O trabalho foi realizado com objetivo de avaliar o impacto de doses de gesso agrícola em solo com e sem aplicação de calcário sobre o gradiente de distribuição de enxofre e cálcio no perfil do solo aos 5 e 12 meses após a aplicação do gesso agrícola.

Autores: Analu Mantovani(1); Márcio Zilio(2); Tamara Pereira(3); Leandro Carrer(4); Fernanda Thais da Rosa(5); Jéssica Lúcia Silochi Pereira(6)

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

INTRODUÇÃO

A movimentação de nutrientes no perfil do solo é afetado principalmente pelo sistema de manejo, no entanto, o teor de argila também afeta está movimentação. A mobilidade de um cátion como o cálcio no perfil é influenciada pela aplicação de calcário, que depende de fatores, como neutralização das camadas, dose e tempo da aplicação (RHEINHEIMER et al. 2000).

Já a movimentação de ânions no solo como o enxofre (S-SO4-2) é favorecida pela sua capacidade de ligação com cátions, formando moléculas com carga nula, facilitando, assim, sua descida no perfil (CREMON et al. 2009). Quando o S-SO4-2 é aplicado na superfície do solo, a sua movimentação no perfil é favorecida pela sua capacidade de ligação com cátions, formando moléculas com carga nula, facilitando, assim, sua descida (CREMON et al. 2009). Em solos argilosos a sua movimentação no perfil se torna mais lenta, comparativamente a solos com menor quantidade de argila, devido aos teores elevados de óxidos de ferro que apresentam alta capacidade de retenção do ânion S-SO4-2 (OSÓRIO FILHO 2006).

Assim a utilização de gesso agrícola na superfície de solos argilosos pode ser uma alternativa para distribuição dos nutrientes no perfil, no entanto, o mesmo deve ser aplicado em solos com pH corrigido. Pois o pH do solo, interfere na energia de ligação dos grupos funcionais aos cátions metálicos estruturais dos argilominerais e óxidos do solo, e seu aumento causa sua desprotonação, dificultando e até impedindo a adsorção de sulfato (CASAGRANDE et al., 2003; GOLDBERG, 2010). Esse processo potencializa sua percolação no perfil do solo até mesmo em solos com alta quantidade de argila.

Desta forma, é importante verificar os efeitos da utilização de gesso na disponibilidade de enxofre e cálcio em profundidade. O trabalho foi realizado com objetivo de avaliar o impacto de doses de gesso agrícola em solo com e sem aplicação de calcário sobre o gradiente de distribuição de enxofre e cálcio no perfil do solo aos 5 e 12 meses após a aplicação do gesso agrícola.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido em área situada no município de Campos Novos, SC, localizada na coordenadas geográficas de 27º 24’ 06” S e 51º 13’ 30” W, com altitude de 934m. Clima da região, segundo a classificação climática de Köppen, é do tipo Cfa subtropical úmido.

O solo da área experimental é classificado como em um Nitossolo Vermelho Distrófico (Embrapa 2013), relevo pouco ondulado e textura argilosa. A área experimental é manejada em sistema de semeadura direta, sendo que a cultura anterior à implantação do experimento foi aveia preta.

Previamente à instalação do experimento foi realizada coleta de amostras de solo para a determinação dos atributos químicos nas camadas de 0 a 20 e de 20 a 40 cm (Tabela 1).

Tabela 1. Caracterização dos atributos químicos e do teor de argila do solo da área experimental antes da aplicação do calcário e do gesso.

O delineamento experimental utilizado foi o de blocos casualizados com 4 repetições, distribuídos na parcela principal (doses de gesso), com área de 30 me as parcelas subdivididas (com e sem calcário), com área de 15 m2. Nas subparcelas que receberam a aplicação de calcário a dose utilizada foi de 2.000 kg ha-1 aplicado no dia 02/10/2015, sem incorporação. As doses de gesso agrícola foram de 1.000, 2.000, 4.000 e 6.000 kg ha-1sem incorporação, aplicadas no dia 03/11/2015 (Tabela 2). Os tratamentos foram compostos da seguinte forma: T1 – Sem aplicação de gesso agrícola e sem de calcário; T2 – Somente calcário; T3 – Gesso agrícola 1000 kg ha-1; T4 – Gesso agrícola 1000 kg ha-1 + Calcário; T5 – Gesso agrícola 2000 kg ha-1; T6 – Gesso agrícola 2000 kg ha-1 + calcário; T7 – Gesso agrícola 4000 kg ha-1; T8 – Gesso agrícola 4000 kg ha-1 + calcário; T9 – Gesso agrícola 6000 kg ha-1 e T10 – Gesso agrícola 6000 kg ha-1 + calcário.

A coleta do solo foi realizada aos 5 meses após a aplicação dos tratamentos e do cultivo de soja e aos 12 meses após o cultivo do trigo. O solo foi coletado nas camadas de 0-20 e de 20-40cm de profundidade. Após as amostras secas e moídas foram determinados os teores de enxofre e cálcio, utilizando-se métodos descritos em Tedesco et al. (1995).

Os dados foram submetidos às análises de regressão. Na regressão usou-se como critério para escolha das equações os coeficientes de determinação significativos a 5%.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A regressão foi significativa para os teores de enxofre no solo nos dois períodos de coleta, nas duas camadas coletadas com e sem calcário nas doses crescentes de gesso no solo (Figura 1). Para os teores de cálcio a regressão foi significativa antes do cultivo na camada de 0 – 20 cm com calcário e na camada 20 – 40 cm sem calcário, já depois do cultivo a regressão foi significativa nas duas camadas avaliadas e com e sem calcário em relação as doses de gesso (Figura 2).

Figura 1. Teores de enxofre do solo antes e depois do cultivo do trigo nos perfis de 0-20 e 20-40 cm em área com e sem calcário e com doses de gesso aplicadas em superfície sem incorporação, 5 e 12 meses após aplicação dos tratamentos. *Significativo à 5% de probabilidade.

Figura 2. Teores de cálcio do solo antes e depois do cultivo do trigo nos perfis de 0-20 e 20-40 cm em área com e sem calcário e com doses de gesso aplicadas em superfície sem incorporação, 5 e 12 meses após aplicação dos tratamentos. *Significativo à 5%; ns não significativo.


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Aos 5 meses após a aplicação de gesso no solo os teores aumentaram com o aumento da dose de gesso, sendo maior na camada 0-20 cm. Os valores na dose de 6 t ha-1 na camada de 0 – 20 cm com calcário foi de 97 mg dm-3 e sem calcário de 99 mg dm-3. Já na camada 20 – 40 cm os teores no solo na dose de 6 t ha-1 foi de 80 mg dm-3 com calcário e de 70 mg dm-3 sem calcário (Figura 1). Rampim et. el. (2011) e e Basso et. al. (2015) também observaram valores mais elevados de enxofre nas doses mais altas na camada mais superficial do solo. No entanto, os teores nas duas camadas avaliadas são altos. Estes resultados condizem com os encontrados por Rampim et. al. (2013) que a adição de gesso acrescentou enxofre no solo nas camadas superficiais de 0-0,10 e 0,10- 0,20 m, e na camada subsuperficial de 0,20-0,40 m logo aos seis meses.

Valores maiores de enxofre principalmente na camada de 20 – 40 cm com a aplicação de calcário, está relacionado a maior quantidade de cálcio aplicado. Pois segundo Silva et al. (1997), o íon sulfato desce com facilidade, em profundidade no solo e este íon (S-SO-4), segundo Sousa et. al (2007) estava ligado principalmente pelo Ca2+ estar em maior teor no solo em função da aplicação do calcário.

Após o cultivo do trigo 12 meses depois da aplicação do gesso no solo os teores foram significativos na regressão relacionados as doses crescentes nas duas profundidades com e sem aplicação de calcário, no entanto, os teores diminuíram o dobro quando observados aos 5 meses após a aplicação do gesso (Figura 1). Mesmo em solos com teores de argila alto o íon sulfato é deslocado facilmente no perfil do solo, pois o ânion sulfato permanece quase que totalmente na solução do solo (DIAS et al., 1994).

O teor de cálcio no solo aos 5 meses da aplicação do gesso foi maior na camada de 0 – 20 cm quando comparada a camada de 20 – 40 cm, no entanto, teve aumento linear significativo na camada de 20 – 40 cm quando não foi aplicado calcário (Figura 2), isso possivelmente em função da mobilidade do cátion juntamente com o enxofre do gesso. Resultados estes também encontrados por Rampim et. al. (2011), onde o deslocamento de Ca2+ foi observado até a profundidade de 40 cm.

Já para os teores de cálcio as 12 meses após a aplicação de gesso nas doses crescentes teve efeito quadrático na profundidade de 0 -20 cm e linear na profundidade de 20 – 40 cm (Figura 2).

O aumento de cálcio na camada de 20 – 40 cm foi maior aos 12 meses quando comparado aos 5 meses após a aplicação de gesso (Figura 2). Este está relacionado a ligação do íon sulfato ao cálcio sendo deslocado no perfil do solo.

Mesmo observando incremento de cálcio no perfil do solo e o decréscimo elevado de enxofre nas duas camadas, o teor de cálcio permanece maior na camada de 0 – 20 cm quando comparada a 20 – 40 cm, depois de 12 meses após a aplicação do gesso, sendo que o íon sulfato não desloca apenas o cálcio e sim todos os cátions presentes na solução do solo.

CONCLUSÕES

A distribuição S-SO42- em profundidade no solo, com aplicação de gesso em superfície com e sem calagem, aumentou com o aumento das doses. Aos 5 meses após a aplicação do gesso o teor de S-SO42-  no solo foi maior comparando com aos 12 meses.

O teor de cálcio no solo também aumenta com o aumento das doses de gesso, no entanto, se mantem maior na camada de 0 – 20 cm de profundidade.

AGRADECIMENTOS: À Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC), com projeto aprovado para compra de materiais e equipamentos, ao Programa de Bolsas Universitárias de Santa Catarina – UNIEDU (Art. 170) pela concessão de bolsas, a UNOESC pelo apoio nas pesquisas e a equipe do laboratório de solos pela ajuda e suporte na condução dos experimentos.

REFERÊNCIAS

Basso CJ, Somavilla L, Silva RF, Santi AL. Intervenção mecânica e gesso agrícola para mitigar o gradiente vertical de cátions sob sistema de plantio direto. Pesq. Agropec. Trop., Goiânia, v. 45, n. 4, p. 456-463, out./dez. 2015.

Casagrande JC, Alleoni LRF, Camargo AO, Borges M. Adsorção de fosfato e sulfato em solos com cargas elétricas variáveis. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v.27, p.51- 57, 2003.

Cremon C, Rosa Júnior EJ, Serafim, ME, Ono FB. Análise micromorfométrica de agregados de um Latossolo Vermelho distroférrico em diferentes sistemas de manejo. Acta Scientiarum Agronomy, Maringá, v. 31, n. 1, p. 1399-146, 2009.

Comissão de Química e Fertilidade do Solo – CQFS RS/SC. Manual de calagem e adubação para os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. 11. ed. Porto Alegre, SBCS/NRS, 2016. 376 p.

Dias LE, Dias LE, Alvarez VVH, COSTA LM, NOVAIS RF. Dinâmica de algumas formas de enxofre em colunas de solos tratados com diferentes doses de fósforo e gesso. Revista Brasileira de Ciência de Solo, Campinas, v.18, p.373-380, 1994.

Goldberg S. Competitive Adsorption of Molybdenum in the Presence of Phosphorus or Sulfur on Gibbsite. Soil Science, v.175, p.105-110, 2010.

Osório-Filho BD. Dinâmica de enxofre no sistema solo e resposta das culturas à adubação sulfatada. 2006. 75 f. Dissertação (Mestrado em Ciência do Solo) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2006.

Rampim L, Lana MC, Frandoloso JF, Fontaniva S. Atributos químicos do solo e resposta do trigo e da soja ao gesso em semeadura direta. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 35, n. 5, p. 1687- 1698, 2011.

Rampim L, Lana MC, Frandoloso JF. Fósforo e enxofre disponível, alumínio trocável e fósforo remanescente em Latossolo vermelho submetido ao gesso cultivado com trigo e soja. Semina: Ciências Agrárias, Londrina, v. 34, n. 4, p. 1623-1638, jul./ago. 2013.

Rheinheimer DS, Santos EJS, Kaminski J, Bortoluzzi EC, Gatiboni LC. Alterações de atributos do solo pela calagem superficial e incorporada a partir de pastagem natural. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 24, n. 4, p. 797-805, 2000.

Silva NM, Van Raij B, Carvalho LH, Bataglia OC, Kondo JI. Efeitos do calcário e do gesso nas características químicas do solo e na cultura do algodão. Bragantia, Campinas, v. 56, n. 2, p.389-401, 1997.

Sousa DMG, Miranda LN, Oliveira SA. Acidez do solo e sua correção. In: Novais R F et al. Fertilidade do solo. Viçosa, MG: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2007. p.205-274.

Tedesco MJ, Gianello C, Bissani CA, Bohnen H, Volkweiss SJ. Análises de solo, plantas e outros materiais. 2a ed. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 1995. (Boletim técnico, 5).

Informações dos autores:

(1)Professora, Universidade do Oeste de Santa Catarina, SC 135, km 180, n° 2500, Campos Novos – SC;

(2) Professor; Universidade do Oeste de Santa Catarina;

(3) Professora; Universidade do Oeste de Santa Catarina;

(4) Estudante; Universidade do Oeste de Santa Catarina;

(5)Estudante; Universidade do Oeste de Santa Catarina;

(6)Técnica; Universidade do Oeste de Santa Catarina.

Disponível em: Anais da XII Reunião Sul-Brasileira de Ciência do Solo. Xanxerê – SC, Brasil.

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