No Brasil, a necessidade de calagem tem sido estimada por vários métodos. Nos solos do Cerrado são utilizados principalmente o método de saturação por bases, o qual consiste em elevar os valores de saturação por bases (V%) da CTC a pH 7,0, a valores desejados de acordo com a cultura de interesse, que na maioria dos casos é para 50% no sistema de sequeiro e o método da neutralização do alumínio trocável e da elevação dos teores de cálcio e de magnésio.

Embora haja preferência dos técnicos pelo método da saturação por bases, esse método tem aparentemente subestimado a quantidade ideal de calcário exigida pelas culturas, conforme apontam estudos.

Resultados de alguns trabalhos estão refletindo na opção do agricultor em usar menos calcário que o necessário, como:

  • O emprego de doses crescentes de calcário calcítico e dolomítico e estas não estarem atingindo o V% estimado pela equação, ficando muito aquém do realmente estipulado;
  • As pesquisas sobre calcário em sistema de plantio direto as quais recomendam não aplicar mais que 2,0 e 2,5 t ha-1em superfície para solo arenoso e argiloso, respectivamente, devido às possíveis deficiências de micronutrientes, decorrente da alcalinização da camada superficial;
  • A premissa de que a calagem no SPD deve ser feita com pequenas doses anuais, ao invés de altas doses a cada três ou quatro anos, como no sistema convencional. Nessa situação, muitos produtores preferem aplicar doses menores do que as que realmente deveriam a aplicar altas doses na superfície do solo, por acreditarem que um V% próximo a 50 é suficiente e para um cálculo maior, a dose pode passar do limite acima sugerido.

Os autores Professor Anderson Lange e o Mestrando Marlus Eduardo Chapla da Universidade Federal do Mato Grosso – Campus de Sinop realizaram uma pesquisa afim de avaliar o efeito da aplicação superficial de alta dose de calcário nas características químicas do solo e na produtividade de milho.

O experimento foi instalado em área de lavoura comercial, cultivada sob SPD há 15 anos, no município de Sinop – MT, em Latossolo Vermelho Distrófico. O clima da região é o Aw, caracterizado como tropical úmido com estação chuvosa no verão e seca no inverno, com precipitação média anual de 2.200 mm e temperatura média de 30 °C (Figura 1).


Figura 1. Precipitação durante a condução do estudo (setembro de 2014 a maio de 2017)

Antes da instalação do experimento, procedeu-se a amostragem da camada superficial do solo na camada de 0 a 20 cm para fins de avaliação da fertilidade o que diagnosticou as seguintes informações:

Os tratamentos foram dois calcários (calcítico: 46% de CaO, 3% de MgO, PRNT= 73%; dolomítico: 29% de CaO, 19% de MgO e PRNT= 75) e duas doses de calcário (1,7 e 5,1 t ha-1), aplicadas em superfície na safra 2014/2015, sem revolvimento. Em agosto de 2016, a área foi subsolada, por opção do produtor, devido à compactação do solo.

O calcário foi aplicado na superfície do solo em 13/08/2014 e nas safras 2014/2015, 2015/2016 e 2016/2017 utilizou-se o sistema soja/milho como culturas.

O solo foi amostrado aos 10 (dados não mostrados), 22 e 34 meses da aplicação (julho de 2016 e de 2017), na profundidade de 0-20 cm, com trado.



Os resultados apontam que na safra 2014/2015: No período de 10 meses após a calagem, não houve resposta tanto da soja como do milho em relação ao tipo de calcário nem a dose. Aos 10 meses, o V% da área que recebeu 1,7 t ha-1 foi de 37,7 e da área com 5,1 t ha-1 foi de 43,8 (dados não apresentados).

2016: Houve efeito dos calcários aplicados, com maiores teores de Ca, maior relação Ca/Mg e maior V% no solo para o calcário calcítico em relação ao dolomítico (Tabela 1) e maior teor de Mg no solo para o uso de calcário dolomítico. A produtividade não foi influenciada em relação aos calcários aplicados, e no tratamento com calcário calcítico a produtividade foi de 122,6 sc ha-1 e 117,7 sc ha-1 para o dolomítico. Um possível motivo do maior valor para o uso de calcítico por ser a melhor relação Ca/Mg no solo, que pode ser vista na Figura 2.

Tabela 1. Valores médios de atributos químicos do solo de amostras de solo e produtividade de milho submetidos a doses de calcário calcítico e dolomítico aplicados superficialmente em sistema de semeadura direta, Sinop – MT.

Safrinha de 2016 (milho): os teores de Ca no solo foram iguais na menor dose, independente do calcário, e superiores na maior dose para o calcítico (3,9 cmolc dm-3 de Ca) em relação ao dolomítico (3,4 cmolc dm-3de Ca). Para o teor de Mg no solo, para as duas doses houve superioridade para o uso do dolomítico.

A relação Ca/Mg foi superior para o calcário calcítico para as duas doses aplicadas (amostragem de 2016), elevando em ambas a relação para próximo de 3,5:1, o que é indicado pela literatura para cultivo de grandes culturas.

Para o V% e produtividade na safra 2016, na dose de 5,1 t ha-1 houve benefício para o uso de calcário calcítico, que resultou em maior V%, refletindo também em uma maior produtividade, com um ganho de 10 sacas por hectare em favor do uso de calcário calcítico (Tabela 1).

Figura 2. Correlações de Pearson entre a produtividade de grãos (considerando os resultados das safras 2015/2016 e 2016/2017, independente da dose ou fonte aplicada) e os teores no solo de cálcio (cmolc dm-3), de magnésio (cmolc dm-3) e de saturação por bases (V%).

2017: O V% foi influenciado, sendo superior para o calcário calcítico, em função do maior aporte de bases ao solo, especialmente para Ca. Destacando o calcário calcítico na maior dose, elevando o V% para aproximadamente 60% contra 53% para o dolomítico.

A produtividade não foi influenciada pelo tipo de calcário nem pela dose, e isso pode ter sido reflexo das boas condições climáticas da safra 2016/2017, com chuvas regulares e, e possível acúmulo de nutrientes no solo.

Quando a saturação por bases está baixa no solo e se requer uma dose de calcário elevada, próximo a 5,0 t ha-1, para um V% próximo a 70, esta pode ser aplicada em superfície, sem aparente prejuízo à cultura.

Confira o trabalho na íntegra, aqui.  

Adaptação: Daniela Moro – Equipe Mais Soja

Nenhum comentário

Deixar um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.