Objetivou-se nesse estudo avaliar o rendimento de grãos da soja, cultivada em rotação com o arroz irrigado em área de terras baixas, a diferentes doses de nitrogênio aplicadas em pastagens hibernais antecessoras (azevém – Lolium multiflorum ou aveia-preta – Avena strigosa) e diferentes épocas de dessecação da pastagem para implantação do cultivo da soja.

Autores:  Letícia Conzatti Piccinini1; Gustavo Haas Heissler2; Luciano Pinzon Brauwers1; Lóren Pacheco Duarte1; Estéfani Sulzbach1; Felipe de Campos Carmona3; Amanda Posselt Martins4

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

INTRODUÇÃO

O cultivo da soja (Glycine max) nas terras baixas do Rio Grande do Sul, como uma alternativa ao arroz irrigado (Oryza sativa), vem aumentando muito nos últimos anos, chegando a uma média anual de cerca de 300 mil hectares (IRGA, 2016). No entanto, a produtividade da soja segue estagnada, com variações entre 1,8 e 2,3 t/ha (IRGA, 2016), apesar do alto potencial produtivo que pode apresentar (IRGA, 2017). As principais razões para a produtividade média ainda ser baixa se dá, muitas vezes, pela dificuldade de manutenção do teor de umidade do solo em níveis adequados. Os solos das terras baixas são, em sua grande maioria, arenosos, com camada subsuperficial compactada e baixa condutividade hidráulica, o que torna a soja cultivada altamente suscetível ao estresse hídrico por excesso ou déficit de água (IRGA, 2017).

Nesse contexto, uma das alternativas para o sucesso da soja passa pela cobertura do solo e aumento dos seus teores de matéria orgânica, com a adoção de práticas de manejo mais conservacionistas (e.g., plantio direto) e cultivo de pastagens hibernais. Tais pastagens podem ser exploradas com a pecuária, trazendo mais uma fonte de renda ao produtor rural e caracterizando um sistema integrado de produção agropecuária (SIPA) (Carmona et al., 2018). Nesse contexto, um dos assuntos que ainda carece de estudos para domínio do manejo é a época de dessecação da pastagem hibernal para a semeadura da cultura agrícola (lavoura) em sucessão.

Diversos aspectos de manejo diferenciam-se para terras baixas, devido às condições de solos e o próprio maquinário utilizado. Além disso, as doses de adubação nitrogenada utilizada na pastagem também podem apresentar uma resposta distinta nas terras baixas (Carmona et al., 2018) e variar conforme a espécie, influenciando a produção de matéria seca (MS). Portanto, assim como as épocas de dessecação, a adubação da pastagem também pode ter impacto na produtividade da soja em sucessão.

Nesse contexto, objetivou-se nesse estudo avaliar o rendimento de grãos da soja, cultivada em rotação com o arroz irrigado em área de terras baixas, a diferentes doses de nitrogênio aplicadas em pastagens hibernais antecessoras (azevém – Lolium multiflorum ou aveia-preta – Avena strigosa) e diferentes épocas de dessecação da pastagem para implantação do cultivo da soja.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido durante a safra 2017/2018, na Estação Experimental pertencente à empresa Integrar – Gestão e Inovação Agropecuária. A área experimental fica situada no município de Triunfo, Rio Grande do Sul, Brasil. O experimento foi conduzido no delineamento de blocos ao acaso, em um trifatorial, disposto em parcelas subdivididas, com quatro repetições. Nas parcelas principais foram alocadas as pastagens hibernais, sendo: 1) aveia-preta; e 2) azevém.

Nas subparcelas foram alocadas as doses de N aplicadas nas pastagens hibernais, segundo a CQFS RS/SC (2016), sendo: 1) sem N (0 kg N/ha); 2) ½ da dose recomendada para produção de 6 t MS/ha (75 kg N/ha); e 3) dose recomendada para produção de 6 t MS/ha (150 kg N/ha). Nas sub-subparcelas foram alocadas as épocas de dessecação da pastagem hibernal, sendo: 1) 0 dias; 2) 15 dias; e 3) 30 dias antes da semeadura da soja. Cada parcela, com a combinação das três fontes de variação (pastagem hibernal, dose de N na pastagem e época de dessecação) (tratamentos), tinha a área de 20 m² (10 x 2 m).

O estabelecimento das pastagens hibernais ocorreu no outono de 2017, com a semeadura da aveia preta e do azevém em 05/05. No estádio V3-V4, procedeu-se a aplicação da adubação nitrogenada. Quando a pastagem atingiu cerca de 20 cm de altura e aproximadamente 1,5 t MS/ha, iniciou-se simulações de pastejo, que consistiam no corte da pastagem da altura de 20 cm até aproximadamente 12 cm, e deposição do material vegetal na área. Ao final do ciclo das pastagens, iniciaram-se as dessecações, que foram realizadas com herbicida de ação total nos dias 02/10, 17/10 e 02/11 para as épocas de 30, 15 e 0 dias antes da semeadura da soja, respectivamente.

O estabelecimento da soja ocorreu em 02/11, com a semeadura da cultivar Garra 63164 RSF IPRO, em linhas espaçadas de 45 cm (densidade de 250.000 plantas/ha). A adubação foi realizada no momento da semeadura para expectativa de produção de 4 t/ha (CQFS RS/SC, 2016): 60 kg P2O5/ha e 100 kg K2O/ha.


Quer aumentar o rendimento da sua lavoura? Acesse nosso curso e atualize-se!


A soja foi conduzida realizando-se os manejos segundo a RPSRS (2016). Ao final do ciclo da soja (estádio R8), foi avaliado o rendimento de grãos da cultura, cortando, ao nível do solo, três linhas de 1 metro de comprimento em cada parcela. O material colhido foi processado em trilhadora estacionária, sendo posteriormente pesado e tendo seu peso corrigido para uma umidade padrão de 13%. Os resultados obtidos foram submetidos à análise de variância e as médias foram comparadas pelo teste de Tukey (p<0,05).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O rendimento médio de grãos da soja foi de 3,86 t/ha (Figura 1), acima do que vem sendo obtido nas terras baixas (IRGA, 2017). Não houve diferença significativa no rendimento de grãos sob diferentes épocas de dessecação da pastagem (Figura 1a). Atualmente, a recomendação é de que a dessecação seja realizada algumas semanas antes da semeadura da soja (RPSRS, 2016), diminuindo o tempo de utilização da pastagem e de ganho de peso dos animais em pastejo. Portanto, esse é um resultado importante para o aumento da eficiência do SIPA em terras baixas, pois muitas das pastagens hibernais utilizadas ainda estão em pleno desenvolvimento na época recomendada para sua dessecação (Carmona et al., 2018).

Figura 1. Rendimento de grãos da soja influenciado pela (a) época de dessecação da pastagem, na média das diferentes doses de nitrogênio (N) aplicadas nas pastagens hibernais antecessoras, e (b) pela dose de N aplicada nas diferentes pastagens hibernais antecessoras, na média das diferentes épocas de dessecação (Triunfo/RS, Safra 2017/2018). Teste de Tukey (p<0,05): letras maiúsculas comparam as pastagens hibernais dentro de cada dose de N; letras minúsculas comparam a dose de N dentro de cada pastagem hibernal; ns = não significativo.

Em relação à adubação nitrogenada da pastagem hibernal (Figura 1b), verificouse que na sua ausência houve maior rendimento de grãos de soja precedida de aveia em relação àquela precedida de azevém. Esse resultado pode estar ligado à relação C/N diferenciada das duas espécies no final do ciclo, devido ao ciclo mais precoce da aveia, que pode influenciar no estabelecimento da soja anteriormente ao início da fixação do N (IRGA, 2017).

A aplicação de 150 kg N/ha em ambas as espécies resultou no maior rendimento de grãos da soja e, a de 75 kg N/ha, na menor, sendo que para o azevém a dose de 0 kg N/ha não apresentou diferença entre as demais. Novamente, tal resultado deve ter sua explicação ligada à maior imobilização do N no estabelecimento da soja quando da aplicação de 75 kg N/ha na pastagem, que estimulou o seu crescimento, mas não adicionou N suficiente para a microbiota do solo.

CONCLUSÃO

O rendimento de grãos da soja não é influenciado pela época de dessecação da pastagem hibernal, independentemente da dose de N aplicada. A dose de N aplicada na pastagem hibernal influencia o rendimento de grãos da soja cultivada posteriormente, sendo que valores superiores são observados com a ausência da adubação nitrogenada ou com a adubação recomendada para produção de 6 t MS/ha (150 kg N/ha).

REFERÊNCIAS

CARMONA, F.C. et al. Sistemas integrados de produção agropecuária em terras baixas. 1.ed. Porto Alegre: Gráfica e Editora RJR, 2018. 160p.

IRGA – Instituto Rio-Grandense do Arroz. Soja em rotação com arroz – Evolução área e produtividade. Disponível em: <http://www.irga.rs.gov.br>. Acesso em: 26 mai. 2018.

IRGA – Instituto Rio-Grandense do Arroz. Soja 6000, Manejo para alta produtividade em terras baixas. Porto Alegre: Gráfica e Editora RJR, 2017. 96p.

RPSRS – REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA DA REGIÃO SUL. Indicações técnicas para a cultura da soja no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, safras 2016/2017 e 2017/2018. Passo Fundo: Embrapa Trigo e Apassul, 2016.

Informações dos autores:  

1Acadêmica(o) do Curso de Agronomia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS;

2 Mestrando em Zootecnia, UFRGS, Porto Alegre/RS;

3 Pesquisador, Integrar – Gestão e Inovação Agropecuária, Capivari do Sul/RS;

4 Professora, UFRGS, Porto Alegre/RS.

Disponível em: Anais do I Congresso Online para aumento da produtividade de soja 2018. Santa Maria, RS.

NO COMMENTS

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.