Helicoverpa armigera é considerada uma das pragas agrícolas mais importantes no mundo, devido à sua ampla distribuição geográfica e comportamento polífago. Esta praga possui grande potencial em danificar plantas de soja, especialmente durante a fase reprodutiva.

As lagartas de H. armigera se alimentam das folhas da soja, brotos, inflorescências, frutos e vagens. Os danos ocasionados nas plantas durante as fases vegetativa e reprodutiva da cultura acarretam em perdas econômicas elevadas (Suzana et al., 2015).

Trata-se de uma praga com elevado potencial reprodutivo, onde cada fêmea tem a capacidade de ovipositar de 1.000 a 1.500 ovos. Essa oviposição ocorre sempre de forma isolada, sobre talos, flores, frutos e folhas. Para a postura, prefere a face abaxial das folhas e superfícies pubescentes, e tem preferência pelo período noturno (Czepak et al., 2013)

Figura 1. Lagarta de Helicoverpa armigera.

Fonte: Agricultura RS

Segundo Stacke et al (2018), quando analisado o rendimento da soja submetida ao ataque de H. armigera em estágio R2 (florescimento pleno), houve taxa comum de perda de 7,722 g/lagarta. Já no estágio R5.1 (início do enchimento de grãos), a taxa de perda de rendimento foi de 10,610 g/lagarta. A menor perda observada no estágio R2 pode ser explicada pela capacidade compensatória das plantas de soja.

Somado a isso, a porcentagem de legumes (vagens) danificadas por H. armigera foi maior no terço médio do dossel vegetativo da cultura, em relação aos terços inferior e superior (Figura 2). Isso ocorre devido ao terço médio das plantas apresentar maior concentração de flores e legumes, sendo o local preferencial de oviposição das fêmeas adultas para faciliar o posterior desenvolvimento das larvas

Figura 2. Porcentagem de legumes danificados por H. armigera em cada terço das plantas de soja, no estágio reprodutivo R2 da cultura. Safras 2013/14 (A) e 2014/15 (B).

Fonte: Adaptado de Stacke et al., 2018. Imagem original Clicando aqui

A capacidade que a soja atacada por H. armigera tem de compensar o dano dos insetos é influenciada pelo estágio de maturidade que se encontra, condições de umidade e danos já existentes. Quando a soja perde flores e vagens iniciais, pode produzir mais vagens ou criar mais sementes (ou sementes maiores) devido ao tecido reprodutivo remanescente.

No entanto, esta capacidade compensatória diminui conforme a planta de soja amadurece. Por exemplo, quando o dano ocorre quando a planta de soja já concluiu a formação de vagens, os fotoassimilados da planta são transportados para as vagens e sementes restantes, em vez de produzir novas estruturas reprodutivas.

Portanto, os maiores danos por ataque de H. armigera nas plantas de soja ocorrem principalmente durante a fase de enchimento de grãos (> R5.1). Há reduções significativas em vagens/m2 e sementes/vagem com aumento da densidade de H. armigera, pois mesmo uma densidade populacional de poucas lagartas/m2 pode causar elevadas reduções no rendimento de grãos.

O nível de dano econômico (NDE) é definido como a menor densidade populacional de uma praga a partir da qual o controle torna-se economicamente viável. No caso de H. armigera, o NDE é variável de acordo com os estágios da soja em que ocorre a infestação, custo de controle de acordo com o inseticida utilizado e valor de comercialização da soja. No estágio R2 da cultura, por exemplo, o NDE varia de 0,43 a 2,16 lagartas/m². Já no estágio R5.1, a tolerância é menor, devido à maior capacidade de dano: nesse caso, o NDE varia de 0,31 a 1,57 lagartas/m² (Stacke et al., 2018).

Considerando, por exemplo, um custo de controle de R$ 120,00 por hectare e valor da saca de soja de R$ 100,00, o nível de controle é 0,81 lagartas/m², assumindo uma eficiência de controle de 90% com o inseticida utilizado (Figura 3).

Figura 3. Nível de dano econômico (número médio de H. armigera por m2) de acordo com o valor da saca da soja e custo de controle por hectare, considerando 90% de eficiência de controle.

Fonte: Adaptado de Stacke et al., 2018. Imagem original disponível Clicando aqui

 Portanto, o nível de tolerância que o produtor pode ter para com a presença de H. armigera em sua lavoura é muito baixo, dada a capacidade desse inseto de causar danos severos à cultura da soja. Ademais, o alto valor de comercialização da saca de soja torna as aplicações economicamente viáveis. Entretanto, esse cenário não deve se traduzir em uso exarcebado de inseticidas químicos, o que pode acarretar na seleção de populações resistentes da praga.

É importante prevenir o estabelecimento de altas infestações, especialmente durante a fase de enchimento de grãos. Além disso, é imprescindível que se realize o monitoramento constante da cultura para identificar o melhor momento de controle de H. armigera durante a safra de soja, a fim de evitar escolhas inadequadas em relação a taxas de aplicação e tempo de pulverização.

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro  e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFS



REFERÊNCIAS:

CZEPAK, Cecília et al. Primeiro registro de ocorrência de Helicoverpa armigera (Hübner)(Lepidoptera: Noctuidae) no Brasil. Pesquisa Agropecuária Tropical, v. 43, n. 1, p. 110-113, 2013.

KUSS, Cassiano Carlos et al. Controle de Helicoverpa armigera (Lepidoptera: Noctuidae) em soja com inseticidas químicos e biológicos. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 51, n. 5, p. 527-536, 2016.

MORAES, Renato Franco Oliveira de et al. Comportamento de oviposição de Helicoverpa armigera em soja. Arquivos do Instituto Biológico, v. 87, 2020.

STACKE, Regis F. et al. Damage assessment of Helicoverpa armigera (Lepidoptera: Noctuidae) in soybean reproductive stages. Crop Protection, v. 112, p. 10-17, 2018.

SUZANA, Crislaine Sartori et al. Desempenho de larvas de Helicoverpa armigera (Hübner)(Lepidoptera: Noctuidae) em diferentes fontes alimentares. Pesquisa Agropecuária Tropical, v. 45, n. 4, p. 480-485, 2015.

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