A associação micorrízica é uma simbiose mutualística entre fungos do solo e as raízes das plantas, com ocorrência em mais de 80% das plantas vasculares. O efeito benéfico desta associação para o crescimento das plantas é bem documentado, e atribuído, principalmente, à melhora da nutrição de fósforo. A colonização micorrízica é uma característica que pode ser afetada por inúmeros fatores como a espécie vegetal, a idade da planta, a densidade de raízes, dos propágulos de FMAs no solo, a eficiência de colonização de FMAs e o manejo do solo, mas pode conferir diversos benefícios as plantas, incluindo incremento de produtividade.


EMBRAPA

Tendo em vista as potencialidades da associação simbiótica e das eventuais aplicabilidades desta tecnologia biológica na agricultura, a Professora Zaida Inês Antoniolli da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) desenvolve a algum tempo pesquisas ligadas a Micorrizas, confira abaixo algumas respostas importantes de perguntas frequentes respondidas pela docente.


  • Quais os tipos me micorrizas existentes?

Os dois tipos de micorrizas mais  comuns são ecto  e endomicorrizas. As ectomicorrizas se desenvolvem mais na parte externa da raiz da planta hospedeira, enquanto que as endomicorrizas se formam mais no interior das raízes. As endomicorrizas, também chamada de micorrizas arbuscular  são mais amplamente distribuídas do que as ectomicorrizas, encontradas associadas as plantas vasculares, desde nativas e cultivadas.

  • Qual a aplicabilidade das micorrizas na produção de soja?

Como a formação da associação micorrízica depende de alguns fatores como variedades, pH do solo, condições climáticas, tipo de solo  e outros, normalmente a soja apresenta bons resultados quando micorrizada, contudo deve-se considerar o manejo de produção, as práticas agrícolas, o uso de insumos  a fim de favorecer o estabelecimento e funcionamento do sistema planta X solo X fungo micorrízico.  Há aplicabilidade principalmente em solos com baixa fertilidade, mas em solos com boa fertilidade e com grande potencial de fungos micorrízicos nativos muitas vezes o manejo adequado da cultura é suficiente para favorecer sua contribuição na produtividade.

  • Qual a dificuldade de difundir esta tecnologia?

A dificuldade de difusão desta tecnologia é a necessidade de mais estudos para as diferentes regiões do Brasil com produção de soja, a fim de ter-se uma um levantamento das reais condições do funcionamento da associação micorrízica natural e a necessidade de inoculação. Sabe-se que estes fungos são hospedeiros obrigatórios sendo oneroso obtermos inoculo com qualidade e grande quantidade, bem como manter a viabilidade do inoculo durante o armazenamento. Assim, ainda o manejo adequado e sustentável do sistema de cultivo da soja é recomendado. É importante salientar que a presença de fungos micorrizicos no solo pode ser um bioindicador da qualidade do solo.

  • Por que ainda não existe oferta de produtos para este fim no mercado?

Não existe oferta de produtos, pois são hospedeiros obrigatórios dificultando a produção do inoculo e a forma de armazenamento para manter a viabilidade do produto.

Também buscamos na literatura alguns resultados de pesquisas sobre micorrizas. Mas o que nos mostram as pesquisas efetuadas com essa temática?

A) Resultados de pesquisas feitas na UFG, mostram que o produto a base de estimulante formononetina (Myconate®) apresenta resultados importantes com relação as culturas estudadas, principalmente pelo fato dessas culturas serem amplamente cultivadas em diversas regiões. Os resultados deste estudo e de outros realizados na região com este estimulante, indica que as condições climáticas e de fertilidade do solo não impõe estresse a essas culturas e, por esse motivo não se encontra resultados mais promissores. No entanto, os resultados mostram que somente pelo fato da não adubação de manutenção para as culturas com P no segundo ano de estudo para as culturas de soja e milho foi possível obter maior rendimento de produção de grãos com aplicação do produto estimulante a base de formononetina.


B) Trabalho resultado da parceria entre a UFLA e a Embrapa buscou avaliar o efeito de três espécies de fungos micorrízicos no crescimento, nos teores de nutrientes, e na produção de grãos do sorgo e soja em consorcio, num solo de cerrado com diferentes doses de P.

Abaixo alguns gráficos sobre massa seca de parte aérea e peso dos grãos secos de sorgo e soja:


Os resultados obtidos evidenciam que:

  • O aumento na produção de matéria seca e de grãos do sorgo e da soja consorciados depende das doses de fósforo adicionadas ao solo e da espécie de fungo micorrízico.
  • Glomus etunicatum foi a espécie micorrízica mais eficiente em relação a ambas as espécies vegetais na produção de matéria seca e na produção de grãos.
  • A inoculação, no sorgo e na soja, de fungos micorrízicos, aumenta as concentrações foliares de N, P, K, Zn e Cu.

C) Outro trabalho feito na UFG objetivou verificar a eficácia de um produto estimulante (isoflavonóides formononetina) de micorrização na cultura da soja associada a eficiência do uso de fertilizante fosfatado, resultados demonstrados na Tabela 1.


Os autores concluíram com a realização deste trabalho que:

  • O isoflavonóide formononetina não teve efeito nas características agronômicas avaliadas no primeiro ano de estudo;
  • O número de vagens/planta não difere com a aplicação de 50% ou 100% da dose de fósforo recomendada.

D) A Revista Liberatto publicou um trabalho da UFT e a UFF que compila alguns resultados sobre fungos micorrízicos:

  • As inoculações com Fungos Micorrízicos Arbusculares (FMAs) ou com FMAs + rizóbio proporcionaram maior teor e conteúdo de P e maior eficiência de utilização desse elemento (RODRIGUES; MARTINS; SALOMÃO, 2003).
  • O aumento da riqueza de espécies de fungos micorrízicos arbusculares favorece a produção mais equilibrada de biomassa entre as espécies de planta, beneficiando aquelas espécies mais dependentes de fungos micorrízicos arbusculares que influenciam de modo positivo o acúmulo de nutrientes (SANTOS, 2008).
  • O conteúdo de fósforo foliar aumenta com a colonização micorrízica. Esses resultados mostram que o benefício líquido da simbiose micorrízica, na qual todos os fungos de cada comunidade estão presumidamente colonizando as raízes, será positivo em pelo menos um ou ambos desses parâmetros (STURMER, 2004).

Como maximizar as interações entre plantas e micorrizas?

Como mencionado, uma das alternativas é a introdução via inoculação/aplicação de micorrizas ou promovendo no ambiente condições favoráveis para que tenhamos uma maior interação naturalmente. A escolha da espécie de vegetal de cobertura a ser utilizada é importante, pois estas podem promover alterações quantitativas e qualitativas na população de fungos micorrízicos arbusculares nativos, pois a associação micorrízica é favorecida pela existência de exsudatos radiculares que contém moléculas que estimulam a germinação de esporos e o crescimento de fungos micorrízicos. Ajudando segundo dados bibliográficos no desenvolvimento de plantas de milho, milheto, feijão, mucuna entre outras.

Leia também: Inoculante inédito, à base de fungo micorrízico, é lançado no Brasil

Elaboração: Daniela Moro – Equipe Mais Soja

Contribuição Bibliográfica: Professora Zaida Inês Antoniolli – Biologia do Solo –  zantoniolli@gmail.com

Foto de capa: Kandhasamy Nagaraj et al. Disponível no artigo: Mycorrhizal and septate endophytic fungal associations in gymnosperms of southern India, que pode ser acessado clicando aqui.

 

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