Estiagens de verão são fenômenos recorrentes no Sul do Brasil. Impactos negativos na agricultura, na prestação de serviços de abastecimento urbano de água para a população e, de resto, em toda a economia regional, podem ser diagnosticados, com maior ou menor vulto, conforme a magnitude e a duração de cada evento de estiagem.

Nos últimos 50 anos (1970-2020), podemos considerar que pelo menos 14 estiagens assolaram a agricultura do Rio Grande do Sul. Foram elas e as respectivas safras: 1977/78; 1978/79; 1981/82; 1985/86; 1987/88; 1990/91; 1995/96; 1996/97; 1998/99; 1999/00; 2003/04; 2004/05; 2011/12; e a atual 2019/20.

Em cada uma dessas, as particularidades dos eventos, que possuem características próprias, as assimetrias da ocorrência de chuvas entre locais e as diferenças do padrão de tecnologia de produção entre empreendimentos agrícolas, no mesmo local, definiram a magnitude dos impactos e, vislumbra-se, também definirão na safra atual.

O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), em nota técnica climatológica, analisa as condições meteorológicas ocorridas, na região Sul do Brasil, entre novembro de 2019 e fevereiro de 2020. Destaca-se que, no período, o padrão de circulação da atmosfera (predominantemente anticiclônica nos altos e médios níveis) não favoreceu a formação de nuvens capazes de gerar chuvas e que foram poucas as frentes frias que passaram sobre a região.

Assim, além de terem sido baixos os valores acumulados de chuva, os eventos de precipitação também apresentaram distribuição irregular no tempo e no espaço. O déficit hídrico, ainda que generalizado, foi menor na porção oeste do que na parte leste da região. Contribuíram para isso, uma área de baixa pressão posicionada sobre o nordeste da Argentina e do Paraguai, gerando aporte de umidade e áreas de instabilidade, que ocasionaram pancadas de chuva isoladas, e o desenvolvimento de Sistemas Convectivos de Mesoescala (SCMs), que produziram chuvas intensas, porém isoladas e passageiras.

Acrescente-se ainda, nesse verão,  a atuação, com mais intensidade e persistência, da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que contribuiu para que o escoamento de umidade permanecesse  confinado nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do País, baixando, no período, o índice de umidade na Região Sul.



Some-se, ainda, que, no período, o fenômeno El Niño – Oscilação Sul (ENOS), estando na sua fase neutra,  não atuou ou exerceu influência no regime de chuvas no Sudeste da América do Sul. Nesses anos, a influência do Atlântico Sul assume protagonismo maior. E, assim se deu, em novembro de 2019, com o registro de Anomalias de Temperatura da Superfície do Mar (ATSM), no Oceano Atlântico Subtropical, no litoral uruguaio e gaúcho, com sinais positivos, que favoreceram a ocorrência de chuvas, especialmente na primeira metade do mês.

A partir da segunda que quinzena de novembro de 2019, as chuvas escassearam e o registro das precipitações ocorridas ficou abaixo do padrão climatológico regional até o final do ano. Paralelamente, diminuíram as ATSM positivas no Oceano Atlântico Subtropical, atingindo uma condição de quase neutralidade no mês de dezembro de 2019. Em janeiro de 2020, as chuvas, com exceção da metade Sul do Rio Grande do Sul, ficaram acima do padrão climatológico normal.

Por sua vez, em fevereiro de 2020, o resfriamento do Oceano Atlântico Subtropical, junto à costa da Região Sul,  com registro de ATSM negativas, pode ter contribuído para o aumento da deficiência hídrica em grande parte do Estado. Assim, restou configurada, pela análise do INMET, que, efetivamente, a condição climática ocorrida, na safra de verão 2019/20, determinou, especialmente por deficiência hídrica, perdas de rendimento nos cultivos de verão, em graus variáveis, ainda que a sua ocorrência tenha sido generalizada, dependendo de especificidades locais e da coincidência com os períodos críticos dos cultivos afetados.

No tocante ao levantamento de perdas na agricultura gaúcha, o Informativo Conjuntural da Emater/RS (n.º 1598, de 19 de março de 2020), destaca que há perdas e prejuízos contabilizados em todas as regiões do Estado (com pedido de perícias de Proagro e Seguro Rural).

No caso da soja, nosso cultivo de verão mais importante economicamente, a exemplo do acontecido em eventos passados de estiagens, as perdas são variáveis e com tendência de acentuação diante da persistência da falta de chuvas. A Emater/RS, dependendo da região, diagnosticou lavouras de soja com rendimento de grãos acima de 4.000 kg/ha e outras abaixo de 1.000 kg/ha.

O padrão das lavouras, com plantas apresentando retenção de folhas secas e hastes verdes, queda de vagens, grãos de tamanho reduzido, enrugados e com tegumento esverdeado, antecipação de maturação e morte de plantas, são indicativos dos efeitos de estresses hídricos e térmicos que vem assolando a agricultura gaúcha na safra de verão 2019/20.

Nessa oleaginosa, as perdas ainda não foram contabilizadas integralmente, havendo a necessidade de cautela com o manuseio de números preliminares, que no final podem se mostrar melhores ou até mesmo piores do que os até então tem sido apontados. O mais recente levantamento da RTC (Rede Técnica Cooperativa, coordenada pela CCGL), de 15 de março de 2020, indica uma perda média de 46,6% na produção de soja, abarcando uma área de três milhões de hectares, onde atuam 21 das principais cooperativas agrícolas do RS.

Os reflexos da atual estiagem também foram e são perceptíveis em outros cultivos, com perdas de produtividade e produção em fumo, milho, feijão, forrageiras (com impactos na produção leiteira e de carne ), em fruteiras (a exemplo da uva, na Serra Gaúcha e Campanha), etc.

O impacto dos estresses hídricos e térmicos, como os ocorridos na safra 2019/20, na produtividade dos cultivos, vai depender da sincronia dos acontecimentos com os períodos críticos ao longo do ciclo de desenvolvimento das plantas e suas respostas fisiológicas. Admite-se que, pela análise climatológica, na estação de crescimento da safra de verão 2019/20, no Rio Grande do Sul, houve pelo menos dois períodos, marcados por restrições hídricas e temperaturas elevadas, com potencialidade de impactar negativamente o desempenho produtivo dos cultivos.

Depois de um inverno e começo de primavera relativamente secos, as chuvas de outubro de 2019 restabeleceram os níveis de umidade nos solos. Todavia, entre novembro e dezembro de 2019, as chuvas ficaram abaixo do padrão climatológico regional, acentuando, paralelamente à elevação da densidade de fluxo de radiação solar e da temperatura do ar, o problema de déficit hídrico para as plantas.

Em janeiro de 2020, houve o retorno de chuvas regulares, que atenuaram os impactos dos meses anteriores, porém, a partir de fevereiro de 2020 os eventos de precipitação ficaram escassos e os problemas climáticos na agricultura gaúcha começaram a se evidenciar. Resume-se, então, que, na atual safra, os principais problemas climáticos, foram decorrentes do acontecido entre novembro e dezembro de 2019 e após fevereiro de 2020.

No caso do rebaixamento do nível de armazenamento da água disponível no solo para os cultivos, a partir de novembro e com a sua acentuação na segunda metade de dezembro de 2019, infere-se a possibilidade de danos no milho, que, dependendo de quando foi semeado, o período dos 10 dias mais críticos para esse cereal ao redor do pendoamento-espigamento (3 dias antes do pendoamento até 7 depois) tenha coincidido especialmente no mês de dezembro de 2019.

Também, no caso da soja, para cultivares de grupos de maturidade relativa baixo, semeadas no final de setembro ou começo de outubro, problemas de deficiência hídrica na fase critica de enchimento de grãos (pós-floração em dezembro) pode ter causado comprometimento no rendimento das lavouras. Além de que, em soja, o estabelecimento das lavoras semeadas no final de novembro e começo de dezembro foi dificultado, pelos baixos níveis de umidade no solo, reduzindo o crescimento das plantas e o fechamento do dossel nas lavouras.

Na sequência, a restrição hídrica a partir de fevereiro e que se estendeu durante o mês de março de 2020, baixando acentuadamente o nível de água disponível para as plantas no solo, indubitavelmente, afetou o potencial de rendimento e a produtividade da maioria das lavouras de soja no Estado, cuja floração e enchimento de grãos acontecem nesse período do ano. Além de que, especialmente a partir de março, acentuou-se o comprometimento da produção e da qualidade dos pastos que são a base da alimentação dos rebanhos da pecuária leiteira e de corte.

Frise-se que, duas peculiaridades climáticas, verificadas nos dois períodos mencionados (novembro a dezembro de 2019 e após fevereiro de 2020), foram determinantes nos impactos sobre a produção agrícola do Estado na atual safra. São ela: rebaixamento do nível de água no solo para valores inferiores a 70% da Capacidade de Armazenamento de Água Disponível (CAD), quando, em tese, começa a perda de produtividade potencial das plantas cultivadas, que se acentua com a redução  desses valores. Isso aconteceu em dezembro de 2019 e a partir de fevereiro de 2020.

Também, nos períodos especificados, verificou-se, simultaneamente, a ocorrência de valores elevados de densidade de fluxo de radiação solar, com umidade relativa do ar baixa, e temperaturas elevadas (em muitos locais beirando os 40 ºC durante o dia e mantendo-se elevadas durante as noites), ampliando a demanda evaporativa da atmosfera, intensificando o rebaixamento da água no solo, e , ao mesmo tempo, ampliando as perdas de fotoassimilados pela respiração das plantas, especialmente no período noturno.

Por fim, cabe destacar que estiagens, durante o verão são fenômenos recorrentes no Sul do Brasil, tendo sido, com a atual, contabilizados 14 eventos nos últimos 50 anos (1970-2020). Assim, reputamos como fundamental, para mitigar perdas causadas por estiagens na agricultura gaúcha, a tomada das seguintes providências:

1 – Construir a capacidade de resiliência dos sistemas de produção agrícola suportar períodos de deficiência hídrica, melhorando a qualidade dos solos cultivados por meio da adoção de práticas de agricultura conservacionista, que envolve observar os preceitos básicos do Sistema Plantio Direto. Além do mero não revolvimento do solo, também adotar esquemas de rotação de culturas, elevar os níveis de matéria orgânica no solo, remover camadas de impedimento (físicas e químicas) para o aprofundamento das raízes e sistematizar as lavouras para impedir o escoamento superficial das águas das chuvas. Isso exige planejamento de médio e longo prazos; e

2 – Aderir, sempre, aos instrumentos de securidade rural, seja na modalidade de garantia oficial (Proagro) do Governo Federal ou de Seguro Rural privado, que geralmente conta com alguma subvenção governamental. Agricultura, indiscutivelmente, é uma atividade de risco e o produtor rural tem que considerar incluir o custo do seguro rural na sua lista de insumos de produção.

Passo Fundo, 25 de março de 2020.

Assinam essa nota: Gilberto R, Cunha, Genei Antonio Dlmago e Aldemir Pasinato, empregados da Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS.

Fonte: Embrapa trigo

Texto originalmente publicado em:
Embrapa
Autor: Embrapa trigo

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