As condições de alta temperatura e baixa precipitação, especialmente na região Centro-Oeste, têm favorecido a ocorrência de mosca-branca em soja. Embora tratada como uma espécie única (Bemisia tabaci), trata-se na verdade de um conjunto de espécies morfologicamente indistinguíveis, mas com diferenças genéticas e comportamentais. No Brasil, ocorrem as espécies denominadas Mediterranean (MED), Middle East-Asia Minor 1 (MEAM1), New World (NW) e New World 2 (NW2), que também são descritas como biótipos Q, B e A, respectivamente. Para efeitos de manejo, a espécie predominante de mosca-branca em lavouras de soja do Brasil é a Bemisia tabaci MEAM1,  originária do Oriente Médio.

Bioecologia

Os adultos de mosca-branca medem cerca de 1,0 mm e possuem dorso de cor amarelada, com dois pares de asas membranosas de cor branca. A oviposição ocorre na face inferior dos folíolos mais jovens, no terço superior das plantas de soja. Os ovos têm formato alongado, medem 0,2 mm e permanecem presos à superfície foliar por uma estrutura chamada pedicelo, que também tem a função de absorver água. O período de ovo a adulto varia de 16 a 24 dias, podendo ocorrer três a quatro gerações por ciclo da cultura da soja.

Figura 1. Adulto (A) e ovos (B) de Bemisia tabaci.
Crédito das fotos: Henrique Pozebon.

O inseto passa por quatro ínstares ninfais. As ninfas de primeiro ínstar são transparentes, ovais e medem cerca de 0,3 mm, sendo capazes de se locomover por alguns minutos até localizar o ponto mais adequado no folíolo para se fixar, de acordo com suas exigências nutricionais. Já as ninfas de segundo, terceiro e quarto ínstar são imóveis, medindo de 0,4 a 0,5 mm. A ninfa de quarto ínstar é inicialmente achatada e translúcida, tornando-se gradualmente opaca até atingir uma cor amarelada semelhante à do adulto, com olhos vermelhos proeminentes.

Sintomas e danos

Diferentemente de outras pragas da soja, que ocorrem em determinadas fases de desenvolvimento das plantas, a mosca-branca pode infestar uma lavoura durante todo o ciclo da cultura. Além do dano direto por sucção de seiva, a mosca-branca excreta uma substância açucarada ao se alimentar, que serve como substrato para o desenvolvimento de fumagina. A proliferação desse fungo ocasiona redução da área fotossinteticamente ativa da planta, impactando diretamente na produção. Outro importante dano indireto associado à mosca-branca é a transmissão do vírus causador da necrose-da-haste, que pode resultar na morte de plantas.

Figura 2. Ciclo biológico de Bemisia tabaci e período crítico como praga (vermelho).
Crédito da figura: Tiago Colpo.

Recomenda-se monitorar os adultos de mosca-branca no terço superior das plantas de soja, avaliando a face inferior dos folíolos, no início da manhã ou final da tarde. Já as ninfas devem ser avaliadas em folíolos do terço médio e inferior do dossel das plantas, com auxílio de uma lupa de aumento. A contabilização dos ovos é inviável devido ao seu tamanho diminuto. O nível de controle foi estimado em 1,3 mosca-branca/trifólio (ninfa ou adulto), considerando um custo de controle de R$ 100,00/ha e valor de comercialização da soja de R$ 150,00/saca (PADILHA et al., 2021).

Medidas de controle

O manejo de mosca-branca é dificultado pela localização das ninfas na face inferior dos folíolos e no terço inferior das plantas, sendo raramente atingidas pelos jatos de inseticida. Assim, mesmo que o controle dos adultos seja eficaz, a população infestante rapidamente se reestabelece. A rotação de culturas também não apresenta resultados satisfatórios para o controle dessa praga, uma vez que Bemisia tabaci utiliza plantas de 36 gêneros diferentes como hospedeiras, incluindo espécies cultivadas e invasoras.

Figura 3. Distribuição típica de ninfas e adultos de Bemisia tabaci em folíolos de soja.
Crédito da figura: Tiago Colpo, adaptado de Pozebon et al (2019).

Atualmente há 17 inseticidas químicos registrados para o controle de mosca-branca no Brasil, sendo a maioria deles combinações de neonicotinoides com piretroides. Inseticidas mimetizadores do hormônio juvenil, como o espiromesifeno, também apresentam efeito satisfatório sobre as ninfas, principalmente se aplicados durante a fase vegetativa da cultura. Após o fechamento das entrelinhas, o controle das ninfas torna-se mais difícil devido à sua concentração no terço inferior do dossel, limitando as opções de manejo a inseticidas sistêmicos capazes de se translocar no interior das plantas.

Também existem 43 inseticidas biológicos registrados para o controle de mosca-branca no Brasil, sendo a maioria deles formulados à base dos fungos Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae e Paecilomyces fumosoroseus. O controle biológico também pode ser realizado por meio de insetos parasitoides, como Encarsia porteri, Encarsia formosa e Eretmocerus mundus, que ocorrem de forma endêmica no Brasil e realizam o parasitismo de ninfas de Bemisia tabaci em plantas de soja. Entretanto, esses parasitoides ainda não estão disponíveis comercialmente, limitando as opções de controle biológico aos fungos entomopatogênicos.

Sobre o autor: Henrique Pozebon, Engenheiro Agrônomo na Prefeitura Municipal de Santa Maria, Doutorando em Agronomia pela UFSM.



Referências:

GUEDES, J. C.; POZEBON, H.; ARNEMANN, J. A.; RUTHES, E.; PERINI, C. R. Pragas da Soja. Em: ROMERO, J. C. P. (Ed.) Manual de Entomologia Volume 1: Pragas das Culturas. 1ª Edição, 477 p. Editora Agronômica Ceres, Ouro Fino – MG, 2022.

PADILHA, G.; POZEBON, H.; PATIAS, L. S. et al. Damage assessment of Bemisia tabaci and economic injury level on soybean. Crop Protection, v. 143, p. 105542, maio 2021.

POZEBON, H.; CARGNELUTTI FILHO, A.; GUEDES, J. V. et al. Distribution of Bemisia tabaci within soybean plants and on individual leaflets. Entomologia Experimentalis et Applicata, v. 167, p. 396-405, jun. 2019.

MORO, D.; WENGRAT, A. P. G. D. S.; COSTA, V. A. et al. Integrative techniques confirms the presence of Bemisia tabaci parasitoids: Encarsia formosa, Encarsia porteri and Eretmocerus mundus (Hymenoptera: Aphelinidae) on soybean and tomatoes in south Brazil. Neotropical Entomology, v. 50, n. 4, p. 593-604, ago. 2021.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.