Objetivou-se avaliar o potencial de armazenamento de genótipos com diferentes hábitos de crescimento.

Autores:  SILVA, R.N.O*1; MORAES, C.L.1; REOLON, F.1;CAVALCANTE, J.A.1; MENEGHELLO, G.E.1; MAASS, D. W.1; GADOTTI, G.I.1; BRUM, H. P1.; MORAES, D.M.

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

A soja é uma das culturas de maior relevância para o agronegócio brasileiro, sendo a atividade agrícola de maior expressão no país. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento, a área plantada com essa cultura chegou a mais de 33 milhões de hectares, atingindo uma produção de aproximadamente 115 milhões de toneladas na safra 16/17.

De acordo com a literatura, as cultivares de soja podem ser classificadas quanto ao hábito de crescimento em determinado, semideterminado e indeterminado. As cultivares de crescimento determinado completam o ciclo vegetativo pouco antes da floração. A haste principal desses materiais termina com racemos florais. Já as plantas de crescimento indeterminado não apresentam racemos florais terminais, portanto continuam desenvolvendo nós e alongando o caule, desta forma, continuam crescendo até o final do florescimento.

O cultivo de soja com hábito de crescimento indeterminado tem aumentado de maneira expressiva no Brasil. Essa busca por cultivares de crescimento indeterminado tem se justificado por apresentar vantagens como recuperação das plantas após períodos de estresses abióticos, já que o período de florescimento das plantas ocorre de forma escalonada possibilitando que a mesma se restabeleça em condições climáticas adversas (Procópio et al., 2013).

Como as plantas de hábito indeterminado apresentam o seu desenvolvimento desuniforme, em função do florescimento escalonado, apresentando vagens no estrato inferior e ao mesmo tempo flores no estrato superior, pode-se supor que exista interferência desse desenvolvimento capaz influenciar a qualidade fisiológica das sementes de soja (Flores, 2016).

Diante do exposto, torna-se imprescindível o desenvolvimento de estudos relacionados ao comportamento das sementes originadas de plantas com diferentes hábitos de crescimento e sua influencia na qualidade das sementes. Nesse sentido, objetivou-se avaliar o potencial de armazenamento de genótipos com diferentes hábitos de crescimento.

As sementes utilizadas no presente estudo foram produzidas no leste maranhense, no qual sofreram a mesma influência climática e solo. Foram beneficiadas e armazenadas em câmara fria, sob temperatura média de 18° C e umidade relativa média de 48%, na unidade produtora de sementes por um período de 180 dias. A cada dois meses as sementes foram enviadas ao Laboratório Análise de Sementes da Universidade Federal de Pelotas-RS para realização das análises.

Neste estudo foram utilizados dois genótipos, um de hábito de crescimento determinado e outro de crescimento indeterminado. Realizou-se delineamento experimental inteiramente casualizado, em esquema de parcelas subdivididas no tempo, com oito repetições. Nas parcelas foram avaliados os períodos de armazenamento (dois, quatro e seis meses após a colheita), e nas subparcelas as cultivares (duas cultivares de soja).

As sementes foram submetidas aos testes de germinação, conforme as Regras para Análise de Sementes, teste de tetrazólio (França Neto, 1998), envelhecimento acelerado (Marcos Filho, 1999) e emergência em campo. O teste de tetrazólio foi realizado somente na caracterização inicial. Posteriormente, os dados foram submetidos à análise de variância e, quando significativos, foram comparados pelo teste Tukey a 5% de probabilidade.

Analisando os resultados no inicio do armazenamento, verificou-se que a germinação das sementes dos genótipos apresentou valores bastante similares (94% para hábito determinado e 93% para indeterminado), e o vigor pelo teste de tetrazólio era de 87 e 86%, respectivamente. Utilizar sementes com qualidade inicial semelhante é fundamental para trabalhos desta natureza, para que eventuais diferenças no potencial de armazenamento não sejam atribuídas à qualidade inicial distinta entre os materiais.

Observou-se, na tabela 1, que não houve interação entre os fatores estudados para todas as variáveis analisadas. Os resultados do teste de germinação mostram que no armazenamento não houve reduções no percentual de plântulas normais, com redução de apenas dois pontos percentuais entre os meses iniciais e o período final de armazenamento. A manifestação da redução do percentual de germinação é uma das últimas conseqüências do processo de deterioração (Delouche, 2002), e em função disso, a semente pode estar com vigor comprometido antes da perda da capacidade de germinar.

Tabela 1. Valores médios de germinação, envelhecimento acelerado e emergência em campo de sementes de soja de diferentes hábitos de crescimento durante o armazenamento. Pelotas, RS, 2018

Avaliando o efeito de cultivar, pôde-se observar que as sementes do genótipo de crescimento determinado apresentaram comportamento superior, com menor redução no percentual de plântulas normais no teste de germinação em comparação as sementes oriundas do genótipo de crescimento indeterminado (Tabela 1).

O teste de envelhecimento acelerado constatou que houve redução significativa no percentual de plântulas normais à medida que prolongou-se o período de armazenamento (Tabela 1). Sabe-se que o teste de envelhecimento acelerado é capaz de estimar o potencial de longevidade das sementes (Marcos Filho, 1999). Essa informação é de grande relevância para o produtor de sementes para inferir a qualidade a posteriori do lote e com facilitar a tomada de decisão.

Analisando o efeito do genótipo no vigor de sementes pelo teste de envelhecimento acelerado, constatou-se diferença significativa entre os genótipos (Tabela 2), no qual as sementes oriundas do genótipo de crescimento indeterminado apresentaram maior potencial de armazenamento, com média de 83% em comparação ao genótipo de crescimento determinado, com média 72%.

Para a variável emergência a campo verificou-se reduções significativa no vigor somente após seis meses de armazenamento (Tabela 1). Após um período prolongado de armazenamento é comum a ocorrência da redução da qualidade das sementes. No entanto, de acordo a literatura a intensidade pode variar em função da qualidade inicial, das condições de armazenamento e do genótipo utilizado.


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Semelhante ao teste de envelhecimento acelerado foi possível observar o comportamento diferenciado entre os genótipos. O genótipo de crescimento indeterminado apresentou menor vigor em comparação ao de hábito determinado durante o período de armazenamento (Tabela 1). Essa redução no vigor com maior intensidade do genótipo com hábito de crescimento indeterminado pode ter relação com a desuniformidade no processo de maturação das sementes, já que cultivares de crescimento indeterminado apresentam florescimento de forma escalonada, podendo apresentar vargens em desenvolvimento e flores ao mesmo tempo (Neumaier et al., 2000). Porém, os resultados obtidos anteriormente diferem dos obtidos por Flores (2016), que ao avaliar a qualidade fisiológica de genótipos com diferentes hábitos de crescimento não encontrou diferenças significativas no vigor das sementes entre hábitos de crescimento.

Mediante as condições em que foram conduzidas este trabalho, conclui-se que o genótipo de hábito de crescimento determinado apresenta maior potencial de armazenamento em comparação ao genótipo de crescimento indeterminado.

Referências

DELOUCHE, J. C. Germinacion, deterio y vigor de semilla. Seed News, v.6, n.6, p.1620, 2002.

FRANÇA NETO, J.B.; KRZYZANOWSKI, F.C; COSTA, N.P. O teste de tetrazólio em sementes de soja.Londrina: EMBRAPA-CNPSo, 1998.

FLORES, M. F. Qualidade fisiológica e rendimento de sementes de soja em função do hábito de crescimento da planta, Curitiba, 2016. 55f. Tese (Doutorado em Agronomia) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2016.

MARCOS FILHO, J. Teste de envelhecimento acelerado. In: KRZYZANOWSKI, F.C.; VIEIRA, R.D.; FRANÇA NETO, J.B. (Ed.). Vigor de sementes: conceitos e testes. Londrina: ABRATES, 1999. cap.3.1, p.3.24.

NEUMAIER, N.; NEPOMUCENO, A.L.; FARIAS, J.R.B. Estádios de desenvolvimento da cultura de soja. In: BONATO, E.R. (Ed.). Estresses em soja. Passo Fundo: EMBRAPA-CNPT, 2000. p. 19-44.

PROCÓPIO, S. O., BALBINOT JR, A.A., DEBIASI, H., FRANCHINI, J.C., PANISON, F. Plantio cruzado na cultura da soja utilizando uma cultivar de hábito de crescimento indeterminado. Amazonian Journal, v.56, p.319-325, 2013.

Informações dos autores:  

1Universidade Federal de Pelotas- UFPEL, Campus Capão do Leão, Pelotas, RS.

Disponível em: Anais do VIII Congresso Brasileiro de Soja. Goiânia – GO, Brasil.

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