Qual sua origem e desde quando ocorre no Brasil?

A mosca-da-haste da soja, Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae), é uma praga invasiva na América Latina, ou seja, não é nativa desse continente. No passado, ocorria apenas em áreas que cultivam leguminosas na Ásia (Malásia, Indonésia, Vietnã, Java, Japão, etc.) e África (Egito, Arábia Saudita, etc.), sendo praga-chave nessas culturas naqueles locais [1].

Na América do Sul, larvas de moscas atacando talos de plantas de soja foram encontradas em lavouras de soja de Passo Fundo-RS em 1983 [2] e depois em São Francisco de Assis-RS [3]. Na época, pela carência de metodologias e taxonomistas específicos desse grupo, a identificação em nível de espécie não foi realizada, sendo apenas registrada em nível de gênero como Melanagromyza sp.. Apenas em 2015 a espécie foi registrada no Brasil como Melanagromyza sojae, associando taxonomia tradicional e a biologia molecular [4]. Atualmente, a mosca-da-haste da soja está presente também na Austrália (Oceania), Europa e na América do Sul no Brasil (nos estados do RS, SC, PR, GO, BA e MG) e no Paraguai [5].


Leia também: Mosca-da-haste: identificação, ocorrência e controle


Bioecologia em soja

A mosca-da-haste da soja passa pelos estágios de ovo, larva, pupa e adulto. A oviposição é endodérmica (Figura 1) dentro do tecido do folíolo de soja. Após a emergência, a larva “broqueia” o mesófilo em direção às nervuras da folha, penetrando na haste da planta a partir do pecíolo. Ao alimentar-se das células do parênquima, a alimentação da larva gera túneis na haste, tanto acima quanto abaixo do ponto de entrada; e é no interior desses túneis que a larva passa pela fase de pupa, após abrir um buraco no caule para a posterior saída do adulto (ver Figura 2). O ciclo biológico compreende 2-7 dias de duração dos ovos, 7-12 dias da fase larval, 7-12 dias de pupa, 7-16 dias de adultos fêmeas, e 5-14 dias para adultos machos [6]. A longevidade do adulto gira em torno de 19 dias, e as fêmeas colocam em média até 170 ovos. A mosca-da-haste apresenta de quatro a cinco gerações por ano, e as pupas são capazes de passar o inverno no interior da haste [7]. As ocorrências são mais comuns em cultivos tardios de soja, próximos ao outono (soja safrinha) [8].

Figura 1. Fêmea de M. sojae no momento da oviposição endodérmica. Créditos da foto: Lucas Vitorio.

Danos

Os danos ocasionados por M. sojae são causados pela larva, capaz de broquear (abrir galerias) no interior da haste da planta de soja, afetando seu crescimento e levando a uma redução na produtividade de grãos [9]. As larvas formam galerias desde a base do colmo ou mesmo abaixo dela, até o primeiro ou segundo nós. Podem ocorrer também no topo da planta, próximo ao terceiro e quarto nós ou até acima. As infestações tendem a ocorrer no final do período vegetativo e em toda a fase reprodutiva, mas sempre restritas à haste. Apenas os furos deixados pelos adultos são visíveis, sendo produzidos pelas larvas ao final de seu período de desenvolvimento (Figura 2).

Figura 2. Haste broqueada com coloração avermelhada, exibindo pupa e furo de saída do adulto. Créditos da foto: Lucas Vitorio.

As galerias criadas podem se estender por até 70% do comprimento da haste da planta [10], resultando em uma redução de até 36% na produtividade final, havendo condições favoráveis à praga [11]. Dados a respeito da quantificação do dano causado pela mosca-da-haste em soja costumam variar muito de acordo com a região em questão: de 2% de redução de produtividade na Indonésia [12], a 21% em Taiwan [9], 20-30% na China [13], 33-40% na Índia [8], e até 50% na Tailândia [14]. Tais variações estão relacionadas à região de ocorrência da praga, estado nutricional das plantas hospedeiras, cultivar de soja utilizada, data de semeadura e medidas de controle adotadas[15].



Monitoramento do adulto, larva e ocorrência da praga

É praticamente impossível determinar a presença de Melanagromyza sojae através da visualização de danos externos em plantas de soja, pois estes são de difícil detecção durante o início da infestação. O encurtamento de entrenós e emissão de ramos laterais é um indicativo da presença de larvas no interior da haste (ver Figura 3).

O monitoramento da ocorrência desta praga deve ser realizado pela da inspeção de plantas de soja coletadas aleatoriamente na lavoura, verificando se há a presença de galerias nas hastes principal e secundárias e/ou pupas do inseto. Para isto, deve-se realizar um corte longitudinal na haste da planta com o auxílio de um canivete, expondo os tecidos internos da mesma. Assim é possível contabilizar o número de plantas atacadas, pupas, exúvias e orifícios de saída dos adultos. Também é importante verificar a presença de mosca-da-haste em plantas de soja espontâneas isoladas dentro ou no entorno da lavoura, estradas ou próximo a armazéns.

Figura 3. Planta de soja com encurtamento de entrenós e emissão de ramos laterais devido ao ataque da mosca-da-haste da soja. Créditos da foto: Lucas Vitorio

Como manejar em soja

Em países onde a mosca-da-haste possui maior importância econômica na cultura da soja, as medidas de controle baseiam-se em métodos culturais, como a utilização de cultivares resistentes e semeadura fora dos picos populacionais da praga.

O controle químico também é uma opção para o controle dos adultos de M. sojae. É recomendada a utilização dos inseticidas clorantraniliprole, imidacloprido + bifentrina, fipronil e imidacloprido no tratamento de sementes, combinados com pulverizações foliares de clorpirifós, tiametoxam + lambda-cialotrina, tiodicarbe, bifentrina e imidacloprido + beta-ciflutrina no início do ciclo da cultura, pois desta forma as plantas de soja estarão protegidas durante os estádios mais vulneráveis ao ataque da mosca-da-haste [16].

Elaboração:

– Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Henrique Pozebon, Leonardo Patias, Júlia Bevilaqua e Rafael Paz Marques, do Molecular Insect Lab-UFSM.

Referências utilizadas

  1. DEMPEWOLF M (2004) Arthropods of economic importance: Agromyzidae of the World.ETI- Information Services. (unpaginated).
  2. GASSEN, D. K.; SCHNEIDER, S. Ocorrência de Melanagromyzasp. (Dip. Agromizidae) danificando soja no sul do Brasil. In: REUNIÃO DE PESQUISA DA SOJA DA REGIÃO SUL, 13., 1985, Porto AlegreSoja: resultados de pesquisa 1984-85. Passo Fundo: Embrapa-CNPT, 1985. p. 108-109.
  3. LINK, D. et al. Mosca da haste da soja: ocorrência e danos. In: REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA DA REGIÃO SUL, 37., 2009, Porto Alegre. Programa e resumos. Porto Alegre: UFRGS, 2009. p. 135-137.
  4. ARNEMANN, J. A. et al. Complete mitochondrial genome of the soybean stem fly Melanagromyza sojae(Diptera: Agromyzidae). Mitochondrial DNA Part A – DNA Mapping, Sequencing, and Analysis, v. 27, n. 6, p. 4534-4535, 2016.
  5. GUEDES, J. V. C. et al. First record of soybean stem fly Melanagromyza sojae(Diptera: Agromyzidae) in Paraguay confirmed by molecular evidence.Genetics and Molecular Research, v. 16, n. 3, p. gmr16039707, 2017.
  6. WANG, C. L. Occurrence and life-history of Melanagromyza sojae on soybean. Journal of Agricultural Research of China, v. 28, p. 217-223, 1979.
  7. ZIAEE, M. Oilseed Pests, Oilseeds.2012. Disponível em: http://www.intechopen.com/books/oilseeds/oilseed-pests. Acesso em: 12/06/2018.
  8. JADHAV, S. Bio-ecology and management of stem fly, Melanagromyza sojae (Zehntner) (Agromyzidae: Diptera) in soybean ecosystem. Doctoral dissertation, UAS, Dharwad.
  9. TALEKAR, N. S. Characteristics of Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae) damage in soybean. Journal of Economic Entomolgy, v. 82, p. 584-588, 1989.
  10. SINGH, O. P.; SINGH, K. J. Seasonal incidence and damage of Melanagromyza sojae (Zehnt.) on soybean. Indian Journal of Plant Protection, v. 18, p. 271-275, 1990.
  11. GUEDES, J.V.C.; CURIOLETTI, L.E.; BECHE, M.; ARNEMANN, J.A. Mosca-da-haste da soja no Brasil. Cultivar Grandes Culturas, outubro, p. 28-30, 2015.
  12. VAN DEN BERG, H.; ANKASAH, D.; HASSAN, K.; MUHAMMAD, A.; WIDAYANTO, Ha.; WIRASTO, Hb.; YULLY, I. Soybean stem fly, Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae), on Sumatra: Seasonal incidence and the role of parasitism.International Journal of Pest Management, v. 41, p. 127-133, 1995
  13. DU, J. R.; HONG, L. M. An initial report of an experiment on controlling the agromyzid fly (Melanagromyza sojae) of soybean with carbofuran and the loss of yield caused by the pest. Journal of Nanjing Agricultural University, v. 5, p. 56-61, 1982.
  14. SUWANPORNSAKUL, R; SATAYAVIRUT, T; TUNTIYUT, W; ARAYANGKUL, T; PITAKSA, S. Yield loss assessment of soybean caused by bean fly, Melanagromyza sojae (Zehntner) and control. In: 6ª National Soybean Research Conference, Chiang Mai, Thailand, 1996.
  15. SAVAJJI, K. Biology and management of soybean stem fly Melanagromyza sojae (Zehntner) (Diptera: Agromyzidae). University of Agricultural Sciences, Master of Science thesis, 58 pp, 2006.
  16. CURIOLETTI, L.E.; ARNEMANN, J.A.; MURARO, D.S.; MELO, A.A.; PERINI, C.R.; CAVALIN, L.A.; GUEDES, J.V.C. First insights of soybean stem fly (SSF) Melanagromyza sojae control in South America.Australian Journal of Crop Science, v.12, p. 841-848, 2018.

 

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