A armazenagem de grãos é sinônimo de preservação dos investimentos feitos durante toda uma safra. Além disso, alguns produtores optam por guardar parte da produção para comercializá-la futuramente aguardando um preço melhor, ou ainda facilitar a colheita, de modo que não precise esperar a comercialização para continuar a operação. No entanto, mesmo após um grande trabalho contra as pragas durante a safra, os problemas com insetos não acabam com a colheita.

O armazenamento inadequado de grãos resulta em cerca de 15% de perdas com insetos-praga, fungos, micotoxinas e até roedores (Brito, 2015). Nesse sentido, quando o produto sai do campo, com impurezas e umidade elevada, há o favorecimento do surgimento de pragas nos grãos armazenados. Em virtude disso, antes de ser estocado, o produto passa pelo beneficiamento para melhorar sua qualidade e aumentar o tempo de estocagem, incluindo a uniformização do teor de umidade para 13%. Porém, mesmo nessas condições insetos podem se desenvolver nos grãos estocados, gerando perdas quantitativas (redução da matéria seca) e qualitativas (perda de valor nutritivo e do poder de germinação). As pragas de grãos armazenados se dividem em primárias (danificam os grãos íntegros e sadios) e secundárias (aproveitam-se dos grãos já danificados).

Primeiramente, vamos falar sobre o gorgulho-do-milho (Sitophilus zeamais) e o gorgulho-do-arroz (Sitophilus oryzae) (Figura 1). São pragas primárias internas de elevado potencial de dano e alta taxa reprodutiva, além de possuírem muitos hospedeiros, como trigo, milho, arroz, cevada e triticale. Somado a isso, são espécies de coleópteros muito semelhantes morfologicamente, podendo ocorrer juntas na mesma massa de grãos, e infestar tanto grãos no campo quanto no armazém. Os danos em virtude do ataque dessas espécies são a redução de peso e qualidade dos grãos (germinação e vigor), tanto na fase larval quanto na adulta, visto que deposita os seus ovos no interior da semente (Lorini et al., 2015).

Figura 1. Grão de milho atacado pelo Sitophilus zeamais.

Fonte: SGD, 2010; Dilex, 2010.

Outro coleóptero importante é o besourinho-dos-grãos (Cryptolestes ferrugineus) (Figura 2). É considerada a praga secundária mais importante na armazenagem de soja, milho, trigo, arroz, cevada e aveia, além de infestar frutos secos e nozes. Seu dano passa por destruir grãos fendidos, rachados e quebrados, penetrando e atacando a região do embrião da semente. Além disso, essa espécie aparece em grande quantidade em armazéns, após o tratamento com inseticidas, pois é tolerante a muitos desses produtos e possui facilidade de reprodução (Lorini, 2012).

Figura 2. Besourinho-dos-grãos (Cryptolestes ferrugineus).

Fonte: Prof. Omar Fürst (2017). Imagem original disponível em
http://bibocaambiental.blogspot.com/2017/09/besouro.html

Já se tratando das traças, a espécie mais importante é a traça-dos-cereais (Sitotroga cerealella) (Figura 3). Embora seja classificada com praga primária, essa espécie afeta apenas a superfície da massa de grãos, sendo incapaz de penetrar nas camadas mais profundas. O seu dano está vinculado com as larvas que penetram no interior dos grãos, onde se alimentam e completam a fase larval, prejudicando o peso e a qualidade dos mesmos. Afeta as culturas do arroz, aveia, cevada, centeio, milho e trigo. Além disso, as traças apresentam a peculiaridade de atacar a farinha produzida a partir dos grãos, causando deterioração no produto pronto para consumo (Antunes, 2010). Existem mais duas espécies de traças (Plodia interpunctella e Ephestia kuehniella), porém são pragas secundárias que predominam em produtos ensacados, se desenvolvendo em resíduos de grãos e de farinhas deixados pela ação de outras pragas.

Figura 3. Traça-dos-cereais (Sitotroga cerealella).

Fonte: University of Geogia. Imagem original disponível em
https://www.bugwood.org/searchresults.cfm?q=Sitotroga+cerealella

Outra praga importante na pós-colheita é o caruncho-do-feijão (Zabrotes subfasciatus) (Figura 4). Essa espécie causa grandes prejuízos nos grãos de feijão armazenados, visto que tem por característica atacar os cotilédones, abrindo galerias (no caso das larvas) e deixando orifícios arredondados após a emergência dos adultos. Desse modo, ocorrem prejuízos na qualidade do produto e no potencial de germinação em grãos destinados ao uso como semente, já que o embrião é danificado. Além disso, o ataque do caruncho afeta as propriedades culinárias do feijão (Quintela, 2001).

Figura 4. Grão de feijão atacado pelo caruncho-do-feijão (Zabrotes subfasciatus).

Fonte: University of Geogia. Imagem original disponível em
https://www.bugwood.org/searchresults.cfm?q=Zabrotes+subfasciatus

O controle dessas e outras pragas de grãos armazenados passa pelos tratamentos preventivo e curativo. O primeiro envolve a aplicação de produtos nos grãos imediatamente antes de serem armazenados. Esses produtos incluem inseticidas (fosforados e piretroides) e pó inerte (terra de diatomáceas, advinda de fósseis de algas diatomáceas, que possuem naturalmente uma fina camada de sílica).

Já para o tratamento curativo, ou seja, quando o ataque ocorre durante o período de armazenagem, é empregado o expurgo mediante uso de gás fosfina. Certos cuidados devem ser tomados antes da aplicação, como a limpeza dos silos e a vedação adequada; após essa preparação, os produtos são aplicados diretamente na massa de grãos. Os fosfetos de alumínio e de magnésio são precursores do gás fosfina e são os produtos mais utilizados para esse fim em virtude da sua eficiência, facilidade de uso e segurança de aplicação. Além disso, o período de liberação da fosfina pode durar aproximadamente 170 horas, sem resultar em prejuízos fisiológicos nas sementes de soja (Lorini et al., 2013). Já o brometo de metila, largamente utilizado antes do advento do gás fosfina, encontra-se em desuso devido à sua alta fitotoxicidade e aos riscos de contaminação para o homem.

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro  e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM

Referências: 

Antunes L.E.G., Dionello R.G. Bioecologia de Sitotroga cerealella Oliver 1789 (Lepidoptera: Gelechiidae). Infobibos. 2010. Disponível em http://www.infobibos.com/Artigos/2010_2/Sitotroga/index.htm#:~:text=A%20esp%C3%A9cie%20Sitotroga%20cerealella%20Oliver,Athi%C3%A9%20%26%20Paula%2C%202002).&text=cerealella%20pode%20infestar%20gr%C3%A3os%20em,de%20um%20hospedeiro%20para%20outro

Brito, S. Armazenamento inadequado de grãos resulta em cerca de 15% de perdas. Embrapa Soja. 28 de julho de 2015. Disponível em https://www.embrapa.br/en/busca-de-noticias/-/noticia/3860638/armazenamento-inadequado-de-graos-resulta-em-cerca-de-15-de-perdas#:~:text=Armazenamento%20inadequado%20de%20gr%C3%A3os%20resulta%20em%20cerca%20de%2015%25%20de%20perdas,-Tweetar&text=Insetos%2Dpraga%2C%20fungos%20e%20micotoxinas,ao%20armazenamento%20inadequado%20da%20produ%C3%A7%C3%A3o 

Lorini et al. Manejo Integrado de Pragas de Graos e Sementes Aramazenadas. Embrapa. 2015. Disponível em https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/129311/1/Livro-pragas.pdf

Lorini I. et alExpurgo da semente de soja com fosfina e seu efeito na qualidade fisiológica – Série Sementes. Embrapa Soja, Circular técnica, n. 97, 2013. Disponível em https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/966714/2/CT97impressa.pdf

Lorini, I. et al. Insetos que. atacam grãos de soja armazenados. In: HOFFMANN-Campo C.B., Correa-Ferreira B.S., Moscardi F. Soja: manejo integrado de insetos e outros artrópodes-praga. Brasília, DF: Embrapa, 2012. p. 421-444.

Quintela E.D. Manejo Integrado de Pragas do Feijoeiro. Embrapa – Circular técnica. Dezembro de 2001. Disponível em http://docsagencia.cnptia.embrapa.br/feijao/circ_46.pdf

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