Fosfitos no manejo da antracnose em vagens de soja

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Autores: Manoel Batista da Silva Júnior1, Alexandre Ribeiro Maia de Resende1, Bruno Henrique Garcia Costa1, Mário Lúcio Vilela de Resende1, Edson Ampélio Pozza1

1Universidade Federal de Lavras – UFLA, Lavras-MG

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Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com o consentimento dos autores.

A soja é uma das culturas mais importantes do mundo social e economicamente. Os Estados Unidos ocupam a liderança na produção e o Brasil é o segundo maior produtor. Em 2013 esta cultura foi responsável por 26% das exportações do agronegócio brasileiro totalizando 23 bilhões de dólares (OCDE – FAO, 2015). A produção brasileira cresce a cada safra e no ano agrícola 2013/2014 a produção foi de 86 milhões de sacas com área plantada de 30 milhões de hectares, enquanto na última safra 2014/2015 estes número cresceram para 96 milhões de toneladas 32 milhões de hectares (CONAB, 2015).

 

As doenças se destacam por causar perdas significativas nesta cultura, sendo a antracnose uma das principais por afetar todos os estádios fenológicos da soja.  A referida doença é causada pelo fungo Colletotrichum truncatum e os principais sintomas são podridão de sementes, lesões deprimidas e escuras nas folhas e hastes e deiscência e podridão de vagens. As perdas podem chegar a 100% em condições de umidade e temperatura favoráveis ao patógeno durante o plantio devido à significativa redução na germinação das sementes (Galli et al., 2007; Silva et al., 2012) e à deiscência e podridão de vagens antes da colheita. O patógeno é transmitido por sementes, sendo estas o inóculo inicial que irá causar as novas epidemias. A carência de produtos capazes de controlar o patógeno na parte aérea demanda a busca por fontes alternativas e eficazes de controle.

Dentre os produtos alternativos disponíveis no mercado destacam-se os fosfitos. Estes produtos são obtidos por reação do ácido fosforoso com uma base (K+, Ca2+, Mn2+, Zn2+, etc.) e podem atuar na nutrição e indução de resistência no hospedeiro e na toxidez direta ao patógeno (Dalio et al., 2012). Alguns trabalhos publicados demonstram a eficiência dos fosfitos no manejo de outras doenças foliares da soja. Silva et al. (2011) observaram redução na intensidade do míldio da soja (Peronospora manshurica) em condições de campo com o aumento da dose de uma formulação de fosfito de potássio. Segundo os mesmos autores a associação do fosfito de potássio com duas aplicações do fungicida epoxyconazol + piraclostrobina reduz a incidência de ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi) e do oídio (Microsphaera diffusa) também em nível de campo.

Portanto, estes produtos podem apresentar eficácia no controle da antracnose da soja. O objetivo do ensaio foi avaliar o efeito de 4 formulações comerciais de fosfitos de Cu, K, Mn e Zn no manejo da antracnose em vagens de soja e no controle da transmissão de C. truncatum de plantas a sementes de soja.

O ensaio foi conduzido em câmara de crescimento sob fotoperíodo de 12h de luz e temperatura de 27°C e umidade relativa do ar em torno de 70-80%. O delineamento utilizado foi o de blocos casualizados com 4 repetições, sendo cada repetição composta por um vaso com 3 plantas. Foi utilizado o Cultivar TMG 1176 RR, considerado susceptível à antracnose e o isolado LAPS-473 de C. truncatum. Todos os tratos culturais (adubação, irrigação, controle de pragas, etc.) foram realizados conforme recomendação para a cultura.

As plantas foram conduzidas em vasos de 4L de volume contendo substrato composto por terra de barranco, areia e substrato orgânico (2:1:1)        . Os tratamentos utilizados estão descritos na tabela 1 e foram aplicados com pulverizador manual pressurizado com volume de calda de 200 L.ha-1 e pressão de 40 psi no estádios V3, R1 e R3.

Tabela 1. Tratamentos, doses, nomes comerciais e fabricantes dos produtos. Lavras, MG, 2016.Imagem25

Quando as plantas se encontravam no estádio R4 foi realizada a inoculação do patógeno nas vagens. Para tanto o fungo foi crescido em placas de Petri contendo o meio BDA e incubadas em BOD a 27°C e fotoperíodo de 12h de luz. Após o crescimento do micélio discos de 0,5cm de diâmetro foram depositados em tubos de ensaio de 10 mL autoclavados contendo uma vagem de soja parcialmente imersa no meio de cultivo BDA. Para obtenção da suspensão foram pipetados 2 mL de água autoclavada nos tubos e os mesmos forma então levados a agitador para desprender os esporos das vagens. A suspensão obtida foi calibrada para 1×106 conídios por mililitro e foi adicionado ágar (0,2%) para melhor aderência dos esporos nas vagens. A suspensão foi então pulverizada sobre as vagens com pulverizador manual pressurizado com volume de calda de 200 L.ha-1 e pressão de 40 psi.

Após o aparecimento dos sintomas foram realizadas 5 avaliações em intervalos de 5 dias da severidade da antracnose nas vagens com base em escala diagramática de Horsfall e Barrat (1945), considerada escala universal, uma vez que não existe uma escala diagramática específica para este fim. Com base na severidade foi determinada a área abaixo da curva de progresso da severidade (AACPS) segundo metodologia de Shanner e Finey (1977) e o controle proporcionado pelos tratamentos conforme Abbott (1925).

Ao fim do ensaio as sementes foram colhidas e secas até umidade de 13%. Em seguida as mesmas foram submetidas ao teste de sanidade de sementes (Blotter-test) em papel filtro conforme metodologia das RAS (Brasil, 2009) para determinação da incidência do patógeno e do controle da transmissão proporcionado pelos tratamentos (Abbot, 1925).

Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância (ANOVA) no teste F e em caso de significância para este teste as médias foram diferenciadas pelo teste de Scott-Knott, sendo todas as análises realizadas no software R 3.1.3.

Ao longo das avaliações todos os tratamentos testados reduziram a severidade da antracnose em relação à testemunha inoculada. O fosfito de zinco, apesar de reduzir a severidade, manteve estas em níveis mais próximos da testemunha inoculada. Já os demais tratamentos mantiveram a severidade em níveis mais baixos e próximos da testemunha não inoculada (Figura 1).

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Figura 1. Efeito doa tratamentos sobre o progresso da severidade da antracnose em vagens de soja.

Todos os tratamentos diferiram significativamente da testemunha para a AACPS. O fosfito de zinco diferiu da testemunha inoculada, mas foi inferior aos demais tratamentos e proporcionou controle de 27%. Os fosfitos de cobre, potássio e manganês juntamente com o fungicida não diferiram da testemunha não inoculada e proporcionaram controle de 77 a 89% (Figuras 2 e 3).

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Figura 2. Efeito dos tratamentos sobre a AACPS da antracnose em vagens de soja. Médias seguidas pela mesma letra não diferem entre si ao nível de 5% (p≤0,05) pelo teste de Scott-Knott.

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Figura 3. Efeito visual dos tratamentos sobre a severidade da antracnose em vagens de soja.

Em relação à transmissão todos os tratamentos diferiram da testemunha inoculada. O fosfito de zinco e o fungicida apresentaram efeito intermediário na incidência e promoveram controles de 22 e 51%, respectivamente. Os fosfitos de cobre, manganês e potássio foram superiores aos demais tratamentos, mas apresentaram incidência significativamente maior que a testemunha não inoculada e proporcionaram controle de 63 a 69% (Figuras 4 e 5).

 

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Figura 4. Efeito dos tratamentos sobre a incidência de C. truncatum em sementes de soja oriundas de vagens inoculadas. Médias seguidas pela mesma letra não diferem entre si ao nível de 5% (p≤0,05) pelo teste de Scott-Knott.

 

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Figura 5. Efeito visual dos tratamentos na incidência de C. truncatum em sementes de soja oriundas de vagens inoculadas

Com base nos resultados apresentados, pode-se afirmar que os fosfitos de cobre, manganês e potássio testados apresentam eficácia no controle da antracnose em vagens e promovem redução na transmissão de Colletotrichum truncatum de vagens à sementes de soja em condições de câmara de crescimento. Novos ensaios devem ser conduzidos no campo para confirmações destes resultados.

Referências

 Abbott, W.S. 1925. A method of computing the effectiveness of an insecticide. Journal of Economic Entomology, 18: 265-266.

CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento –  http://www.conab.gov.br/OlalaCMS/uploads/arquivos/15_09_11_10_42_03_boletim_graos_setembro_2015.pdf – Acesso em 02/02/2016 13:45h.

Horsfall, J. C.; Barrat, R.W. An improved grading system for measuring plant diseases. Phytopathology 35:665. 1945.

Dalio, R. J. D.; Ribeiro Júnior, P. M.; Resende, M. L. V.; Silva, A. C.; Blumer, S.; Pereira, V. F.; Osswald, W.; Pascholati, S. F.. 2012. O triplo modo de ação dos fosfitos em plantas.. In: Wilmar C. Luz. (Org.). Revisão Anual de Patologia de Plantas, 20: 206-242.

Galli, J. A.; Panizzi, R. C.; Vieira R. D.. 2007. Resistência de variedades de soja à morte de plântulas causada por Colletotrichum truncatum. Arquivos do Instituto Biológico, 74: 163-165.

OCDE – FAO. 2015. Perspectivas Agrícolas no Brasil: desafios da agricultura brasileira 2015-2024. Disponível em: https://www.fao.org.br/download/PA20142015CB.pdf. Acesso em 01/02/2016 09:50.

Shanner, G.; Finney, R.E. The effect of nitrogen fertilization on the expression of slow-mildewing resistance in knox wheat. Phytopathology 70:1183-1186. 1977.

Silva, O. C.; Santos, H. A. A.; Dalla Pria, M.; May-De Mio, L. L. 2011. Potassium phosphite for control of downy mildew of soybean. Crop Protection. 30: 598-604.

Silva, A. C.; Souza, P. E.; Machado, J. C.; Silva, B. M.; Pinto, J. E. B. P.. 2012. Effectiveness of essential oils in the treatment of Colletotrichum truncatum infected soybean seeds. Topical Plant Pathology, 37: 305-313.

Fonte: Anais do 49º Congresso Brasileiro de Fitopatologia

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