A definição do momento de aplicação e da estratégia de controle de lagartas na cultura da soja, assim como das demais pragas, está atrelada à relação custo/benefício da medida adotada. Do ponto de vista do produtor, a tomada de decisão deve levar em conta quatro fatores: 1) custo do controle (inseticida + aplicação); 2) valor da saca de soja e expectativa de produção; 3) potencial de dano das lagartas presentes na lavoura e 4) eficiência de controle do inseticida escolhido. Estes são os fatores que compõem a equação do Nível de Dano Econômico, determinando quando e como controlar os insetos-praga.

Figura 1. Nível de dano econômico das pragas.

O valor do NDE (expresso em lagartas/m2) indica o limite máximo de lagartas que o produtor pode tolerar em sua lavoura. Assim, de posse dessas variáveis, é possível calcular para cada situação o momento em que se deve fazer o controle, de acordo com o preço do inseticida adquirido e o valor da saca de soja vendida. Na prática, o controle deve ser efetuado antes que a densidade de lagartas atinja o número expresso no NDE. Esse momento é denominado Nível de Controle (NC), sendo a regra prática e operacional que efetivamente determina a aplicação do inseticida.

Figura 2. Nível de dano, nível de controle e posição de equilíbrio de uma população de insetos.

Fonte: Embrapa. Imagem original clicando aqui.

A maior parte dos valores de NDE e NC para as lagartas da soja (e outras pragas) foram calculados nos anos 80 e 90, quando a produção média de soja no Brasil era de 1.500 kg/ha. Nos últimos anos, essa produção cresceu consideravelmente, atingindo médias superiores a 6.000 kg/ha. Além disso, verificou-se um aumento vertiginoso no valor de mercado da soja, atingindo patamares acima de R$ 150,00/saca.

Ao serem incorporados no cálculo do NDE, esses valores acabam empurrando para baixo o nível de ação para controle de pragas na cultura da soja: ou seja, tolera-se menos presença de pragas, visto que o alto valor de comercialização do produto compensa financeiramente as aplicações de inseticidas, mesmo sob baixa população infestante. Essa lógica funciona não apenas para lagartas, mas também para as demais pragas da soja; entretanto, deve-se atentar para a manutenção dos preceitos do MIP e evitar aplicações excessivas, que podem trazer efeitos colaterais negativos, ainda que economicamente viáveis.

Outro ponto importante são as modificações observadas nas características morfológicas e fisiológicas das plantas de soja. As cultivares utilizadas atualmente apresentam um Índice de Área Foliar (IAF) médio de cerca de 5,0, muito menor do que a cultivares utilizadas nos anos 80 e 90, que atingiam um IAF de 6,0 a 7,0. Isso significa que as plantas de soja estão produzindo menos folhas, com a vantagem de possuírem maior eficiência energética, e a desvantagem de serem mais sensíveis ao desfolhamento.

Figura 3. Folíolos de plantas de soja com diferentes porcentagens de desfolha causada pela alimentação de insetos-praga.

Fonte: Grigolli (2015), baseado em Panizzi et al. (1977).

Atualmente, aceita-se que as lagartas das espécies Chrysodeixis includens (falsa-medideira), Anticarsia gemmatalis (lagarta-da-soja) e Spodoptera spp. apresentam níveis de controle diferentes dos que são recomendados para a lagarta H. armigera, pois um dos fatores do cálculo do NDE é o potencial de dano da praga, que é muito maior para H. armigera (uma vez que pode atacar diretamente os grãos). Considerando, por exemplo, um custo de controle de R$ 120,00 por hectare e valor da saca de soja de R$ 100,00, o nível de controle para H. armigera é 0,81 lagartas/m², assumindo uma eficiência de controle de 90% com o inseticida utilizado.

Figura 3. Nível de dano econômico (lagartas/m2) de acordo com o valor da saca da soja e custo de controle por hectare, considerando 90% de eficiência de controle.

Fonte: adaptado de Stacke et al., 2018. Imagem original clicando aqui

Portanto, o nível de tolerância que o produtor pode ter para com a presença de H. armigera em sua lavoura é muito baixo, dada a capacidade desse inseto de causar danos severos à cultura da soja. Ademais, percebe-se que o valor atual da saca da soja é ainda maior do que o valor máximo utilizado no cálculo por ocasião, tornando as  aplicações economicamente viáveis. Entretanto, esse cenário não deve se traduzir em uso indiscriminado de inseticidas químicos, o que pode acarretar na seleção de populações resistentes da praga.

Por fim, ressalta-se que a amostragem de pragas é fundamental para a tomada de decisão de controle dentro do sistema produtivo. A partir do conhecimento das espécies presentes na lavoura, e sua respectiva quantificação, torna-se possível selecionar inseticidas em dosagens efetivas, obtendo-se maior eficiência de controle e menor risco de perdas de produção. Para saber mais sobre o monitoramento de lagartas da soja, clique aqui;

Revisão: Prof. Jonas Arnemann, PhD. e coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM

REFERÊNCIAS:

BUENO, A.F.; BATISTELA, M.J.; MORCARDI, F. Níveis de desfolha tolerados na cultura da soja sem a ocorrência de prejuízos à produtividade. Londrina: Embrapa-CNPSo, 2010. 12p. (Circular Técnica, 79)

GRIGOLLI, J. F. J. Pragas da soja e seu controle. Tecnologia e Produção: Soja 2014/2015. Disponível em: https://www.fundacaoms.org.br/base/www/fundacaoms.org.br/media/attachments/214/214/newarchive-214.pdf

GUEDES, J. V. C.  et al. Lagartas da soja: das lições do passado ao manejo do futuro. Revista Plantio Direto, v. 144, p. 6–18, 2015.

PANIZZI, A.R et al. Insetos da soja no Brasil. Londrina: EMBRAPA-CNPSo, 1977. 20p. (EMBRAPA-CNPSo. Boletim Técnico, 1).

STACKE, R.F. et al. Damage assessment of Helicoverpa armigera (Lepidoptera: Noctuidae) in soybean reproductive stages. Crop Protection, v. 112, p. 10-17, 2018.

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