Hoje, vamos continuar entendendo sobre os mecanismos de ação dos herbicidas.

Já vimos sobre os Inibidores da ACCase, Glutamina sintetase, FSI, FSII, CarotenóidesCrescimento Inicial, PROTOX e ALS.

No texto de hoje vamos compreender o mecanismo de ação dos herbicidas Inibidores da EPSPs (enol-piruvil-shikimato-fosfato sintetase).

Este grupo é representado pelo herbicida glyphosate.

O glyphosate faz parte do grupo químico das glycines.

Fonte: weedscience.

Vamos ver agora as principais características dos herbicidas Inibidores da EPSPs.

Principais características

  • o glyphosate é um dos herbicidas mais utilizados e estudados no mundo;
  • amplo espectro de controle (controla folhas largas e estreitas);
  • usado apenas em pós-emergência;
  • sistêmico (por isso é muito utilizado para o controle de plantas daninhas perenes ou ainda com órgãos de propagação vegetativa – bulbos, rizomas e tubérculos);
  • não seletivo (seletivo apenas para culturas tolerantes ao glyphosate);
  • não tem atuação no solo, porque é fortemente sorvido;
  • muito utilizado para dessecação.

Como ocorre o controle das plantas daninhas?

Os herbicidas Inibidores da EPSPs, atuam inibindo a enzima enol-piruvil-shikimato-fosfato sintetase (EPSPs);

A enzima EPSPs catalisa a ligação do shikimato 3-fosfato com o fosfoenolpiruvato para a formação de enol-piruvil-shikimato-3-fosfato e fosfato inorgânico;

O glyphosate se liga a enzima EPSP sintase, competindo com o substrato PEP (fosfoenolpiruvato);

Com a inibição da enzima EPSPs ocorre o acúmulo de shikimato nos vacúolos, além do bloqueio da síntese de 3 aminoácidos aromáticos importantes: o triptofano, a tirosina e a fenilalanina.

Locais de atuação dos herbicidas que inibem a síntese de algum tipo de aminoácido. Fonte: Vargas et al. (1999). Retirado de Oliveira Jr. (2011).

Fonte: UFSM.

Agora que vimos como o glyphosate atua nas plantas, vamos ver quais os sintomas que podemos identificar após a aplicação deste herbicida. 

Sintomas após a aplicação de herbicidas Inibidores da EPSPs

O glyphosate é um herbicida usado em pós-emergência, assim é absorvido pelas folhas;

Após ser absorvido transloca-se rapidamente até atingir o floema, acumulando nos pontos de crescimento (meristemas);

Ocorre então a paralisação do crescimento, mas os sintomas demoram a aparecer;

Lentamente vão aparecendo cloroses e necroses nas folhas, com a morte da planta em dias ou semanas.

Casos de resistência no Brasil e no mundo!

No mundo estão registrados 312 casos de resistência a este mecanismo de ação.

Casos de resistência aos herbicidas Inibidores da EPSPs. Fonte: weed science.

No Brasil, existem 15 relatos de resistência a este mecanismo de ação, relacionados à 8 espécies de plantas daninhas.

As espécies de plantas daninhas nas quais foram relatados casos de resistência ao glyphosate no Brasil são:

    • Lolium perenne ssp. multiflorum (azevém);
  • Conyza bonariensis (buva ou voadeira);
  • Conyza canadensis (buva ou voadeira);
  • Digitaria insularis (capim-amargoso);
  • Conyza sumatrensis (buva ou voadeira);
  • Chloris elata (capim-branco);
  • Amaranthus palmeri (caruru palmeri);
  • Eleusine indica (capim-pé-de-galinha).
Espécie Ano Cultura Local Herbicida
Lolium perenne ssp. multiflorum 2003 soja e pomares  Rio Grande do Sul glyphosate
Conyza bonariensis 2005 milho, frutíferas, soja e trigo Rio Grande do Sul e São Paulo glyphosate
Conyza canadensis 2005 frutíferas, pomares e soja São Paulo glyphosate
Digitaria insularis 2008 milho e soja Paraná glyphosate
Lolium perenne ssp. multiflorum 2010 milho, soja e trigo Rio Grande do Sul Resistência múltipla: clethodim (ACCase) e glyphosate (EPSPs)
Conyza sumatrensis 2010 milho e soja Paraná glyphosate
Conyza sumatrensis 2011 soja e milho Paraná Resistência múltipla: chlorimuron (ALS) e glyphosate (EPSPs)
Chloris elata 2014 soja Brasil glyphosate
Amaranthus palmeri 2015 algodão Mato Grosso glyphosate
Eleusine indica 2016 milho, soja e trigo Paraná glyphosate
Amaranthus palmeri 2016 milho, algodão e soja Mato Grosso Resistência múltipla: chlorimuron, cloransulam, imazethapyr (ALS) e glyphosate (EPSPs)
Lolium perenne ssp. multiflorum 2017 milho, soja e trigo Roncador (PR) Resistência múltipla: glyphosate (EPSPs), iodosulfuron e pyroxsulam (ALS)
Conyza sumatrensis 2017 soja Assis Chateaubriand-PR Resistência múltipla: chlorimuron (ALS), glyphosate (EPSPs) e paraquat (FSI)
Eleusine indica 2017 feijão, milho, algodão e soja Mato Grosso Resistência múltipla: fenoxaprop, haloxyfop (ACCase) e glyphosate (EPSPs)
Conyza sumatrensis 2017 soja Assis Chateaubriand (PR) Resistência múltipla: 2,4-D (Auxinas Sintéticas), diuron (FSII), glyphosate (EPSPs), paraquat (FSI) e saflufenacil (PROTOX)

Fonte: weed science.

Vamos ver agora as culturas em que são registrados este mecanismo de ação.

A tabela abaixo foi feita com base no Guia de Herbicidas (2018), nela constam as culturas em que podem ser utilizados os herbicidas deste grupo.

Consulte o guia e a bula de cada produto para verificar o modo de aplicação para que você não tenha problemas com a seletividade dos herbicidas.

Lembre-se o glyphosate é um herbicida não-seletivo, ou seja, mata tanto a cultura como as plantas daninhas, sendo seletivo apenas para as culturas tolerantes a ele ou ainda, devido ao modo de aplicação (não atingindo à cultura).

Herbicida Culturas
glyphosate aceiros, algodão, algodão tolerante ao glyphosate, ameixa, áreas não agrícolas, arroz/arroz de sequeiro, arroz irrigado, aveia-preta, azevém, banana, cacau, café, cana-de-açúcar, eliminação de soqueira de cana-de-açúcar, maturador de cana-de-açúcar, cercas, citros, côco, dessecação de culturas, eliminação de arroz vermelho, eucalipto, feijão, ferrovias, fumo, maçã, mamão, manejo em plantio direto, milho, milho tolerante ao glyphosate, nectarina, oleodutos, pastagens, pêra, pêssego, pinus, plantio direto ou cultivo mínimo, redes de alta tensão, rodovias, seringueira, soja, soja tolerante ao glyphosate, trigo, uva. 

Conclusão

No texto de hoje entendemos mais sobre o mecanismo de ação do herbicidas Inibidores da EPSPs.

Vimos as principais características deste grupo, os casos de resistência, sintomas após a aplicação, como atuam dentro das plantas e em quais culturas podem ser utilizados. 

Gostou do texto? Tem mais dicas sobre os herbicidas Inibidores da ACCase? Adoraria ver o seu comentário abaixo!

Sobre a Autora: Ana Ligia Girardeli é Engenheira Agrônoma formada na UFSCar. Mestra em Agricultura e Ambiente (UFSCar) e Doutora em Fitotecnia (USP/ESALQ). Atualmente está cursando MBA em Agronegócios.

Referências utilizadas neste artigo:

Aspectos de resistência de plantas daninhas a herbicidas. Christoffoleti, P.J.; Nicolai, M. 4ed. Piracicaba: ESALQ, 2016.

Aspectos da biologia e manejo das plantas daninhas / organizado por Patrícia Andrea Monquero – São Carlos: RiMa Editora, 2014.

Biologia e manejo de plantas daninhas / editores: Rubem Silvério de Oliveira Jr., Jamil Constantin e Miriam Hiroko Inoue – Curitiba, PR: Omnipax, 2011.

Proteção de Plantas – Manejo de Plantas Daninhas. Silva, A.A.; Ferreira, E.A.; Pires, F.R.; Ferreira, F.A.; Santos, J.B.; Silva, J. Ferreira.; Silva, J. Francisco.; Vargas, L; Ferreira, L.R.; Vivian, R.; Júnior, R.S.O.; Procópio, S, 2010.

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