As plantas de cobertura são inseridas no sistema de produção agrícola pelos benefícios proporcionados por elas, contribuindo para a proteção do solo, aumento da produtividade das culturas sucessoras e sustentabilidade dos cultivos agrícolas. Conforme observado por Wolschick et al. (2016), algumas plantas de cobertura possuem a capacidade de cobrir até 100% da superfície do solo (figura 1). A boa cobertura do solo reduz sua degradação por erosões superficiais, além de contribuir para a redução dos fluxos de emergência de plantas daninhas fotoblásticas positivas, sendo assim, uma importante ferramenta no manejo e controle de plantas daninhas.

Figura 1. Cobertura do solo pelo dossel vegetativo (%) em função dos dias após a emergência, em diferentes tratamentos.

As barras verticais representam a diferença mínima significativa das médias dos tratamentos em cada época de avaliação, pelo teste de Tukey (p<0,05). Fonte: Wolschick et al. (2016)

Além auxiliar no controle de manejo de plantas daninhas, algumas culturas de cobertura apresentam aptidão para uso no manejo integrado de nematoides, reduzindo o fator de reprodução dessas pragas. Embora esse comportamento possa variar em função da espécie de nematoide e da planta de cobertura, algumas culturas a exemplo de espécies de crotalária, braquiária e milheto auxiliam significativamente no manejo de nematoides.

Essas culturas são consideradas más hospedeiras de algumas espécies de nematoides, o que dificulta a sobrevivência da praga nos períodos entressafra das culturas principais.

Tabela 1. Culturas para formação de palhada no SPD e efeitos sobre os fitonematoides*

* Verde escuro mostra que a cultura não é hospedeira, reduzindo, portanto, a população do nematoide; branco indica que a cultura é boa hospedeira e aumenta a população do nematoide; verde claro é utilizada para coberturas que são más hospedeiras ou que apresentam respostas variáveis (varia de cultivar para cultivar) Fonte: Inomoto & Asmus (2009), adaptado de Asmus (2009).

Tabela 2. Culturas de verão para rotação de cultura e seu efeito sobre os fitonematoides*

*Verde escuro mostra que a cultura não é hospedeira, reduzindo, portanto, a população do nematoide; branco indica que a cultura é boa hospedeira e aumenta a população do nematoide; verde claro é utilizada para coberturas que são más hospedeiras ou que apresentam respostas variáveis (varia de cultivar para cultivar) Fonte: Inomoto & Asmus (2009), adaptado de Asmus (2009).

Atrelado a interessante contribuição no manejo de nematoides fitopatogênicos, algumas culturas de cobertura se destacam por ciclar nutrientes no solo, os disponibilidade posteriormente para a cultura sucessora, após decomposição e mineralização dos resíduos culturais. Conforme observado por Wolschick et al. (2016), o acúmulo de nutrientes em plantas de cobertura ocorre tanto na parte aérea das plantas quando nas raízes, contribuindo também, para a melhoria dos teores de matéria orgânica do solo.



Com base no avaliado por Wolschick et al. (2016), culturas como a ervilhaca podem acumular em sua parte aérea, valores superiores a 250 kg ha-1 de Nitrogênio (N); 350 kg ha-1 de Potássio (K) e 30 kg ha-1 de Fósforo (P), macronutrientes tradicionais trabalhados na agricultura.

Tabela 3. Acúmulo (kg ha-1) de nutrientes na parte aérea e nas raízes de diferentes plantas de cobertura.

Médias seguidas pela mesma letra na coluna não diferem entre si pelo teste de Tukey (p<0,05). *Consórcio formado por aveia preta, nabo forrageiro e ervilhaca comum Adaptado: Wolschick et al. (2016)

Cabe destacar que a velocidade de disponibilização e liberação dos nutrientes dos resíduos culturas para a solução do solo depende da relação C/N da cultura entre outros fatores, sendo que quando menor a relação C/N, mais rápida é a degradação dos resíduos culturas e liberação dos nutrientes. Dentre os macronutrientes mais requeridos pela cultura da soja, destacam-se o N e o K.

Segundo Bortolini et al. (2019), algumas culturas de cobertura apresentem grande capacidade em acumular potássio e posteriormente libera-lo para a cultura sucessora (figura 2). Além do K, o N é muito requerido pela cultura da soja. Embora praticamente todo esse nutriente possa ser suprido por meio a fixação biológica de nitrogênio na soja, pensando em culturas que não possuem a capacidade de realizar essa simbiose, o posicionamento de culturas de cobertura pode contribuir significativamente para o aumento da produtividade da cultura sucessora.

Figura 2. Potássio liberado de resíduos de plantas de diferentes plantas de cobertura.

Fonte: Bertolini et al. (2019)

De maneira geral, as Fabaceae (leguminosas) apresentam maior capacidade em acumular o nitrogênio quando comparadas a gramíneas (figura 3). Dessa forma, o posicionamento de culturas de cobertura e a ciclagem de nutrientes realizada por elas, pode contribuir significativamente para o aumento da produtividade de culturas produtoras de grãos.

Figura 3. Quantidade de Nitrogênio fixado por leguminosas.

* Cálculo referente a dois terços do nitrogênio encontrado na parte aérea das leguminosas acima. Fonte: Piraí Sementes (2005), Apud. Carlos; Costa; Costa (2006)

Conforme observado por Kochhann et al. (2003), o cultivo do trigo em sucessão ao nabo-forrageiro (conhecida planta de cobertura, especialmente no Sul do Brasil), possibilitou significativo incremento de produtividade dos grãos. Segundo Carvalho et al. (2022), a decomposição da palhada do nabo forrageiro fornece, em média 63,5 kg ha-1 de N, 4,5 kg ha-1 de P e 78,5 kg ha-1 de K.

Figura 4. Rendimento de grãos de trigo, com e sem nabo forrageiro como cultura intercalar às culturas de milho-grão e de trigo, em Independência, em 2000.

Fonte: Kochhann et al. (2003)

O incremento de produtividade em função do cultivo em sucessão a plantas de cobertura também foi observado por Caetano et al. (2018) para a cultura da soja. Conforme relatado pelos autores, incrementos de produtividade de quase 14% em comparação a testemunha puderam ser observados na soja cultivada após ervilha-forrageira e aveia preta + nabo-forrageiro.

Tabela 4. Resultados médios para componentes de produção e rendimento da soja (safra 2016/2017) após cultivo sob diferentes plantas de cobertura no inverno.

Adaptado: Caetano et al. (2018)

Levando em consideração os benefícios proporcionados pelo cultivo de plantas de cobertura, e os danos ocasionados por nematoides fitopatogênicos em culturas agrícolas, o cultivo de plantas de cobertura pode ser considerado uma importante estratégia para o manejo dessas pragas, sem abrir mão da boa produtividade das culturas principais. Sendo assim, a inserção de plantas de cobertura no sistema de rotação de culturas passa a ser essencial em sistemas de produção agrícola, especialmente em áreas que apresentam problemas com nematoides, aconselhando-se o cultivo de plantas não hospedeiras de nematoides nessas áreas.


Veja mais: Nabo forrageiro é interessante opção de cultivo para o vazio outonal


Referências:

BERTOLINI, A. et al. COBERTURA DE SOLO E TAXA DE CICLAGEM DE NUTRIENTES EM PLANTAS DE COBERTURA DE VERÃO NO OESTE DE SANTA CATARINA. Unoesc & Ciência – ACET Joaçaba, v. 10, n. 2, p. 83-92, jul./dez. 2019. Disponível em: < https://portalperiodicos.unoesc.edu.br/acet/article/view/20767/14466 >, acesso em: 12/05/2022.

CAETANO, J. H. S. et al. PRODUTIVIDADE DA SOJA EM SUCESSÃO A PLANTAS DE COBERTURA. XII Reunião Sul Brasileira de Ciência do Solo, 2018. Disponível em: < http://www.sbcs-nrs.org.br/rsbcs/docs/trab-6-2058-755.pdf >, acesso em: 12/05/2022.

CARLOS, J. A. D.; COSTA, J. A.; COSTA, M. B. ADUBAÇÃO VERDE: DO CONCEITO À PRÁTICA. Série Produtor Rural – nº 30, Piracicaba, 2006. Disponível em: < https://ciorganicos.com.br/wp-content/uploads/2017/10/Adubacao-Verde-do-conceito-a-pratica-USP-CI-Organicos-OrganicsNet.pdf >, acesso em: 12/05/2022.

CARVALHO, M. L. et al. GUIA PRÁTICO DE PLANTAS DE COBERTURA: ASPECTOS FILOTÉCNICOS E IMPACTOS SOBRE A SAÚDE DO SOLO. ESALQ-USP, 2022. Disponível em: < http://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/782 >, acesso em: 12/05/2022.

INOMOTO, M. M.; ASMUS, G. L. CULTURAS DE COBERTURA E DE ROTAÇÃO DEVEM SER PLANTAS NÃO HOSPEDEIRAS DE NEMATÓIDES. Visão Agrícola, nº9, 2009. Disponível em: < https://www.esalq.usp.br/visaoagricola/sites/default/files/VA9-Protecao04.pdf >, acesso em: 12/05/2022.

KOCHHANN, R. A. et al. RENDIMENTO DE GRÃOS DE TRIGO CULTIVADO EM SEQUÊNCIA AO ADUBO VERDE NABO FORRAGEIRO. Embrapa, Circular Técnica, n. 116, 2003. Disponível em: < http://www.cnpt.embrapa.br/biblio/co/p_co116.pdf >, acesso em: 12/05/2022.

WOLSCHICK, N. H. et al. COBERTURA DO SOLO, PRODUÇÃO DE BIOMASSA E ACÚMULO DE NUTRIENTES POR PLANTAS DE COBERTURA. Revista de Ciências Agroveterinárias, Lages, v.15, n.2, p.134-143, 2016. Disponível em: < https://revistas.udesc.br/index.php/agroveterinaria/article/download/223811711522016134/pdf_32/25737#:~:text=O%20uso%20de%20plantas%20de,destacam%2Dse%20EC%20e%20CE. >, acesso em: 12/05/2022.

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1 COMENTÁRIO

  1. Estamos usando mix de coberturas pré milho (nos demais períodos são plantas comerciais). Entretanto estes mix (aveias-centeio-nabo-ervilhaca) estão, ao que tudo indica, trazendo pragas como a lagarta do cartucho no milho e percevejos. Bueno, a cobertura solteira tras menos benefícios, porém o mix mais dor de cabeça. O que vcs sugerem?

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