O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é um tema que vem ganhando cada vez mais força no meio rural em virtude dos benefícios na eficiência de controle e, dependendo do caso, economia na aplicação de defensivos agrícolas. Esse sistema considera todas as ferramentas disponíveis para o controle e busca integrá-las de maneira que o nível populacional de um inseto-praga se mantenha abaixo do nível de dano econômico, ambiental e ecológico.
Nesse contexto, o MIP trabalha com diferentes ferramentas de manejo, tais como: controle cultural, biológico, comportamental, genético, varietal e químico. Além disso, tem como base quatro fatores a serem considerados, sendo eles: agroecossistema, nível de controle, monitoramento e taxonomia/bioecologia (Figura 1).
Figura 1 Pilares do manejo integrado de pragas.
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Muitas vezes, a injúria provocada pelo inseto nas plantas não acarreta em redução significativa na produtividade da cultura. Logo, a tomada de decisão para adoção de medidas de controle depende da densidade populacional e da injúria causada na planta. Além disso, certas culturas agrícolas conseguem tolerar um nível significativo de injúria devido à sua capacidade intrínseca de tolerância e compensação (Bueno et al., 2010).
Considerando um ambiente sob condições climáticas estáveis, existe um nível de equilíbrio para cada população de insetos, podendo se manter no ambiente por um longo período de tempo com a mesma densidade populacional média. Para que essa população passe a ser considerada uma praga, é necessário que ocorra uma rápida multiplicação em um curto espaço de tempo, atingindo níveis de dano econômico à cultura. Desse modo, medidas de controle devem ser tomadas assim que a população de insetos tornar-se capaz de ocasionar perdas na produção iguais ou maiores do que o custo de controle. Em outras palavras, se a praga for controlada quando estiver abaixo do nível de controle, não causará danos econômicos à lavoura (Figura 2).
Figura 2. Nível de dano, de controle e de equilíbrio de uma população de insetos.
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Somado a isso, é preciso levar em consideração a questão de custos e ganhos de produção, ou seja, o nível de dano econômico varia conforme o ano em virtude dos preços de mercado. Dessa forma, o nível de dano econômico (NDE), isto é, a densidade populacional da praga a partir da qual o seu controle se torna economicamente viável, pode ser calculada pela fórmula abaixo (Figura 3):
Figura 3. Nível de dano econômico das pragas.
Para ficar mais claro vamos utilizar um exemplo. Se o custo total de controle de determinada praga (considerando a aquisição do inseticida e os custos operacionais da aplicação) gira em torno de R$ 120,00/ha e o valor de produção é de R$ 1500,00/ha, o controle dessa praga se justifica somente quando a sua densidade populacional atingir nível suficiente para ocasionar perda de 8% na produção. No entanto, o NDE varia para cada espécie de inseto-praga na mesma cultura, e também para a mesma espécie em diferentes culturas. Por exemplo, considerando um custo de controle de R$ 90,00/ha e valor da soja de R$ 120,00/saca, o NDE para B. tabaci (mosca-branca) em soja é de 1,5 mosca-branca por trifólio (Padilha et al., 2021). Já o NDE para T. urticae (ácaro-rajado) em soja é de 1,0 ácaro rajado por cm2 de área foliar, considerando um custo de controle de R$ 70,00/ha e preço da soja de R$ 100,00/saca (Padilha et al., 2021).
No caso de H. armigera, o NDE é variável de acordo com os estágios da soja em que ocorre a infestação. No estágio R2 da cultura, por exemplo, o NDE varia de 0,43 a 2,16 lagartas/m². Já no estágio R5.1, a tolerância é menor, devido à maior capacidade de dano: nesse caso, o NDE varia de 0,31 a 1,57 lagartas/m² (Stacke et al., 2018). De qualquer forma, é necessário um certo período de tempo para que as medidas adotadas apresentem eficiência. Logo, o controle deve ser realizado em um nível abaixo do NDE, chamado de nível de controle (Figura 2).
Porém, é preciso entender que essa fórmula não considera variações nos fatores ambientais e no comportamento alimentar dos insetos-praga. Além disso, a eficiência de controle varia conforme o produto: dependendo do caso, a taxa de controle pode ficar abaixo do esperado e, em curto espaço de tempo, o nível populacional da praga irá aumentar novamente.
De acordo com Martins (2018), ajustes precisam ser feitos considerando valores com margens reais e atuais, além de levar em conta a amplitude de eficiência de controle e a modelagem do cálculo de perda de rendimento. Sendo assim, todos os critérios devem ser avaliados pelo técnico responsável pela recomendação, já que as condições variam em cada local e a decisão de controle pode encontrar-se mais próxima ou mais distante do nível de dano econômico.
Portanto, muitos estudos estão sendo realizados para determinar o nível de controle de cada inseto-praga, nas mais diversas culturas. De forma geral, a abordagem do MIP deve ser aperfeiçoada e estimulada por basear-se em pilares que sustentam a produtividade das culturas, integrando diferentes métodos de controle e visando ao manejo sustentável e economicamente viável da produção agrícola.
Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM
REFERÊNCIAS:
BUENO, A.F.; BATISTELA, M.J.; MOSCARDI, F. Níveis de desfolha tolerados na cultura da soja sem a ocorrência de prejuízos à produtividade. Circular Técnica 79, Embrapa Soja, Londrina – PR, Jul/2010. Disponível em https://www.embrapa.br/documents/1344498/2767727/niveis-de-desfolha-tolerados-na-cultura-da-soja-sem-a-ocorrencia-de-prejuizos-a-produtividade.pdf/918020e7-e643-4549-ba4a-771bd0a2d1ef
MARTINS, F.L.I. Reformulação do cálculo do nível de dano econômico de insetos-praga da cultura da soja. Tese de Doutorado, UFSM Santa Maria, 2018. Disponível em https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/15317/TES_PPGEA_2018_MARTINS_FABIO.pdf?sequence=1&isAllowed=y
PADILHA, G. et al. Damage assessment and economic injury level of the two-spotted
spider mite Tetranychus urticae in soybean. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.55, e01836, 2020. https://doi.org/10.1590/S1678-3921.pab2020.v55.01836
PADILHA, G. et al. Damage assessment of Bemisia tabaci and economic injury level on soybean. Crop Protection, v. 143, p. 105542, 2021.
STACKE, R. F. et al. Damage assessment of Helicoverpa armigera (Lepidoptera: Noctuidae) in soybean reproductive stages. Crop Protection, v. 112, p. 10-17, 2018.