À medida que os preços dos alimentos disparam, fica cada vez mais evidente a contribuição da agricultura moderna na redução da fome e no bem-estar social. É por esse motivo que não medimos esforços para falar da importância das tecnologias no campo e todas as vantagens que elas trazem para a sustentabilidade agrícola e sociedade.

Sem o uso da biotecnologia e de insumos que contribuem com a nutrição vegetal e combate às pragas nas lavouras, o nosso alimento seria inacessível para muita gente, principalmente às populações que se encontram em situação de maior vulnerabilidade social.

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Apostar em sistemas que restringem tecnologias pode ser catastrófico

Você já imaginou quais seriam os impactos de uma produção agrícola que não utilizasse pesticidas, fertilizantes sintéticos e transgênicos? Quais seriam as consequências de uma retirada desses insumos sobre oferta de alimentos? Ainda que sempre possamos melhorar a forma como produzimos, você já pode prever que a remoção drástica de tecnologias pode agravar ainda mais o cenário de fome que estamos vivenciando no mundo.

O aumento dos preços dos alimentos – impulsionado pela elevação dos custos de fertilizantes, energia e transporte – em meio ao conflito na Ucrânia e a crise no Sri Lanka – fortemente influenciada por decisões de renúncia a tecnologias de nutrição e proteção de cultivos – nos mostra o quanto a cadeia de produção de alimentos é vulnerável às mudanças. Ela nos estimula a refletir sobre a complexidade do sistema e o quanto precisamos conhecer o impacto de cada modo de produção antes de nos posicionarmos.

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A agricultura orgânica e a produtividade

Uma pesquisa mostrou que a agricultura orgânica produz de 29% a 44% menos alimentos por hectare do que a agricultura convencional. Fato que contribui para que os produtos orgânicos cheguem a custar 50% mais do que os produzidos por sistemas convencionais. Portanto, somente consumidores de poder aquisitivo mais elevado podem suportar os aumentos de preços relacionados, mas a maioria das pessoas poderão sofrer consequências catastróficas.

Quando se considera a área necessária para que a produção seja a mesma nos dois sistemas, na mesma proporção, o orgânico requer 30% mais terra para produzir do que o convencional. Logo, a hipótese de um futuro sustentável baseado em alimentação exclusivamente orgânica não parece viável. Afinal, com o crescimento populacional, precisaremos aumentar a produção de alimentos, fibras e energia sem utilizar áreas maiores de terras.

Gráfico que sinaliza três tecnologias que otimizam a produção: os pesticidas químicos e biológicos, que permitem o manejo de pragas, as práticas adequadas de irrigação, e o melhoramento genético com biotecnologia.

O uso de fertilizantes, defensivos e a fome mundial

O nitrogênio é um macronutriente essencial ao crescimento dos vegetais. Uma vez que a oferta desse nutriente, pela decomposição de materiais vegetais, microrganismos e animais, não acompanha a demanda das plantas cultivadas para a produção de alimentos, é preciso repor o nitrogênio de forma sintética, o que é feito com o emprego de fertilizantes. Dada a sua importância no desenvolvimento de produtos alimentares, a menor oferta de fertilizantes, impacta diretamente na produção de alimentos, ameaçando o agravamento do quadro da fome.

Infelizmente, o cenário atual, diante da guerra na Ucrânia promovida por conflitos com a Rússia denuncia, de forma devastadora, o quanto a disponibilidade de fertilizantes é crítica para a oferta de alimentos. Dado que a Rússia produz 8% do nitrogênio do mundo e que já vinha enfrentando dificuldades na produção do insumo por conta da pandemia e restrições de políticas climáticas, o preço dos fertilizantes a base de nitrogênio ficou elevado.  Para agravar ainda mais a situação, quase 1/3 dos fertilizantes a base de potássio, nutriente também essencial para o crescimento das plantas, vem da Rússia e de Belarus.

Com isso, estima-se que o aumento dos preços dos fertilizantes possa diminuir a produção de cereais como o arroz em 10% na próxima safra, representando uma queda na produção de alimentos equivalente ao que poderia alimentar meio bilhão de pessoas. Um resultado devastador.

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Diante desse cenário, qualquer restrição ao uso de tecnologias agrícolas pode agravar ainda mais a situação da fome no planeta, um perigo à segurança alimentar. Precisamos nos concentrar urgentemente em maneiras de produzir mais alimentos para todos e a um custo menor.

Na Ásia, um outro evento merece ser citado.  O Sri Lanka, vive hoje uma crise social, política e econômica que se deve, entre outros fatores, ao banimento do uso de fertilizantes e pesticidas químicos em abril de 2020. De lá para cá, a produtividade do chá cingalês, produto típico do país, caiu pela metade e o mesmo aconteceu com o milho. As reduções foram de 30% para coco e de 35% para o arroz. No caso desse cereal, o país, que antes era autossuficiente e exportador, passou a importar US$450 milhões de arroz. Mesmo com a reversão atual da situação, não foi possível evitar as quedas nas colheitas e do governo que propôs a medida.

As restrições às tecnologias agrícolas pode ser catastrófico para a segurança alimentar

Ainda que sempre possamos fazer melhor e isso inclui, as políticas sobre o uso das ferramentas agrícolas, uma transição súbita deixando produtores e tecnologias comprovadamente eficientes para trás tem impactos devastadores. Qualquer decisão que interfira em um setor tão essencial como a agricultura, deve ponderar os impactos e buscar planos de transição, quando for o caso. Diminuição nos volumes de comida, perda de renda, aumento de área plantada e desmatamento não são consequências aceitáveis.

Por outo lado, recorrer ao uso de tecnologias que contribuem com o manejo de pragas e de irrigação, além de utilizar técnicas da biotecnologia para o melhoramento genético de plantas capazes de produzir mais e melhor sob diferentes condições climáticas, é essencial para aumentar os rendimentos e reduzir o custo da produção de alimentos.

Melhorar a eficiência do uso de fertilizantes sintéticos e investir em pesquisas para avaliar formas alternativas às dependências desses insumos provenientes de combustíveis fósseis também é uma maneira de contribuir com a produção sustentável de alimentos. Seria uma forma planejada de desenvolvimento sustentável a longo prazo, evitando consequências catastróficas a curto prazo.

Optar pelo consumo e produção de orgânicos é um direito incontestável, no entanto, focar em abordagens científicas e eficazes que podem alimentar o planeta é uma responsabilidade social e de extrema importância para combater a fome e a pobreza no mundo.

Por isso, realizar ações de maneira planejada e deixar toda a população esclarecida sobre a utilização dessas tecnologias é o melhor caminho rumo ao desenvolvimento sustentável.

Fonte: CropLife Brasil

Principais fontes:

Garcia, G; Cardoso, A.A.; Santos, O.A.M. Da escassez ao estresse do planeta: um século de mudanças no ciclo do nitrogênio. (2013). Assuntos gerais.  Quím. Nova 36 (9) https://doi.org/10.1590/S0100-40422013000900032

Knapp, S., van der Heijden, M.G.A. A global meta-analysis of yield stability in organic and conservation agriculture. Nat Commun 9, 3632 (2018). https://doi.org/10.1038/s41467-018-05956-1

Meemken, E.M.; Qaim, A.M. Organic Agriculture, Food Security, and the Environment. (2018) Annual Review of Resource Economics. P 39-63. V.10. N 1. https://doi.org/10.1146/annurev-resource-100517-023252

Texto originalmente publicado em:
CropLife Brasil
Autor: CropLife Brasil

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