Artigo originalmente publicado na Revista Cultivar 

Lembro como se fosse hoje, mas lá se foram mais de 50 anos. Estava no primeiro ano do curso de Agronomia da UFRGS, sedento por aprender, capturava tudo o que os mestres falavam. E um dos primeiros ensinamentos dos doutos para os jovens agrônomos era um dogma da Agronomia: a rotação de cultivos, nunca plantar a mesma cultura, no mesmo local, em sequência. E a justificativa era óbvia: o prolongamento do tempo de permanência do cultivo no campo agravava os problemas fitossanitários, com o aumento da população de pragas ou de seu inóculo.

E os amados mestres salientavam haver três corolários associados a esse dogma: não se trata apenas de não cultivar a mesma espécie, exatamente na mesma área onde havia sido cultivada no ciclo imediatamente anterior, devia ser evitado o cultivo nas regiões próximas e circunvizinhas. O segundo corolário: espécies hospedeiras das mesmas pragas também não devem ser cultivadas em sucessão, afinal elas pertencem à mesma cadeia alimentar das pragas, significando aumento da sua pressão no campo. Além da temática fitossanitária, há também a questão de impacto nos solos, tanto na sua estrutura física quanto química ou biológica, que sempre se beneficia da alternância de cultivos.

E o terceiro corolário: pragas importantes não podem depender exclusivamente de uma medida de controle, é necessário um conjunto delas para que sejam manejadas com sucesso. Evitar a presença de uma mesma espécie, em uma determinada microrregião, por longo período dentro do ano agrícola, é uma das medidas fitossanitárias mais importantes.

A ferrugem da soja

Há menos de 20 anos a ferrugem asiática da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, ingressou no Brasil, redundando em profundas alterações nos sistemas e no custo de produção de soja. O ataque do fungo resulta em danos apreciáveis, podendo redundar em perda total da lavoura de soja. O fungo somente sobrevive de uma safra para outra em plantas vivas de soja, mantendo o inóculo que inicia a epidemia na safra seguinte.

Para manter a ferrugem asiática sob controle, evitando perda de produção para os agricultores, três fundamentos são essenciais: as medidas legislativas, a resistência genética da soja e o controle químico. Nenhuma delas, isoladamente, garante o sucesso da empreitada, as três devem coexistir ao mesmo tempo. Duas são as medidas legislativas: o vazio sanitário e a calendarização da semeadura. Vazio sanitário significa que, durante determinado período do ano, plantas vivas de soja não devem estar presentes em áreas de lavoura ou fora delas, destarte deprimindo o ciclo biológico do patógeno. A medida abrange 13 estados e o Distrito Federal, iniciando em 10 de junho, com duração variável em função do estado.

A calendarização da semeadura impõe que esta ocorra do final do vazio sanitário até uma data limite, após o que é proibida por lei. Essas duas medidas fitossanitárias nada mais são que o tal dogma agronômico explicitado acima, ou seja, é secular e pacífica a necessidade de evitar cultivos consecutivos da mesma espécie, dentro de determinada circunscrição geográfica.



Controle da ferrugem

A efetividade da resistência genética da soja derivada do emprego dos genes Rpp no manejo da ferrugem-asiática não é estável nem duradoura, por não conferir imunidade à planta, como ocorre com outras doenças, como a mancha olho-de-rã, a pústula bacteriana e o cancro-da-haste. Representa uma importante medida de controle, mas que depende da rotação de cultivares com diferentes genes Rpp e do uso de fungicidas para reduzir as populações que suplantam o efeito dos genes Rpp.

Finalmente, há o recurso ao uso de fungicidas. Que são caros. E que vem perdendo eficiência a cada ano, fruto da seleção de indivíduos do fungo resistentes aos fungicidas, cuja frequência tem aumentado nas lavouras. Essa perda de eficiência tem duas consequências. A primeira é o aumento do número de aplicações, com consequente maior custo de produção. A segunda é que, aumentando a pressão de seleção, com maior uso de fungicidas, acelera-se o processo de desenvolvimento da resistência do fungo aos fungicidas. O Consórcio Anti-Ferrugem estima o custo de controle em US$2,8 bilhões anuais, em média US$80 por hectare, valor equivalente a 4-5 sacos de soja. Este valor pode crescer ainda mais no curto prazo, com o avanço da perda de eficiência de fungicidas.

Como não existe nenhum novo ingrediente ativo à vista, para ingresso no mercado nos próximos anos, que seja altamente eficiente no controle da ferrugem asiática, corremos o risco de, no limite, inviabilizarmos a produção de soja no Brasil. Portanto, aumentar ao máximo a vida útil dos fungicidas atualmente em uso é uma inexorabilidade indiscutível.

Usamos o exemplo da ferrugem, porém o que foi exposto acima pode ser extrapolado para outras pragas, como mosca branca, percevejos ou nematoides que atacam soja. Ou seja, se falharem as medidas legislativas (vazio sanitário e calendarização de semeadura), agravam-se sobremaneira os problemas fitossanitários da soja, com impacto sobre outras culturas associadas a ela, no sistema de produção.



Competitividade da soja

A soja representa 24% do Valor Bruto da Produção Agrícola (VBP) e US$31 bilhões de exportação anual. As cadeias de carnes de frango e suínos, além do leite, representam 26%, e agregam mais US$10 bilhões em exportações. Os dois segmentos significam 50% do VPB agrícola e 40% das exportações do agronegócio. Nos próximos 20 anos, não se vislumbra qualquer segmento da economia nacional que possa ocupar o protagonismo desempenhado pelo agronegócio, responsável por grande parte da renda, dos empregos e das divisas, além de ser grande gerador de impostos e taxas. A soja é a locomotiva do agronegócio brasileiro, sem ela as cadeias pecuárias perdem competitividade. As cadeias de milho e algodão também tem seu destino entrelaçado à soja, por dividirem custos fixos e infraestrutura de armazenagem, transporte, energia, comunicação, assistência técnica, etc., além da demanda associada, ou seja, diminuindo a demanda de soja decresce proporcionalmente a demanda de milho.

Assim, se a soja perder competitividade, por aumento de custos de controle de pragas e por perdas de produção, o Brasil inteiro pagará o preço. Portanto, é dever de todo o brasileiro – em particular daqueles ligados ao agronegócio – pugnar para que a competitividade seja mantida. Em especial, devem lutar para o efetivo e integral cumprimento das medidas legislativas que representam uma barreira essencial para redução da intensidade do ataque de pragas na lavoura.

Passados 50 anos, a vida me ensinou mais um dogma: o bem estar coletivo é mais importante que atender demandas pontuais de poucos cidadãos. É esse o conceito em torno do qual devemos nos unir, para preservar a renda, o emprego, as divisas, enfim, o patrimônio dos brasileiros.

Fonte: Revista Cultivar

Texto originalmente publicado em:
Revista Cultivar
Autor: Décio Luiz Gazzoni

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