Por Dr. Argemiro Luís Brum
A cotação do trigo, para o primeiro mês cotado, continuou muito fraca neste final de agosto, flertando com valores ao redor de US$ 5,00/bushel. Todavia, na quinta-feira (28) houve pequena reação, com o fechamento atingindo a US$ 5,10/bushel, contra US$ 5,07 uma semana antes.
Um dos motivos é o bom andamento da colheita de trigo nos EUA. Até o dia 24/08 a mesma, para o trigo de inverno, atingia a 98% da área semeada. Já o trigo de primavera estava colhido em 53% da área, contra 54% na média histórica para a data.
Enquanto isso, na Rússia, os preços de exportação do trigo, com teor de proteína de 12,5%, para entrega FOB na segunda metade de setembro, chegaram a US$ 235,00/tonelada no final da semana anterior, com um recuo de US$ 3,50/tonelada. Dito isso, analistas elevaram as exportações de trigo russo, em agosto, para algo entre 3,5 e 4 milhões de toneladas (cf. IKAR e Sovecon). A Rússia já teria colhido mais de 64 milhões de toneladas de trigo até o momento.
E na Austrália espera-se uma colheita, na próxima safra, entre 32 e 35 milhões de toneladas de trigo. Tal volume ficaria bem acima da média de 10 anos naquele país, a qual é de 27,6 milhões de toneladas. Com isso, haverá mais trigo no mercado mundial, em um momento em que os preços internacionais estão baixos e Chicago se aproxima do menor nível desde 2020. Os australianos consideram que, passado o mês de setembro sem problemas climáticos, a safra de trigo local continuará a crescer até a colheita, a qual inicia em outubro (cf. Reuters).
E no Brasil, os preços do trigo continuam sob pressão baixista, às vésperas do início da colheita nacional. As principais praças gaúchas mantiveram-se em R$ 70,00/saco, para o produto de qualidade superior, enquanto no Paraná o produto se fixou em R$ 75,00/saco. A colheita paranaense iniciou lentamente, tendo atingido a 2% da área total nesta semana, segundo o Deral. Por enquanto, espera-se uma boa produção, apesar de problemas climáticos regionalizados. A mesma está calculada em 2,6 milhões de toneladas, colhidas sobre 832.800 hectares (-26,3% sobre o ano anterior). É natural esperar que, a partir da intensificação da colheita, o preço nacional do trigo recue ainda mais, apesar de uma safra final menor neste ano.
O mês de agosto fecha com o mercado de trigo em ritmo lento no Sul do país. No Rio Grande do Sul, os moinhos seguem abastecidos, mas a oferta do cereal é baixa, o que limita as transações. As indicações de compra giram em torno de R$ 1.250,00 no interior, enquanto os vendedores pedem R$ 1.300,00/tonelada. A previsão é de que os estoques da safra passada se esgotem até setembro, ficando sob controle dos moinhos. Cerca de 90.000 toneladas já foram negociadas da nova safra, mas o atraso da colheita tem limitado os avanços. Para exportação, o preço de dezembro foi fixado em R$ 1.250,00, com possibilidade de entrega de trigo para ração com deságio de 20%.
Em Santa Catarina, o mercado também apresenta lentidão, sem registros de negócios relevantes da nova safra. Apenas pequenos lotes têm sido negociados, sem impacto significativo nos preços. A concorrência com o trigo gaúcho tem pressionado as cotações naquele estado, enquanto o produto importado, via Paranaguá, continua mais competitivo que o paranaense. E no Paraná, onde 83% das lavouras estavam em condição consideradas boas nesta semana, o mercado livre segue travado. Os preços recuaram para R$ 1.400,00/tonelada CIF, enquanto negociações futuras giram em torno de R$ 1.300,00 CIF. Do lado dos produtores, o pedido é de R$ 1.500,00/tonelada FOB, valor que encontra resistência dos compradores.
O trigo paraguaio foi ofertado no Oeste paranaense a US$ 240,00/tonelada, equivalente a R$ 1.312,80 no câmbio atual, enquanto o argentino, para retirada em Antonina em setembro, esteve cotado a US$ 270,00/tonelada. Os preços pagos aos produtores, na semana, acabaram reduzindo a margem média de lucro para 3,5%.
Enfim, destaca-se que pesquisas feitas pela Embrapa Agropecuária Oeste e a cooperativa Cooperalfa, com sede em Chapecó (SC), nas regiões do Cerrado brasileiro no Mato Grosso do Sul, nos últimos três anos (2022 a 2024), período em que a região enfrentou temperaturas mais elevadas e clima mais seco que a média, apontaram os seguintes resultados: em 2022, a produtividade variou de 34 a 69 sacos/ha; em 2023, de 29 a 49 sacos/ha; e em 2024, de 51 a 88 sacos/ha. Segundo o estudo há cultivares com potencial para 4.000 a 5.000 quilos/ha, enquanto a atual média no Mato Grosso do Sul é de 3.000 quilos.
Fonte: Informativo CEEMA UNIJUÍ, do prof. Dr. Argemiro Luís Brum¹
1 – Professor Titular do PPGDR da UNIJUÍ, doutor em Economia Internacional pela EHESS de Paris-França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA (FIDENE/UNIJUÍ).