Uma semente apresenta algumas características qualitativas que muitas vezes um grão convencional não possui, sendo atributos genéticos, físicos, fisiológicos e sanitários. Quando se trata de produção de sementes, uma série de cuidados devem ser tomados durante e após o ciclo da cultura para garantir a presença desses atributos no produto final.

  • 1. Atributos genéticos: uma semente de qualidade deve apresentar pureza varietal, e representatividade do seu material genético. O objetivo aqui é que a semente produzida detenha de representatividade do material genético escolhido, além de não sofrer influência de outros materiais, sem conter misturas varietais.
  • 2. Atributos físicos: a semente deve ser livre de materiais inertes, impurezas e danos mecânicos. A ocorrência de danos mecânicos pode comprometer a qualidade da semente, uma vez que microfissuras, podem se tornar porta de entrada para patógenos, além de comprometer a estrutura da semente. Danos externos e internos das sementes devem ser avaliados a fim de atestar sua qualidade física.
  • 3. Atributos Fisiológicos: deve-se avaliar características como vigor e germinação de sementes. Esse atributo é importante pois reflete diretamente na capacidade de desenvolvimento da planta a campo, na uniformidade de estande e a velocidade de germinação.
  • 4. Atributos sanitários: a semente deve apresentar considerável nível de pureza, não contendo sementes de espécies daninhas, ser livre de doenças, patógenos e fungos que possam vir a prejudicar o estabelecimento das plantas.

A qualidade da semente é influenciada por diversos fatores bióticos a abióticos que devem ser trabalhados com atenção a fim de minimizar os danos ao produto final. Basicamente para melhor entendimento, dois momentos sãos responsáveis por influenciar na qualidade de grãos, sendo eles: o período em que a planta está no campo e o período de colheita, beneficiamento e armazenagem das sementes.

Em um primeiro momento, quando a planta se encontra em um ambiente externo, deve-se atentar para práticas de manejo que garantam a qualidade das sementes, como por exemplo o uso de material genético de qualidade, controle de pragas e plantas daninhas, nutrição de plantas, entre outros.

O controle de pragas e plantas daninhas é fundamental para garantir a qualidade das sementes. Segundo KRZYZANOWSKI et. al, (2018), o percevejo é o principal inseto causar danos á sementes de soja. Ao picá-la, ele injeta enzimas salivares na semente e inocula a levedura Nematospora coryli, que pode estar associada a fungos saprófitas, como Alternaria spp. e Fusarium spp., resultando em necroses nas regiões afetadas. (Figura 1).

 Figura 1. Semente de soja com punctura causada por percevejo.

Adaptado: BELORTE et. al, (2003).

Em um segundo momento, deve-se ter cuidado com a manutenção da qualidade da semente produzida a campo. É importante ressaltar que esse cuidado deve ser tomado antes mesmo do momento de colheita, onde a avaliação dos teores de umidade é fundamental para a realização da prática.

No momento da colheita, é importante se certificar que as bordaduras serão desprezadas da colheita de sementes. Não é recomendado o uso de graneleiros de transbordo que possuam rosca sem fim como sistema de descarga, este sistema pode causar danos físicos à semente. Outro cuidado importante a ser tomado é quanto a umidade das sementes, o processo de hidratação e desidratação da semente ao longo do tempo pode causar microfissuras no tegumento da semente, decorrentes do enrugamento do tegumento, tornando-se porta de entrada para patógenos e afetando a qualidade das sementes.

  • 1.1. Pureza varietal

Para comercialização de sementes, a legislação brasileira exige os testes de germinação das sementes, pureza física e varietal. A pureza varietal garante a qualidade genética da semente, considerando que não é permitida a mistura varietal.

É avaliada com base em caracteres morfológicos associados a semente, como tamanho médio, formato, coloração do tegumento, formato e cor do hilo, e alguns outros caracteres que podem ser influenciados pelo ambiente SCHUSTER et. al, (2004). Desta forma, é possível garantir que a cultivar produzida mantem as características genéticas do material desejado.

2.1. Pureza Física

A análise de pureza física visa garantir ao consumidor o conhecimento da quantidade de material inerte e outras sementes contidas no lote. A análise é realizada a partir de amostras de serviço oriundas de um lote de sementes, as amostras devem seguir as orientações e especificações da Regra para Análise de Sementes (RAS), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e se enquadrar na Instrução Normativa MAPA 40/2010.

A pureza física das sementes pode ser influenciada pelo manejo da cultura no campo, o correto manejo de plantas daninhas e um adequado sistema de trilha e separação da colhedora pode aumentar a qualidade das sementes em virtude da diminuição de materiais inertes e outras sementes.

2.2. Umidade

Sendo um dos fatores determinantes para garantir a qualidade das sementes, a umidade está relacionada a danos por deterioração da semente. Segundo FRANÇA-NETO et. al, (2016), os danos por umidade são decorrentes da variação do teor de umidade das sementes, essa variação é consequência dos processos de hidratação e desidratação das sementes. A variação de umidade pode ser oriunda da influência de chuvas, neblinas e orvalho, tendo maior consequência quando relacionadas a altas temperaturas do ar. O sucessivo ciclo de hidratação e desidratação das sementes pode causar rugas no tegumento (casca), deixando as sementes com aspecto de enrugadas.

De acordo com FRANÇA-NETO et. al, (2007) a deterioração por umidade ocorre após a maturação fisiológica, antes da colheita e é um dos fatores que mais afetam a qualidade das sementes. Os dados por umidade podem ser visualizados a partir do teste de tetrazólio, onde é possível visualizar a olho nu a deterioração das sementes de soja (figura 2).

Figura 2. Dano decorrente da deterioração por umidade em sementes de soja, visualizado por meio do teste de Tetrazólio.

Foto: José de Barros França-Neto.

Avaliando três lotes de uma cultivar de soja, FORTI et. al, (2010) verificou que um dos lotes apresentou perda significativa na germinação das sementes com o aumento do tempo de armazenamento em virtude da deterioração por umidade. A deterioração das sementes por umidade pode interferir drasticamente em parâmetros fundamentais da qualidade das sementes como a germinação e vigor, prejudicando a uniformidade do estande de plantas e consequentemente a qualidade da lavoura.

2.3. Dano mecânico

Sementes sem danos mecânicos são fundamentais para garantir a qualidade e viabilidade das sementes. Um dano mecânico pode ser originário de processos físicos como a hidratação e desidratação do tegumento, causando rupturas no mesmo e comprometendo a sanidade e viabilidade das sementes (figura 3), ou podem ser oriundos de práticas de manejo como colheita e transbordo das sementes.

Figura 3. Ruptura no tegumento de semente de soja.

Adaptado: FLOR et. al, (2004).

Quando relacionados a práticas de manejo, o dano mecânico mais comum é a quebra da semente. Esse dano pode ser consequente de fatores como a inadequada umidade das sementes no momento da colheita (baixa umidade), sistemas de trilha inadequados ou mal regulados, uso de sistemas de caracol (rosca sem fim) para descarga das sementes, formas de transbordo inadequadas, entre outros.

2.4. Peso de mil sementes

O peso de mil sementes é uma característica de origem genética que pode influenciar na produtividade e qualidade das sementes produzidas. Sementes com maior tamanho tendem a apresentar maior reserva nutricional para utilização no período inicial de estabelecimento da cultura, no entanto, necessitam de maiores quantidades de água para dar início ao processo de germinação. Para valores mais usuais de sementes de soja, classificadas em peneira 5,5 mm a 6,5mm, CAMOZZATO et. al, (2009) não encontrou diferença significativa na produtividade. Ou seja, nesse sentido a atenção deve ser voltada à qualidade final das sementes produzidas, optando por sementes que possibilitem melhor uniformidade de estande e qualidade da lavoura.

Na produção de sementes, a uniformidade do peso de mil sementes nos lotes produzidos é importante para assegurar a qualidade do material genético, visto que esta característica tem maior influência genética; as sementes produzidas tendem a produzir mínima variação no peso de mil sementes, podendo o peso de mil sementes ser utilizado para caracterizar a cultivar.


Veja também: Peso de mil grãos da soja com o uso de sementes enriquecidas e tratadas com Cobalto e Molibdênio.


3.1. Germinação e Vigor

Quando se busca produzir sementes de qualidade, a boa germinação das sementes, assim como o vigor, são uns dos principais atributos visados. Pode-se dizer que a germinação aliada ao vigor são os principais responsáveis pela uniformidade do estande de plantas e conformidade da população de plantas.

 A taxa de germinação está relacionada a porcentagem de sementes que possuem a capacidade de iniciar o processo de formação de uma plântula (germinação). De modo geral, busca-se sementes com o máximo de germinação possível. A germinação é um dos parâmetros a ser levado em consideração na aquisição de sementes, sendo reflexo de uma produção de sementes de qualidade, aliada a um bom material genético.

Ainda não se tem um conceito concreto quanto ao vigor de sementes, mas de forma facilitada ao entendimento, o vigor está relacionado a velocidade e uniformidade de germinação das sementes. O vigor pode ser influenciado pela deterioração das sementes, sendo diminuído à medida que a deterioração aumenta, dessa forma, o correto manejo de colheita e pós colheita é fundamental para evitar a perda do vigor.

4.1. Ausência de patógenos e insetos

 Sendo um dos atributos de qualidade das sementes mais ligados ao manejo da cultura, a sanidade das sementes está relacionada a boas práticas de manejo e cuidados com a cultura, cuidados estes que vão desde a semeadura até o beneficiamento e armazenagem das sementes. A sanidade das sementes influencia na sanidade da planta e consequentemente no bom desenvolvimento inicial da cultura.

Sementes com boa sanidade devem ser ausentes de patógenos causadores de doenças fúngicas e virais, ausentes de insetos, ovos ou larvas de possíveis insetos infestantes. A sanidade é vista como um atributo a ser utilizado juntamente com teste de vigor e germinação para classificar a qualidade das sementes.

Se tratando de qualidade de sementes, vários são os cuidados a serem tomados para sua garantia, é importante atentar para a escolha do material genético, área de cultivo e práticas de manejo, sendo necessários cuidados da semeadura da cultura á entrega do produto final.


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Referências:

BELORTE et. al, DANOS CAUSADOS POR PERCEVEJOS (HEMIPTERA: PENTATOMIDAE) EM CINCO CULTIVARES DE SOJA (GLYCINE MAX (L.) MERRILL, 1917) NO MUNICÍPIO DE ARAÇATUBA, SP. Arq. Inst. Biol., São Paulo, v.70, n.2, p.169-175, jun., 2003.

BRASIL. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. REGRAS PARA ANÁLISE DE SEMENTES / MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Secretaria de Defesa Agropecuária. – Brasília : Mapa/ACS, 2009. 399 p.

CAMOZZATO et. al, DESEMPENHO DE CULTIVARES DE SOJA EM FUNÇÃO DO TAMANHO DAS SEMENTES. Revista Brasileira de Sementes, vol. 31, nº 1, p.288-292, 2009.

FLOR et. al, AVALIAÇÃO DE DANOS MECÂNICOS EM SMENTES DE SOJA POR MEIO DA ANÁLISE DE IMAGENS. Revista Brasileira de Sementes, vol. 26, nº1, p.68-76, 2004.

FORTI et. al, AVALIAÇÃO DA EVOLUÇÃO DE DANOS POR “UMIDADE” E REDUÇÃO DO VIGOR EM SEMENTES DE SOJA, CULTIVAR TMG113-RR, DURANTE O ARMAZENAMENTO, UTILIZANDO IMAGENS DE RAIO X E TESTES DE POTENCIAL FISIOLÓGICO. Revista Brasileira de Sementes, vol. 32, nº 3 p. 123-133, 2010.

FRANÇA-NETO et. al, TECNOLOGIA DA PRODUÇÃO DE SEMENTES DE SOJA DE ALTA QUALIDADE. EMBRAPA, Londrina, PR, Documentos, n.380, nov., 2016.

FRANÇA-NETO et. al, TECNOLOGIA DA PRODUÇÃO DE SEMENTES DE SOJA DE ALTA QUALIDADE – SÉRIE SEMENTES. EMBRAPA, Londrina, PR, Circular Técnica n.40, mar., 2007.

KRZYZANOWSKI et. al, A alta qualidade de semente de soja: fator importante para a produção da cultura., EMBRAPA, Londrina, PR, Circular Técnica n.136, mai., 2018.

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO, Instrução Normativa MAPA 40/2010, mai., 2018.

SCHUSTER et. al, DETERMINAÇÃO DA PUREZA VARIETAL DE SEMENTES DE SOJA COM O AUXÍLIO DE MARCADORES MOLECULARES MUCROSSATÉLITES. Pesq. agropec. bras., Brasília, v.39, n.3, p.247-253, mar. 2004.

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