O objetivo do presente estudo foi avaliar a infestação de mosca-branca em cultivares de soja no município de Paragominas, Estado do Pará.

Autores: Anderson G. Silva1; Beatriz M. Lima1; Bruno A. Santos1; Tamires O. Lima1; Kevin S. Baia1; Cenneya L. Martins1; Jamil C. El-Husny2

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização e inserção de informações dos autores

INTRODUÇÃO

Dentre os principais problemas com pragas na região do polo Paragominas de grãos, a mosca-branca Bemisia tabaci biótipo B (Genn., 1889) (Hemiptera: Aleyrodidae), destaca-se como praga de difícil controle e que apresenta estimativas de até 40% de perdas na produção da cultura (R. Suekane et al, 2013). Esta ocasiona danos diretos devido a sua alimentação diretamente no floema, debilitando a planta pela sucção de nutrientes além de injetar toxinas, ocasionando problemas fisiológicos na soja, além dos danos indiretos que ocorrem por meio da excreção açucarada “honeydew” ou “mela”. Essa excreção serve como substrato para o crescimento de fungos saprófitas, do gênero Capnodium (fumagina), sobre folhas, flores e frutos, impedindo as trocas gasosas, como respiração e fotossíntese, diminuindo a produção. Também dificulta a ação de defensivos agrícolas e, consequentemente, acarreta maiores custos de produção à cultura (LIMA, 2001).

HOROWITZ & ISHAAYA (1995) relatam que, em muitos casos, o tratamento com inseticidas convencionais não é eficiente devido, principalmente, ao fato dos estágios imaturos e dos adultos localizarem-se na face inferior das folhas e pelo rápido desenvolvimento de resistência.

Desta forma, estudos de resistência de plantas são importantes (LARA, 1991) e podem ser associados a outros métodos de controle dentro do Manejo Integrado de Pragas (MIP) para a cultura da soja. O uso de plantas resistentes pode ser considerado método ideal de controle de pragas agrícolas, já que reduz suas populações abaixo do nível de dano econômico, não promove desequilíbrio ao agroecossistema, não onera o produtor, além de serem compatíveis em geral, aos demais métodos de controle (LARA, 1991), características desejáveis quando se pensa em MIP.

Para a área em questão, Polo Paragominas de grãos, poucos são os estudos relacionados aos cultivares utilizados na região e se os mesmos apresentam algum fator de resistência a B. tabaci. Até então, o conhecimento é empírico, baseado em observações de técnicos e agricultores. Lacuna essa, que o presente Projeto de Pesquisa busca amenizar.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido na área pertencente ao NAPT (Núcleo de Apoio e Transferência de Tecnologia) da Embrapa Amazônia Oriental de Paragominas em parceria com a Universidade Federal Rural da Amazônia/UFRA, Campus Paragominas – PA, entre os períodos de 23/01/2017 (plantio) a 10/04/2017 (última avaliação).

O clima da região é do tipo Aw, segundo a classificação de Köppen, isto é, tropical chuvoso com estação seca bem definida, com temperatura média anual de 26,5ºC. A precipitação pluviométrica média anual é de 1.800 mm com duas estações, uma chuvosa que vai de dezembro a maio e outra menos chuvosa de junho a novembro. A umidade relativa do ar varia de 70% a 90%. O relevo predominante da região varia de plano à suave ondulado, com altitude média em torno de 200 m e predomínio de vegetação secundária (capoeira) (RODRIGUES et al., 2002).

Figura 1: Localização da área que será desenvolvido o Projeto de Pesquisa.

Levantamento populacional de Bemisia tabaci: As avaliações em campo foram realizadas semanalmente, utilizando: Avaliação dos adultos a campo, em dez folíolos por parcela e contagem de ovos e ninfas de B. tabaci em laboratório ( dez folíolos por parcela) (Figura 2).

Figura 2. Área experimental e avaliação usando a técnica da folha virada de Bemisia tabaci:

No preparo da área adotou-se o sistema convencional, realizando duas gradagens. Para isso, fez-se o uso de uma grade aradora e uma niveladora, incorporando o calcário dolomítico na dosagem de 2000 kg.ha-1.

Na área do experimento foi aplicado a adubação de acordo com o recomendado para a cultura da soja, utilizando 100 kg de P2O5 e 60 kg de K2O, e será utilizado, quando necessário, controle de lagartas e também para percevejos, não sendo utilizado qualquer controle para B. tabaci no período de avaliação.

A semeadura foi realizada de forma mecanizada, utilizando densidade de plantio de 180 a 280 mil sementes/hectare, seguindo o posicionamento de cada empresa responsável pela comercialização das sementes de cada cultivar. Adotando-se espaçamento de 0,50 m na entre linha (EMBRAPA, 2011).

As cultivares utilizadas (tratamentos) no presente estudo foram selecionadas dentre as mais cultivadas na região (Tabela 1), com tecnologia Bt (transgênicos) e convencionais (dispostos em esquema de blocos casualizados (DBC) com quatro repetições). Todas já plantadas na região. Foi acrescentado no experimento cultivares em estudos por órgãos de pesquisas como a Embrapa.

Tabela 1: Cultivares de soja avaliadas no projeto.

Cada parcela foi constituída de quatro linhas de seis metros de comprimento, sendo as duas centrais consideradas como área útil, totalizando 10 m2 de área e 5 m2 de área útil, tendo-se como área total do experimento 800 m2.

As amostragens de incidência de B. tabaci tiveram início aos sete dias após a emergência das plantas DAE, registrando-se semanalmente o número de ovos, ninfas e adultos de B. tabaci, sendo dez folíolos por parte da planta avaliada, ambos por parcela, em todo o ciclo da soja. Esses folíolos (um por planta) foram retirados em duas linhas centrais da área útil.

O registro do número de ovos e ninfas de B. tabaci foi realizado em laboratório, com o auxílio de microscópio estereoscópico. O registro dos adultos foram realizados no próprio local de avaliação, em dez plantas ao acaso por parcela, avaliando-se as partes superiores e inferiores da planta, por inspeção visual, utilizando-se a técnica da folha virada, que consiste em segurar a folha, pelo pecíolo virando-a lentamente, com cuidado, para não afugentar os insetos (BARBOSA et al. 2002).

Os dados coletados referentes ao número médio de ovos, ninfas e adultos de B. tabaci foram transformados em (x + 0,5)1/2, para normalização dos mesmos e submetidos à análise de variância (ANOVA) caso necessário, posteriormente submetidos a uma análise de variância através do teste F (Fisher) e as médias, quando diferirem significativamente, serão comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. Para as análises foi utilizado o programa estatístico computacional AgroEstat.

 RESULTADO E DISCUSSÃO

 As cultivares M 8644 RR, AS 89109 apresentaram menor número médio de ovos de mosca branca B. tabaci biótipo B 0.40, 0.41 respectivamente (Tabela 1). Obteve comportamento semelhante quando avaliado o número médio de ninfas, onde as cultivares AS 89109 (2,10), P98Y12 RR (2,31), P98Y51 RR (2,43), M8644 RR (2,49), TMG 1288 RR (2,53), BRS PÉROLA (2,66), P98Y52 RR (2,87), BRS 9090 RR (3,02) e BRS SAMBAIA (3,20) apresentaram médias inferiores às demais cultivares de soja utilizadas neste trabalho. Segundo Jesus et al. (2011) isso pode ser explicado pelo fato da mosca branca ser seletiva na escolha do local para oviposição, sendo atraída pelas plantas de acordo com a sua tonalidade da cor amarela, e a aceitação do hospedeiro é determinada pelo picada e prova. Caso o inseto pousar em um hospedeiro adequado permanecerá nele, para futura alimentação e oviposição. Por outro lado, se o hospedeiro não for adequado, o inseto deixará a planta (RODRIGUES et al, 2012).

Para a infestação de adultos de mosca branca, destaca-se a cultivar BRS PÉROLA com a menor presença de B. tabaci. Por outro lado, as demais cultivares apresentaram maior infestação de adultos de mosca branca, não diferindo significativamente entre si (Tabela 2).

Para avaliação da infestação da praga, levando-se em consideração o período de avaliação, houve diferença significativa para todos os estágios de desenvolvimento da mosca branca.

Tabela 2: Número médio de ovos, ninfas e adultos de Bemisia tabaci biótipo B em dez folíolos, obtidos em vinte cultivares de soja, em onze amostragens. Paragominas-PA, 2017.

As infestações de ovos aos 7, 14, 21 e 35 DAE foram às épocas de maior incidência da praga, apresentando infestações médias de 1.57, 1.33, 1.39 e 1.40 ovos em dez folíolos

observados respectivamente, diferindo significativamente das avaliações aos 28, 42, 49, 56, 63, 70 e 77 DAE, períodos em que apresentaram serem mais desfavoráveis ao desenvolvimento da praga com médias de 0.60, 0.91, 0.39, 0.50, 0.15, 0.09, e 0,054 ovos em dez folíolos observados respectivamente na área experimental (Tabela 1). Isso pode ser explicado devido à preferencia da B. tabaci em relação às plantas mais novas e a sua alta capacidade de voou percorrendo longas distâncias (EMBRAPA, 2009), já que, o experimento foi implantando na época de safra da região, assim, houve migração das lavouras nas proximidades para a área do experimento, facilitando a rápida infestação da praga.


Confira nossa galeria de cursos TOTALMENTE ONLINE! Agregue conhecimento, faça já!


 Para infestação de ninfas, as avaliações aos 28, 35, 49, e 56 DAE mostraram-se com maior número de insetos, com infestações de 7.69, 6.77, 7.50 e 6.59 ninfas em dez folíolos avaliados respectivamente. Isso está relacionado com o curto ciclo da praga, uma vez que, a infestação inicial não foi controlada, a taxa de ninfas e adultos tende a subir rapidamente. As fêmeas de bemisia tabaci apresentam capacidade de postura de 100 a 300 ovos durante todo o seu ciclo, podendo durar de 19 a 73 dias de acordo com as condições climáticas (RODRIGUES et al, 2012).

O pico populacional para adultos de mosca branca ocorreu aos 70 DAE na área experimental com infestação de 2.31 adultos em dez folíolos avaliados. Aos 7 e 49 DAE apresentou-se com menor infestação de adultos com 0.46 e 0.21 adultos de B. tabaci biótipo B em dez folíolos avaliados respectivamente (Tabela 1).

CONCLUSÕES      

As cultivares M 8644 RR e AS 89109 apresentaram menor número médio de ovos de mosca branca B. tabaci.

AS 89109, P98Y52RR, P98Y12RR, TMG1288RR, BRS Pérola e BRS9090RR foram as menos infestadas por ninfas e para a infestação de adultos, destaca-se a cultivar BRS PÉROLA com a menor infestação de mosca branca.

As infestações de ovos aos 7, 14, 21 e 35 DAE foram às épocas de maior incidência da praga, para ninfas os picos s e deram aos 28, 35, 49 e 56 DAE.

O pico populacional para adultos de mosca branca ocorreu aos 70 DAE na área experimental.

Não houve necessidade da adoção de medida de controle na área experimental.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 EMBRAPA. Manejo Integrado da Mosca-Branca (Bemisia tabaci biótipo B) em Sistema de Produção Integrada de Tomate Indústria (PITI). Circular técnica. Brasília, DF Novembro, 2009.

HOROWITZ, A. R.; ISHAAYA, I. Chemical control of Bemisia – management and application. In: GERLING, D. & RICHARD, T. MAYER (Eds.) Bemisia: Taxonomy, biology, damage, control and management. Intercept, p. 537 – 556. 1995.

JESUS, F. G. et al. Fatores que afetam a oviposição de Bemisia tabaci (Genn.) Biótipo b (Hemiptera: Aleyrodidae) em feijoeiro. Biosci. J., Uberlândia, v. 27, n. 2, p. 190-195, Mar./Apr. 2011.

LARA, F.M. Princípios de resistência de plantas a insetos. 2. ed. São Paulo: Ícone, 1991. 336p.

LIMA, A.C.S. Resistência de genótipos de soja [Glycine Max (L.) Merrill] à mosca branca, Bemisia tabaci (Gennadius, 1889) biótipo B (Hemiptera: Aleyrodidae). 2001. 56 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Jaboticabal, 2001.

N.E.L. Rodrigues et al. Antibiose e não preferência para oviposição de bemisia tabaci (Genn.) Biótipo b (Hemiptera: Aleyrodidae) por  Cultivares de vigna unguiculata (l.) Walp.  Arq. Inst. Biol., São Paulo, v.79, n.1, p.25-31, jan./mar., 2012.

SUEKANE et al. Danos da mosca-branca bemisia tabaci (Genn.) e distribuição vertical das ninfas em cultivares de soja em casa de vegetação Arq. Inst. Biol., são paulo, v.80, n.2, p.151-158, abr./jun., 2013.

Informações dos autores   

1Campus de Paragominas, Universidade Federal Rural da Amazônia, GEMIP UFRA, 68625-970 Paragominas-PA, Brasil,

2NAPT Embrapa Amazônia Oriental, 68627-451 Paragominas-PA, Brasil

Disponível em: Anais do XXVII Congresso Brasileiro de Entomologia,  2018. Gramado, RS.

Nenhum comentário

Deixar um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.