O controle de lagartas da soja pode ser realizado de três formas: naturalmente (sem a intervenção do produtor), por meio de inseticidas químicos e também com inseticidas biológicos, que têm ganhado relevância no mercado. No caso do controle químico, há um grande número de moléculas e produtos comerciais disponíveis que controlam lagarta-da-soja, lagarta-helicoverpa e inclusive as lagartas-pretas, cuja importância decaiu nos últimos anos. Em contrapartida, a lagarta-falsa-medideira tem ampliado sua importância, dadas as dificuldades de controle dessa praga.  A introdução da soja Bt no Brasil trouxe uma nova ferramenta para o manejo de falsa-medideira, embora a durabilidade dessa tecnologia não esteja assegurada.

Os inseticidas registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para o controle de lagartas da soja apresentam diferentes recomendações de doses e eficiência de controle, de acordo com a espécie em questão. Assim, a escolha do inseticida a ser utilizado depende da amostragem de lagartas na área de cultivo e sua respectiva densidade populacional. O controle de falsa-medideira (Chrysodeixis includens) tem se provado o mais difícil, tendo em vista a tolerância da espécie às doses comumente utilizadas para outras lagartas (BERNARDI, 2012).

Figura 1. Modos de ação dos inseticidas com efeito sobre lagartas.

Fonte: IRAC. Disponível clicando aqui.

Dentre as ferramentas químicas disponíveis para o controle de lagartas, estão os inseticidas à base de diamidas, com ação neuromuscular sobre os insetos (moduladores dos receptores de rianodina). Recentemente, uma nova diamida (ciclaniliprole) foi registrada para comercialização no Brasil, além das já utilizadas (flubendiamida, clorantraniliprole e cinatraniliprole). Esses produtos são largamente empregados devido à sua alta eficiência, tendo deslocado os inseticidas reguladores de crescimento das aplicações iniciais em soja. Contudo, a ampla adoção das diamidas coincide com o aumento das populações de lagartas-falsa-medideira, podendo estar relacionada ao seu crescimento em importância.

Figura 2. Modo de ação das diamidas.

Fonte: Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM



As estratégias empregadas para o controle de lagartas da soja têm se modificado ao longo dos anos, com uso de diferentes grupos e doses de inseticidas, impactando na dinâmica das pragas. A alteração na proporção de espécies de lagartas que ocorrem em soja, por exemplo, pode estar associada às doses dos inseticidas normalmente utilizados para o controle de Anticarsia gemmatalis (lagarta-da-soja). Essas doses não controlavam efetivamente as lagartas-falsa-medideira, resultando numa pressão de seleção da espécie mais tolerante sobre a espécie mais suscetível.

Nos Estados Unidos, desde a década de 1990 já se conhece casos de resistência da lagarta-falsa-medideira aos inseticidas do grupo dos piretroides. Essa resistência pode estar ligada à capacidade do inseto de desintoxicar e excretar a molécula inseticida antes mesmo da ativação no sítio de ligação, por meio de várias enzimas, como glutationa transferases, mono-oxigenases e hidrolases, (DOWD; SPARKS, 1988). Por outro lado, o controle biológico vem retomando seu espaço no mercado, tanto com toxinas Bt (sejam elas formuladas ou inseridas em plantas geneticamente modificadas) quanto por meio de baculovírus.

A introdução da soja transgênica para o controle de lepidópteros-praga, com expressão da proteína Cry1Ac, gerou mudanças profundas no manejo de lagartas em soja. As toxinas Bt possuem baixa especificidade dentro da ordem Lepidoptera, controlando grande parte das lagartas; entretanto, as espécies-praga apresentam variados níveis de suscetibilidade a cada proteína Bt, devido à diferença entre receptores no intestino dos insetos para as diversas proteínas Cry, Cyt e Vip (BRAVO et al., 2007). De forma geral, a eficiência de controle das toxinas Bt é maior para A. gemmatalis e C. includens e menor para Spodoptera sp. (BERNARDI et al., 2012), motivo pelo qual as espécies desse complexo têm aumentado sua relevância na cultura da soja.

Já o uso de baculovírus apresenta maior especificidade, controlando apenas uma espécie-praga, ou algumas espécies do mesmo gênero. Um exemplo é o baculovírus Helicoverpa zea nucleopolyhedrovirus (HzNPV), que possui alta toxicidade para larvas de H. zea e H. armigera. Nesse sentido, o manejo biológico de H. armigera em soja, combinando baculovírus e tecnologias derivadas de B. thuringiensis (Bt), alia eficiência de controle com seletividade e segurança aos organismos não-alvo. Ademais, o controle biológico natural também apresenta certo potencial de controle, mesmo sob um regime intenso de controle químico, sendo responsável por uma parcela da supressão populacional de lagartas em lavouras de soja.

Figura 3. Ciclo de infecção viral dos baculovírus.

Fonte: Adaptado de Barros et al., 2012.

Portanto, o futuro do manejo de lagartas em soja dependerá de uma associação das diferentes estratégias de controle disponíveis no mercado, incluindo os recentes lançamentos de inseticidas químicos e biológicos, além de plantas geneticamente modificadas à base de Bt. Assim, será possível manter as populações de lagartas em níveis que não comprometam a produção de soja no Brasil, de forma economicamente eficiente e ambientalmente sustentável.

Revisão: Prof. Jonas Arnemann, PhD. e coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM



REFERÊNCIAS:

BERNARDI, O., MALVESTITI, G.S.,DOURADO, P.M., et al. Assessment of the high-dose concept and level of control provided by MON 87701 x MON 89788 soybean against Anticarsia gemmatalis and Pseudoplusia includens (Lepidoptera: Noctuidae) in Brazil. Pest Management Science, v.68, p.1083-1091, 2012.

BRAVO, A., GILL, S.S., SOBERON, M. Mode of action of Bacillus thuringiensis Cry and Cyt toxins and their potential for insect control. Toxicon. v. 49, p. 423-435, 2007.

DOWD, P. F., SPARKS, T. C. Characterization of a trans-permethrin hydrolyzing enzyme from the midgut of the soybean looper, Pseudoplusia includens. Pesticide Biochemical Physiology, v. 25, p. 73-81, 1986.

GUEDES, J. V. C.  et al. Lagartas da soja: das lições do passado ao manejo do futuro. Revista Plantio Direto, v. 144, p. 6–18, 2015.

Nenhum comentário

Deixar um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.