2015.

SETIYONO, T.D.; WEISS, A.; SPECHT, J.; BASTIDAS, A.M.; CASSMAN K.G.; DOBERMANN, A. Understanding and modeling the effect of temperature and daylength on soybean phenology under high-yield conditions. Field Crops Research, v.100, p.257-271, 2007.

SETIYONO, T. D. et al. Nodal leaf area distribution in soybean plants grown in high yield environments. Agronomy Journal, v.103, p.1198-1205, 2011. SPECHT J.E.; HUME D.J.; KUMUDINI S.V. Soybean yield potential a genetic and physiological perspective. Crop Science Society of America. v. 39, p.1560–1570, 1999.

ZANON, A. J. et al. Contribuição das ramificações e a evolução do índice de área foliar em cultivares modernas de soja. Bragantia, Campinas, v.74, n.3, p.279-290, 2015.

ZANON, A.J.; STRECK, N.A.; GRASSINI, P. Climate and management factors influence soybean yield potential in a subtropical environment. Agronomy Journal, 2016.

TAGLIAPIETRA, E. L. et al. Optimum leaf area index to reach soybean yield potential in subtropical environment. Agronomy Journal, v.110, p.932-938, 2018.

Informações dos autores:  

1Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, Campus Camobi, Santa Maria, RS.

Disponível em: Anais da 42ª Reunião de Pesquisa de Soja da Região Sul, Três de Maio – RS, Brasil, 2018.

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