Por Prof. Dr. Marcelo da Costa Ferreira, Eng. Agr. Fabiano Griesang, doutorando- Depto. Fitossanidade – UNESP, Campus de Jaboticabal

A tecnologia de aplicação vem ganhando importância significativa nos diversos momentos em que se deseja distribuir insumos para a produção agropecuária. No conceito de agricultura de precisão, que considera a variabilidade espacial nas áreas de cultivo, cresce a importância do conhecimento e uso das tecnologias mais adequadas para a aplicação correta do insumo quando necessário, na quantidade correta, de forma econômica e para a melhor resposta do cultivo.

Para a obtenção de informações sobre as demandas de fertilizantes, já existe um aparato bem conhecido e desenvolvido que vai desde o estabelecimento de grides georreferenciados para coleta de amostras, à análise laboratorial dos materiais. Estas informações servem de base para as indicações da dosagem necessária em cada ponto da área.

Além disso, informações sobre as condições meteorológicas também são importantes para a orientação de aplicações, uma vez que podem interferir na absorção e aproveitamento dos nutrientes, sobretudo no caso de Fertilizantes via aplicação foliar, que podem depender de um período mínimo de molhamento de folhas para que haja a absorção do nutriente, ou mesmo de aquiescência das plantas para que o nutriente seja mais bem aproveitado e reflita positivamente na produtividade.

Independentemente da aplicação do fertilizante se dar no estado sólido ou líquido, o importante é respeitar a necessidade da dosagem em cada ponto de aplicação. Nesse sentido, os equipamentos aplicadores têm evoluído sistematicamente e já são capazes de realizar as aplicações em taxas variadas dos fertilizantes, e por isso é imprescindível que se receba a informação adequada, provida por uma boa amostragem.

Para equipamentos aplicadores de sólidos, os fabricantes se utilizam de diversas tecnologias, tanto para a aplicação a lanço quanto em faixas ou localizadas. Para estas, há instrumentação capaz de distribuir quantidades compatíveis com as necessidades.

Para a aplicação dos fertilizantes no estado líquido em taxa variável, também já existem equipamentos disponíveis. Entretanto, esta prática não tem sido muito utilizada devido às aplicações dos fertilizantes geralmente ocorrerem associadas à aplicação de produtos fitossanitários, que normalmente são fixadas a uma única taxa de aplicação.

Considerando as boas práticas agrícolas, o importante para qualquer prática operacional – com maior ou menor uso de tecnologias sofisticadas – é permitir variações da aplicação em tempo real. Visando à obtenção dos resultados esperados, alguns passos devem ser seguidos, iniciando-se pela informação adequada da variabilidade e da demanda de nutrientes nos pontos amostrados.

Definida a forma de aplicação, a seleção do fertilizante a ser aplicado deverá seguir critérios quanto a sua uniformidade e estabilidade, para se terem confiança e controle durante o processo de aplicação. Para isso, o equipamento utilizado deverá ser capaz de distribuir a dosagem do fertilizante conforme o desejado, sendo cuidadosamente calibrado para entregar o que se espera em cada tempo e local.


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Por fim, um bom sistema de monitoramento da aplicação, com o acompanhamento em tempo real, traz a segurança de que a operação está ocorrendo conforme o planejado. No entanto, é importante realizar um planejamento prévio de como será a aplicação. A elaboração de procedimentos operacionais internos, com o treinamento do pessoal envolvido, pode trazer grandes incrementos de produtividade no processo.

Assim, desde a etapa de estocagem de um produto, a verificação prévia da meteorologia para o dia da aplicação, a preparação da equipe, o carregamento do equipamento aplicador a sua calibração, até a aplicação propriamente dita, tudo isso deve seguir um planejamento logístico e gerencial.

Tanto as aplicações de sólidos quanto de líquidos estão sujeitas às perdas de naturezas diversas. Durante o processo de aplicação, a ocorrência de ventos intensos, por exemplo, pode deslocar as partículas de sua trajetória, carregando consigo parte do investimento no fertilizante e no processo de aplicação para fora da área de trabalho.

Com isso, naturalmente a resposta do cultivo à fertilização estará comprometida, além do risco de contaminação de áreas vizinhas. Para a aplicação de fertilizantes por via líquida, o risco de perdas se agrava. Considerando que os fertilizantes foliares são geralmente aplicados em conjunto com formulações de produtos fitossanitários, alguns cuidados devem ser tomados para que se mantenha a sua efetividade.

Estes cuidados vão desde o preparo da calda – quando se deve respeitar a ordem de adição dos produtos ao tanque, de modo a evitar a incompatibilidade físico-química entre os produtos – até a concentração destes produtos em relação à água, tal que a calda fique homogênea para a aplicação e não apresente formação de aglomerados ou separação de fases.

Além disso, a existência de um bom sistema de uniformização nos reservatórios dos equipamentos utilizados para preparação, transporte e aplicação das caldas é indispensável para manter a concentração constante, desde o momento do preparo até o fim da aplicação.

Apesar de todas as cautelas, falhas na aplicação de fertilizantes líquidos têm sido constantemente relatadas no campo. Uma das ocorrências mais frequentes é o entupimento de filtros e bicos dos aplicadores. Isso possivelmente se deve à instabilidade da calda nos tanques, o que faz com que o produto se aglomere nos pontos de filtragem a ponto de impedir a passagem da calda.

Vale ressaltar que, nesta situação, a concentração da calda está muito heterogênea e, mesmo que a proporção de produto adicionado no tanque esteja no índice esperado, a quantidade que de fato está sendo aplicada possivelmente esteja ora sendo mais, ora sendo menos que a desejada.

Isso se agrava quando o produto realmente entope o filtro. Nesta situação, boa parte da calda que saiu do equipamento até o momento da “limpeza” carregou uma quantidade de produto diferente da concentração esperada. No processo de “limpeza” do filtro é retirada outra parcela do fertilizante, comumente descartada, o que significa descartar o produto que foi comprado com a finalidade de promover o desenvolvimento da cultura.

Novamente se reforça a necessidade de adequações no procedimento de aplicação para se manter a uniformidade da calda até o total esvaziamento do tanque do pulverizador. A regra para a elaboração desse procedimento é semelhante ao próprio conceito da agricultura de precisão. Ou seja, deve-se respeitar a variabilidade. Para cada cultura, clima, qualidade de água e conjunto de produtos a ser utilizado deverá haver uma combinação adequada de procedimentos.

Sendo assim, uma aplicação de fertilizantes na cultura da uva na Região Sul do Brasil poderá requerer quantidades de água no tanque e uma sequência de introdução do fertilizante e do produto fitossanitário, quanto for o caso, diferente de uma aplicação também para a cultura da uva, mas no Nordeste brasileiro. Pré-testes de misturas, em pequena escala, podem evitar incompatibilidades causadas por erros na adição de produtos em tanques de grande capacidade volumétrica.

Para tanto, podem ser usados frascos transparentes para preparar as caldas nas concentrações desejadas e observar, visualmente, se as caldas se mantêm estáveis. Caso não se mantenham, deve-se alterar o procedimento de adição de água ou de produtos até se verificar a situação de estabilidade. Para esta avaliação, deve-se lembrar de usar os equipamentos de proteção individual apropriados.

Para a calibração dos equipamentos, devem-se considerar os métodos de amostragem. Nos casos de aplicação via líquida, o mais comum é a utilização de papéis hidrossensíveis, que são amarelos e ficam manchados de azul quando as gotas os interceptam por ocasião da aplicação.

Normalmente, as calibrações são realizadas em menos de trinta minutos e os resultados obtidos podem implicar tanto na adequada distribuição dos produtos sobre a cultura, quanto na diminuição das perdas por deriva.

Neste último caso de perdas, é importante selecionar a ponta de pulverização e pressão de trabalho que produza gotas de tamanho adequado. Visando à aplicação específica de fertilizantes foliares, possivelmente as gotas mais adequadas serão as classificadas como grossas a muito grossas, devido à natureza do fertilizante, que geralmente é absorvido pela planta e entra em seu fluxo fisiológico. Sendo assim, não é necessária uma cobertura
tão rica, conseguida por gotas menores, que são as mais suscetíveis à deriva e à evaporação.

Entretanto, novamente se reforça a variabilidade, sabendo-se que há produtos (formulações e nutrientes) menos móveis que requerem distribuição e cobertura mais ricas e, com isso, adequações no tamanho das gotas utilizadas.

Portanto, para a seleção da forma de aplicação do fertilizante, o fundamental será praticar a distribuição da quantidade necessária, de forma econômica, no local desejado. Se assim praticada, o esperado é o bom resultado em produtividade do cultivo, contribuindo para o melhor retorno financeiro da atividade.

Fonte: Abisolo

Texto originalmente publicado em:
Anuário Abisolo
Autor: Abisolo

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