Por que a ferrugem asiática é considerada a principal doença da soja?

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Existem várias doenças de importância econômica que ocorrem em soja, como as causadas por nematoides, as podridões de raiz, o mofo branco, o oídio e as doenças de final de ciclo (DFCs), mas a ferrugem ainda é a doença mais temida em função de sua agressividade e potencial destrutivo.

A definição do potencial produtivo da soja ocorre cedo, basicamente até o estádio R4 (legume desenvolvido). Após essa fase ocorre principalmente a manutenção do potencial produtivo, através do enchimento de grãos. Muitas doenças (como as de final de ciclo) podem ser transmitidas via semente (por isso a importância do tratamento de sementes) ou permanecer nos restos culturais de uma safra para outra (como é o caso das DFCs, mas não de oídio e de ferrugem). Portanto, o manejo tanto de DFCs, que irão aparecer mais ao final do ciclo, como de ferrugem e oídio, que podem aparecer já no vegetativo, deve ser iniciado cedo, permitindo que a planta expresse seu máximo potencial produtivo.

As doenças foliares atuam reduzindo a área fotossintética ativa, com isso, há menor produção de fotoassimilidados e consequentemente, efeitos deletérios para a produtividade. Para ferrugem, o potencial de perda na produtividade é de até 100%, se não realizada a aplicação de fungicidas. Nos ensaios conduzidos na CCGL Tecnologia na safra passada, em semeaduras que foram de outubro de 2015 a janeiro de 2016, obtivemos uma redução na produtividade que variou de 16 sacas até 46 sacas/ha, entre parcelas não tratadas com fungicida e parcelas com manejo adequado. Se considerarmos o valor da saca de soja de 60 kg de R$ 70,00, esses resultados corresponderiam a perdas de R$ 1.120,00 a R$ 3.320/ha, dependendo da época de semeadura e do manejo realizado (de quais produtos foram utilizados e se de forma preventiva ou curativa).

Como o cultivo da soja é realizado no Brasil e em outros países da América Latina, há uma espécie de “ponte verde” interligando todas as regiões produtoras e propiciando a disseminação de esporos. Somente no Brasil são cerca de 33 milhões de hectares cultivados com soja.  O vento é a principal forma de disseminação da ferrugem, podendo levar inóculo para lavouras próximas ou para longas distâncias. O fungo causador da ferrugem, Phakopsora pachyrhizi, sobrevive e se multiplica somente em plantas vivas. Por isso, a ocorrência de invernos amenos e chuvosos pode antecipar a ocorrência da doença nas lavouras de soja, em função da manutenção do inóculo mesmo nos meses mais frios.

O clima é um fator chave na ocorrência de qualquer doença. Para ferrugem, o molhamento foliar possui grande influência, tanto para permitir condições de germinação e penetração dos esporos, quanto para evolução dos sintomas e aumento da severidade. Porém, mesmo na ausência de chuvas frequentes, mas com temperaturas noturnas amenas e que favoreçam a ocorrência de orvalho, a doença pode se instalar. Em períodos mais secos o que pode acontecer é um atraso no surgimento da doença e esta evoluir de forma mais lenta, tornando a “explodir” no retorno das chuvas. Por esse motivo, em anos mais secos a doença aparece um pouco mais tarde e tem sua dispersão um pouco mais lenta do que em anos chuvosos.

Pensando no manejo de ferrugem, o ideal é que o controle seja feito de forma preventiva. Os sintomas iniciais da doença não são tão fáceis de serem identificados (Figura 1), porém, evoluem muito rápido, fazendo com que a doença seja bastante agressiva. O período que vai desde a deposição do esporo sobre a folha, até a formação da pústula (lesão), leva cerca de 6-10 dias. Cada pústula produz esporos por cerca de três semanas e cada esporo, desde que encontre condições adequadas, terá a capacidade de originar uma nova lesão. Assim, quando observamos a doença no campo, podemos deduzir que a chegada dos esporos ocorreu com pelo menos uma semana de antecedência.

Figura 1. Sintomas iniciais de ferrugem em folíolos de soja. Cruz Alta, RS, 2017. Fotos: Caroline Wesp Guterres.
Figura 1. Sintomas iniciais de ferrugem em folíolos de soja. Cruz Alta, RS, 2017. Fotos: Caroline Wesp Guterres.

Após a instalação da doença o controle por parte dos fungicidas acaba sendo prejudicado, já que não há produto com real efeito erradicante. As estrobilurinas e carboxamidas atuam basicamente de forma preventiva, na germinação dos esporos, enquanto que os triazóis e benzimidazóis atuam de forma curativa, após a penetração nos tecidos e no crescimento micelial. O controle feito de forma preventiva propicia melhor desempenho dos fungicidas, o que resulta em maior residual e consequentemente, melhor controle de ferrugem. Depois que a doença já está instalada, é importante a utilização de fungicidas que possuam o grupo dos triazóis nas misturas, justamente em função de seu efeito curativo. No entanto, vale lembrar que se o controle iniciar após a ocorrência de ferrugem, estaremos trabalhando somente sobre um dos componentes da epidemia, a taxa de progresso da doença. Porém, quando o controle é feito de forma preventiva, atuamos sobre a quantidade de inóculo inicial (reduzindo-a), atrasamos o início da epidemia e ainda, reduzimos a taxa de progresso da doença. O ideal é optar pelo manejo mais seguro, preventivo e realizar sempre o monitoramento da lavoura.

Para definir a estratégia de manejo de doenças o produtor deve levar em consideração diversos fatores, tais como: suscetibilidade da cultivar escolhida em relação à ocorrência de doenças, hábito de crescimento e índice de área foliar; se é realizada a rotação de culturas na propriedade (pensando principalmente nas doenças de raiz e manchas foliares), época de semeadura (plantios do tarde acabam sofrendo uma pressão maior de inóculo de ferrugem), condições climáticas no inverno anterior (já que invernos amenos permitem a sobrevivência de soja guaxa e consequentemente, a sobrevivência de ferrugem, como observamos na safra 2015/16), condições climáticas na safra de soja (mais chuva ou menos chuva serão determinantes de quão cedo a ferrugem irá se instalar e se haverá incidência elevada de outras doenças, como por exemplo, o oídio e as doenças de final de ciclo); a evolução da ferrugem no estado ou na região (através do site do consórcio anti-ferrugem, disponível em:  http://www.consorcioantiferrugem.net); etc. O controle químico deve ser uma ferramenta inserida dentro do programa de manejo e boas práticas agrícolas e não, a única medida de controle. O controle químico efetivo passa ainda pela escolha de bons fungicidas, combinando diferentes grupos químicos, tanto para aumentar espectro de controle, mas também, para evitar risco de resistência aos fungicidas; o uso de fungicidas protetores, que também auxiliam na prevenção à resistência do fungo, além de contribuir para o controle da doença; a manutenção das doses recomendadas pelos fabricantes e a utilização de tecnologia de aplicação adequada, a fim de garantir uma boa cobertura da folhagem.

      Para que essa boa cobertura seja obtida, o ideal é que as aplicações de fungicida sejam iniciadas antes do fechamento das entrelinhas, de forma preventiva, ainda no estádio vegetativo, o que permite que os fungicidas atinjam o baixeiro, onde as doenças se iniciam. Com o manejo iniciando de forma atrasada, após o fechamento das linhas, o fungicida não consegue atingir toda a planta. Com isso há uma redução na qualidade das aplicações, com menor cobertura e consequentemente, menor residual dos produtos. O momento de início das aplicações e a intensidade de doença são fatores importantíssimos para o sucesso de um programa de controle. Muito mais do que bons produtos, posicioná-los no momento correto é um fator determinante.

Desde que o momento da primeira aplicação seja assertivo e que se utilizem produtos com eficácia de controle, é possível conviver com a ferrugem em níveis que não causem prejuízos ao produtor. A associação de diferentes grupos químicos em um programa de manejo, com distintos modos de ação, como as carboxamidas + estrobilurinas, estrobilurinas + triazóis, carboxamidas + estrobilurinas + triazóis e a utilização de fungicidas protetores, contribuem tanto para o bom controle de doenças, como para a redução do risco de desenvolvimento de resistência do fungo aos fungicidas. As variedades com a tecnologia Inox, que promove resistência à ferrugem, também são uma excelente ferramenta para o manejo da doença, permitindo maior segurança ao produtor em relação ao controle de ferrugem.

Quando pensamos em manejo de doenças, prevenir é sempre melhor do que remediar!

Autor: Caroline Wesp Guterres é bióloga formada na Universidade de Passo Fundo, com Mestrado e Doutorado em Fitopatologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e atua como pesquisadora na área de Manejo de Doenças na Cooperativa Central Gaúcha (CCGL TECNOLOGIA), em Cruz Alta, RS. Contato: caroline.wesp@ccgl.com.br.

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