Mofo Branco (Sclerotinia sclerotiorum) em soja: uma doença com importância crescente

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FOTO: Aluízio Gomes Coelho

A partir do final dos anos 60, a produção de soja teve um crescimento extraordinário, alterando sua importância relativa no cenário nacional e internacional. Hoje, a soja é a mais importante oleaginosa cultivada no mundo, e está entre os principais produtos agrícolas que participam da economia brasileira. Porém, as doenças são um dos mais relevantes fatores que limitam os altos rendimentos, a lucratividade, e são responsáveis pelas grandes variações da produtividade de uma safra para outra (YORINORI, 1997).

Dentre as principais doenças, o mofo-branco apresenta grande importância em função de sua severidade e perdas provocadas, causado pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum por ser extremamente polífago, capaz de atacar mais de 75 famílias, 278 gêneros e 408 espécies, entre eles, destacam-se soja, girassol, canola, ervilha, feijão, alfafa, fumo, tomate e batata (DEMANT, 2010).

Leia também: Eficiência de fungicidas para controle de mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) em soja, na safra 2015/2016: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos

Algumas plantas daninhas também foram relatadas como hospedeiras do patógeno por Homechin (1982), como amendoim bravo (Euphorbia heterophyla), caruru (Amaranthus deflexus), corda de viola (Ipomoea nil), erva quente (Borreira alata), fazendeiro (Galinsoga parviflora), guanxuma (Sida rhombifolia), picão preto (Bidens pilosa) maria mole (Senecio brasiliensis) (MELZER; SMITH; BOLAND, 1997).

O fungo Sclerotinia sclerotiorum foi descrito pela primeira vez por Bary em 1884 (PURDY, 1979), contudo, o primeiro registro de ocorrência deste patógeno no Brasil foi feito em 1921, na cultura da batata (Solanum tuberosum), no estado de São Paulo (CHAVES, 1964).  É considerado um dos patógenos fúngicos mais importantes no mundo e está distribuído em todas as regiões produtoras, sejam elas temperadas, subtropicais ou tropicais (LEITE, 2005a).

A disseminação ocorre principalmente pela semente, sendo de difícil erradicação após introduzido na área de cultivo (YANG et  al., 1998). Assim, a detecção preventiva nas sementes constitui-se uma das medidas mais econômicas e importantes para se evitar a introdução da doença em novos locais e a sua disseminação em lavouras comerciais (GOMES et al., 2008).

Dessa forma, o mofo-branco tem se caracterizado como uma doença de grande importância econômica no Brasil, não só pelos danos que causa ás culturas hospedeiras, como a soja, cujas perdas são estimadas em 30% ou mais, como também pela atuação subsequente em cultivos futuros desta e de outras espécies de interesse econômico. Cardoso (1994) relatou que, no Brasil, principalmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás já foram observadas perdas de até 50% no rendimento de várias culturas, sem considerar a provável diminuição da qualidade do produto colhido.

No cerrado, os primeiros relatos de mofo-branco em soja foram feitos há 20 anos, ocorrendo desde então de forma endêmica (MACHADO & CASSETARI NETO, 2010). Em Goiás, o mofo branco aumentou consideravelmente, afetando em torno de 45% da área cultivada na safra 2008/2009, cerca de 1 milhão de hectares (CAMPOS e SILVA 2009). Sua disseminação se dá principalmente por sementes infectadas, pois o patógeno sobrevive no solo por tempo indefinido por meio de estruturas de resistência (escleródios), cuja população aumenta a cada plantio de espécie hospedeira (EMBRAPA, 2008).

ETIOLOGIA, EPIDEMIOLOGIA E SINTOMATOLOGIA

O fungo produz estruturas de resistência denominadas escleródios, dentro e na superfície dos tecidos colonizados, que retornam ao solo com os resíduos da cultura e são responsáveis pela sobrevivência do fungo. Os escleródios podem permanecer no solo por até 11 anos, conservando intacto seu poder patogênico. As sementes são importantes veículos de disseminação de S. sclerotiorum, através de escleródios misturados a elas ou de micélio existente nos tecidos internos (LEITE, 2005a).

Em condições favoráveis e na presença de um hospedeiro suscetível, o escleródio germina e pode produzir micélio, que penetra diretamente nos tecidos da base da planta, ou forma apotécios, que emergem na superfície do solo e liberam os ascosporos. Em condições de alta umidade relativa, acima de 70%, e temperatura ao redor de 20ºC, os apotécios liberam ascósporos durante várias semanas, que são responsáveis pela infecção da parte aérea das plantas. O fungo invade os tecidos e provoca o seu apodrecimento. O micélio desenvolve-se sobre um substrato formado por tecidos mortos ou senescentes. A temperatura ótima para o desenvolvimento do micélio situa-se entre 18ºC e 25ºC (LEITE, 2005a).

Leite, (2005a), salienta que a ocorrência de epidemias de mofo branco na cultura da soja se dá em virtude da favorabilidade climática que ocorreu durante a safra, ou seja, excesso de precipitação aliado a temperaturas amenas (abaixo de 20ºC).

Os sintomas e sinais externos, mas visíveis na planta são a presença de lesões encharcadas nos órgãos afetados, de coloração parda e consistência mole, com micélio branco, de aspecto cotonoso, cobrindo porções dos tecidos (LEITE, 2005b). Para a cultura da soja, a fase mais vulnerável à infecção vai da floração plena (R2) ao início da formação de vagens (R3/R4) (DANIELSON et al., 2004).

Em condições de alta umidade, o fungo pode colonizar os tecidos sadios entre 16 e 24 horas após a infecção do tecido floral senescente. Em tempo seco, o progresso da doença pode ser retardado ou paralisado, mas é retomado quando as condições de alta umidade retornam. O micélio pode permanecer viável em flores infectadas por até 144 horas em condições desfavoráveis e retoma o desenvolvimento quando há condições favoráveis (HARIKRISHNAN & DEL RÍO, 2006).

CONTROLE DO MOFO-BRANCO

Segundo Junior (2010), o controle do mofo-branco é dificultado devido à permanência de escleródios viáveis por um longo tempo no solo, aliado ao fato de que os ascosporos que produzem a infecção aérea podem ser provenientes de escleródios existentes a longas distâncias, à falta de controle químico eficaz e à alta suscetibilidade dos hospedeiros cultivados. Assim, o controle mais efetivo baseia-se num programa integrado de medidas, que incluem diversas práticas culturais.

Oliveira (2005) recomenda que a primeira pulverização na cultura da soja seja feita preventivamente, na abertura das primeiras flores, ou quando as condições forem favoráveis à doença e surgirem os primeiros apotécios. Além disso, a qualidade de aplicação do produto químico a ser utilizado é tão importante quanto à época de aplicação, pois precisa alcançar as partes inferiores da planta e a superfície do solo, além de proteger as flores.

O controle químico por meio de fungicidas tem sido o mais eficaz, em função da rapidez de evolução da doença, promove condições adequadas à planta e favorece a retenção e absorção dos produtos. Os fungicidas selecionados, seja de ação de contato ou sistêmica, devem ser posicionados no alvo no momento correto e de forma adequada, para se obter um controle econômico e racional da doença. O controle do mofo branco requer muita atenção do produtor. Sua eficiência depende sobretudo da época de aplicação (OLIVEIRA, 2005).

Oliveira et al., (2011) avaliando aplicações de Fluazinam e Tiofanato Metilico sobre a incidência de mofo branco  na cultura da soja, concluiu que o Fluazinam conseguiu deter por mais tempo o avanço da incidência e severidade da doença, proporcionando  assim  um ganho médio em produtividade em relação aos demais tratamentos.

Outra alternativa, é o uso de sementes tratadas para inibir o desenvolvimento do patógeno e evitar sua disseminação e transmissão. Mueller, Hartman e Petersen (1999) constataram também que, por meio do tratamento de sementes com fungicidas houve uma redução de 98% da formação de escleródios a partir de sementes de soja infectadas, durante dois anos de estudo.

Outro método que tem sido utilizado também para o controle de S. sclerotiorum é o emprego de organismos antagonistas (BETTIOL, 1991; MELO; AZEVEDO, 1998). O uso desse microrganismos antagonistas baseia-se, principalmente no controle dos escleródios presentes no solo, por meio de degradação e da interferência na germinação carpogênica de S. sclerotiorum (FIGUEIREDO et al., 2010; JONES et al., 2004).

Segundo Lima, Marco e Felix (2000), a premissa básica do controle biológico é a de manter e densidade populacional das espécies de pragas, associadas à agricultura em níveis econômicos e ecologicamente aceitáveis. Entretanto, apenas a substituição de um produto químico por um biológico não é o bastante para garantir o desenvolvimento de sistemas de cultivo mais sustentáveis, havendo, no entanto a vantagem de tomar o controle de doenças, menos dependente do uso de agrotóxico.

O uso de rotação de culturas e de palhadas densas de braquiária tem-se apresentado como uma das ferramentas no controle dessa doença (GORGEN et al., 2009). A influência da rotação de cultura sobre a produção de apotécios de S. sclerotiorum na cultura da soja, foi estudada por Gracia-Garza et al., (2002) estes autores verificaram que houve uma redução de 47 a 80% na produção do número de apotécios formados, diminuindo, assim o inoculo primário, quando se adotou esta prática de manejo.

Autor: Maurício Stefanelo – Pesquisador Ceres Consultoria Agronômica.

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