Impacto do uso de fungicida protetor sobre a evolução da ferrugem da soja baseado em diferentes critérios para a primeira aplicação

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O objetivo do trabalho foi de avaliar o impacto do uso de fungicida protetor sobre a evolução da ferrugem da soja baseando-se em diferentes critérios para a primeira aplicação.

Autores: KOTZ, J.E.S.1; BRIDI, L.1; ADAMS, G.A.1; LEUBET, R.A.1; LUDWIG, J.1; MACHADO, C.M.1; BASTOS, P.F.B.1; CORREIA, G.S1. 1Universidade Federal da Fronteira Sul, Rua Jacob Reinaldo Haupenthal, 1580, CEP 97900-000, Cerro Largo-RS, josiasema1@hotmail.com.

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.
Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Introdução

A ferrugem asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, figura entre as doenças mais destrutivas da cultura da soja, podendo ocasionar a queda prematura das folhas (GODOY et al., 2015a). As urédias, após esporuladas, liberam uma grande quantidade de esporos que são disseminados pelo vento, dando origem ao ciclo secundário da doença.

Para o controle da ferrugem asiática da soja é fundamental a adoção do manejo integrado de doenças que, consiste em utilizar várias estratégias de controle, visando diminuir ou erradicar a ocorrência da doença e seus sucessivos danos à cultura (HENNING et al., 2009). Dentre essas, destaca-se o uso de fungicidas, considerada a medida mais eficiente e a mais utilizada pelos produtores. No entanto, a recomendação do controle químico deve ser feito de forma racional de modo a reduzir os danos da doença e manter a viabilidade econômica da produção.

Por outro lado, a eficiência dos fungicidas vem diminuindo devido à resistência do fungo aos produtos comumente utilizados, fazendo-se necessário a adição de protetores como estratégia para potencializar os resultados do controle químico (REIS; REIS, 2015). Diante disso, o objetivo do trabalho foi de avaliar o impacto do uso de fungicida protetor sobre a evolução da ferrugem da soja baseando-se em diferentes critérios para a primeira aplicação.

Material e Métodos

O trabalho foi realizado na safra 2015/16, na área experimental da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Cerro Largo – RS. O preparo da área deu-se através da aplicação do herbicida glifosato 480 g L-1 (Gliz 480®), na dose de 2,5 L p.c. ha-1, conforme recomendação do fabricante. A cultivar de soja utilizada foi a BMX PONTA (7166) IPRO®. Utilizou-se o delineamento experimental de blocos ao acaso (DBC), com quatro repetições.

O experimento foi implantado e conduzido em sistema de semeadura direta, sendo que as parcelas foram constituídas por cinco linhas de semeadura por cinco metros de comprimento e espaçamento de 0,5 m. Considerou-se como área útil as três linhas centrais, descartando-se ainda 0,5 m de cada extremidade, totalizando 6 m². A adubação foi realizada na linha, utilizando uma semeadora adubadora, na dose de 250 kg ha-1 (28% de Super Fosfato Triplo e 72% de Cloreto de Potássio).

Para cada tratamento foram realizadas três aplicações de fungicidas, com intervalo de 15 dias entre as pulverizações. Utilizou-se como critério para início da aplicação o aparecimento dos primeiros sintomas (precocemente) ou a entrada das plantas no estádio fenológico R1 (tardiamente). Para cada um desses dois critérios, usou-se como estratégia a utilização ou não do protetor associado ao fungicida na primeira e segunda ou sem adição do protetor. Sendo assim, os tratamentos foram: T1: primeira aplicação no aparecimento dos primeiros sintomas adicionando fungicida protetor; T2: primeira aplicação no aparecimento dos primeiros sintomas sem protetor; T3: primeira aplicação em R1 adicionando fungicida protetor; T4: primeira aplicação em R1 sem protetor. Para todos os tratamentos na terceira aplicação não houve a associação do protetor ao fungicida. Na primeira, o controle da ferrugem foi realizado pela mistura azoxistrobina + ciproconazol (Priori Xtra®), na dose de 60 g + 24 g i.a. ha-1 e na segunda e terceira aplicações foi utilizada a mistura azoxistrobina + benzovindiflupir (Elatus®), na dose de 90 g + 45 g i.a. ha-1. Naqueles tratamentos onde houve a adição do fungicida protetor, o produto utilizado foi o mancozebe (Unizeb Gold®), na dose de 1500 g i.a. ha-1. Para todas as aplicações houve a adição de adjuvante Nimbus, na dose de 0,6 L ha-1, conforme recomendação do fabricante.

A estimativa da severidade da ferrugem asiática foi realizada com o auxílio da escala diagramática proposta por GODOY et al. (2006), no período compreendido entre os estádios fenológicos R1 e R5.1, em intervalos de 5 dias, por meio de coleta e avaliação, em laboratório, de 30 folíolos, igualmente distribuídos entre os terços inferior, médio e superior das plantas, em pontos aleatórios no interior da área útil de cada parcela (MELO et al, 2015). As notas de severidade foram utilizadas para o cálculo da Área Abaixo da Curva de Progresso da Doença (AACPD) e submetidas a análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Skott-Knott a 5% de probabilidade de erro, com auxílio do programa estatístico Assistat.

Resultados e Discussão

O T4 (aplicação tardia sem protetor) foi o pior tratamento dentre aquelas avaliações realizadas nos terços inferior e médio. A adição de protetor à calda (T3) proporcionou a diminuição significativa da AACPD nessas mesmas avaliações (Figura 1A e 1B). Resultados obtidos com a adição de protetor a calda de fungicidas a base da mistura de dois fungicidas sistêmicos, já demonstrou resultados satisfatórios. Em experimento realizado, foi demonstrado que a combinação de fungicidas com mecanismos de ação sítio específico quando associados a fungicidas multissítio, resultou em menores severidades da ferrugem asiática da soja, maior eficiência de controle e maior rendimento da cultura (GODOY et al, 2015b). No entanto, no presente trabalho, as aplicações quando realizadas precocemente (T1 e T2), a adição de protetor não proporcionou diminuição significativa da AACPD nos terços inferior e médio (Figura 1A e 1B).

Resultados semelhantes aos obtidos nas avaliações realizadas nos terços inferior e médio, em relação a diminuição significativa da AACPD com a adição de fungicida protetor à calda em alguns tratamentos, também foram observados nas avaliações realizadas no terço superior (Figura 1C). Desta forma, nesta parte da planta, independente de quando foi realizada a primeira aplicação, a adição de protetor sempre se mostrou mais eficiente em relação a não utilização. A utilização de fungicidas com mecanismo de ação sítio específico associado a um fungicida multissítio, possui como principal vantagem a diminuição do risco de adaptação do fungo e consequente resistência (ZAMBOLIM et al., 2007).

Figura 1 - Josias_AACPD

Figura 1 – AACPD da doença nos terços inferior (A), médio (B) e superior (C), em plantas submetidas a diferentes tratamentos e avaliações realizadas durante os estágios R1 e R5.1. T1: primeira aplicação no aparecimento dos primeiros sintomas adicionando fungicida protetor; T2: primeira aplicação no aparecimento dos primeiros sintomas sem protetor; T3: primeira aplicação em R1 adicionando fungicida protetor; T4: primeira aplicação em R1 sem protetor.

Conclusão

A adição de fungicida protetor multissítio melhora à eficiência do fungicida com mecanismo de ação sítio específico. No entanto, quando realizada muito precocemente ele não oferece proteção durante o período crítico da cultura em algumas partes da planta.

Referências

GODOY, C.V.; KOGA, L.J.; CANTERI, M.G. Diagrammatic scale for assessment of soybean rust severity. Fitopatologia Brasileira, v.31, p.063-068, 2006.

GODOY, V.C.; UTIAMADA, C.M.; MEYER, M.C.; CAMPOS, H.D.; FORCELINI, C.A.; PIMENTA, C.B.; NETO, D.C.; JACCOUND FILHO, D.S.; BORGES, E.P.; ANDRADE JUNIOR, E.R.; SIQUERI, F.V.; JULIATTI, F.C.; NUNES JUNIOR, J.; SILVA, L.H.C.P.; SATO, L.N.; MADALOSSO, M.; MARTINS, M.C.; BALARDIN, R.S.; FURLAN, S.H.; CARLIN, V.J.; VENÂNCIO, W.S. Eficiência de fungicidas multissítios e fertilizantes no controle da ferrugem asiática da soja, Phakopsora pachyrhizi, na safra 2014/15: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos. Londrina: Embrapa Soja, 2015b. 7p. Circular Técnica, 113.

GODOY, V.C.; UTIAMADA, C.M.; MEYER, M.C.; CAMPOS, H.D.; FORCELINI, C.A.; PIMENTA, C.B.; NETO, D.C.; JACCOUND FILHO, D.S.; BORGES, E.P.; ANDRADE JUNIOR, E.R.; SIQUERI, F.V.; JULIATTI, F.C.; FEKSA, H.R.; GRIGOLLI, J.F.J.; NUNES JUNIOR, J.; CARNEIRO, L.C.; SILVA, L.H.C.P.; SATO, L.N.; CANTERI, M.G.;­­ MADALOSSO, M.; GOUSSAIN, M.; MARTINS, M.C.; BALARDIN, R.S.; FURLAN, S.H.; MONTECELLI, T.D.N.; CARLIN, V.J.; VENÂNCIO, W.S. Eficiência de fungicidas para o controle da ferrugem asiática da soja, Phakopsora pachyrhizi, na safra 2014/15: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos. Embrapa Soja: Londrina, PR, Junho, 2015a. (Circular Técnica. Embrapa Soja, 111)

HENNING, A.A.; ALMEIDA, A.M.R.; GODOY, C.V.; SEIXAS, C.D.S.; YORINORI, J.T.; COSTAMILAN, L.M.; FERREIRA, L.P.; MEYER, M.C.; SOARES, R.M.; DIAS, W.P. Manual de identificação de doenças de soja. Londrina: Embrapa Soja, 2009. 3.ed. 74p. (Documentos. Embrapa Soja, 256).

MELO C.L.P.; ROESE A.D.; GOULART A.C.P. Tolerância de genótipos de soja à ferrugem-asiática. Ciência Rural, v.45, p.1353-1360, 2015.

REIS, E. M.; REIS, A. C. Mancozebe. Passo Fundo: Berthier, 2015. 80p.

ZAMBOLIM, L.; VENÂNCIO, W.S.; OLIVEIRA, H.F. Manejo de Resistência de Fungos a Fungicidas. Viçosa, MG: UFV, DEP, 2007. 168p.

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