Preservar o stand de plantas deve ser o objetivo principal no estabelecimento da cultura do milho. Esse componente de rendimento é afetado diretamente pelo ataque inicial de pragas subterrâneas (corós e larvas) ou de parte aérea (percevejos e lagartas). O ataque de lagartas no estabelecimento do milho resulta, principalmente, na perda de plantas em virtude do corte das mesmas.

A primeira lagarta abordada nesse texto será a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda). Trata-se da principal praga do milho, com alto potencial de dano e elevada capacidade de dispersão e reprodução. Ainda, o ciclo curto de 28 dias (3 dias de fase de ovo, 10 dias de pupa e 15 dias de larva) potencializa sua incidência. As lagartas apresentam o hábito de enclausurar-se nos cartuchos das plantas de milho, dificultando sobremaneira seu controle. Geralmente, encontra-se apenas uma lagarta grande por cartucho, por efeito de disputa ou canibalismo (Tavares, 2019).

O gênero Spodoptera possui três espécies que atacam as culturas agrícolas. As lagartas S. cosmioides e S. eridania possuem maior preferência pela cultura da soja, atacando as plantas principalmente na fase reprodutiva (Sosa-Gómez et al., 1993). Já a espécie S. frugiperda está mais presente na cultura do milho.  Essa última possui um “Y invertido” na cabeça que a diferencia das demais. Além disso, apresenta na sua parte traseira pontos pretos com pelos, denominados de pináculos (Figura 1).

Figura 1. Complexo Spodoptera – Identificação.

Fonte: Mais Soja. Imagem original disponível aqui

Ainda, o local de eclosão das lagartas apresenta um aspecto de “teia” sobre a folha. Alguns produtores têm relatado presença significativa de S. frugiperda em cultivos de inverno, como aveia e azevém, ocasionando maior pressão no cultivo subsequente e confundindo com outras lagartas. Os danos variam desde a raspagem das folhas e destruição do cartucho até o ataque de pendão e espiga do milho (Figura 1).

Figura 2. Danos de S. frugiperda em milho.

Fonte: Embrapa. Imagem original disponível aqui

Conforme Omoto et al. (2016), a resistência de S. frugiperda à ação inseticida das proteínas Bt encontra-se amplamente disseminada em populações de campo do inseto. No entanto, híbridos que expressam a proteína VIP3 (tecnologias Viptera, Viptera 3, Leptra, PowerCore e Ultra) ainda conseguem auxiliar no controle de forma satisfatória, pois não compartilham sítios de ligação com as proteínas Cry1 e Cry2. Somado a isso, a lagarta-do-cartucho apresenta ampla resistência à proteína Cry1 e, por consequência, também à proteína Cry2, já que esta basicamente necessita da proteína Cry1 para agir. Não obstante, ressalta-se que as tecnologias empregando a proteína VIP3 são caras, devendo avaliar-se sua viabilidade junto ao produtor.

O manejo de S. frugiperda passa pelo monitoramento, realizando-se amostragens individuais por planta de milho. Recomenda-se uma amostragem mínima de 20 plantas em sequência, em pelo menos cinco pontos diferentes da lavoura. Deve-se verificar a presença da lagarta e/ou da injúria, tomando como nível de controle 3% das plantas cortadas rente ao solo ou 20% das plantas com nota de dano maior que três na Escala de Davis (Figura 3). Na prática, isso significa que, ao detectar-se o sinal de raspagem, já é viável planejar uma pulverização de inseticida, visto que a capacidade de infestação e injúria por essa praga é altíssima. Além disso, quanto mais cedo for efetuada a aplicação em relação ao desenvolvimento do milho maior será a eficiência de controle, pois à medida que a lagarta se aprofunda no cartucho, torna-se mais difícil de o produto atingir o alvo.

Figura 3. Escala de Davis.

Fonte: CropLife Brasil. Imagem original disponível aqui

Moléculas inseticidas mais recentes, como as diamidas, clorfenapir, indoxacarbe e misturas entre esses grupos químicos, ainda apresentam eficiência de controle satisfatória; já produtos mais antigos, como clorpirifós e alguns inibidores de crescimento, não entregam um bom controle de S. frugiperda. O inverno do sul do Brasil também influencia na dinâmica populacional dessa praga: lavouras semeadas do cedo (agosto ou setembro) normalmente são menos afetadas por S. frugiperda, em virtude da densidade populacional da praga ainda estar baixa. Outros manejos importantes incluem a dessecação de plantas hospedeiras, tratamento de sementes robusto, pulverização na emergência das plantas quando constatar-se alta infestação e adoção da prática de refúgio ao semearem-se híbridos contendo tecnologia Bt.

Somado a isso, conforme estudos de Bialozor et al. (2020), quando há água da irrigação, orvalho ou chuva dentro do cartucho do milho, o controle de S. frugiperda por meio de pulverização foliar é otimizado. Ainda, este efeito é mais eficaz para o clorantraniliprole, em comparação com o clorfenapir. Embora o aumento das taxas de controle obtidas não justifique os custos de irrigação da cultura antes da aplicação do inseticida para esse fim, quando a demanda da planta por água coincide com a necessidade de aplicação de inseticida, as duas ferramentas podem ser combinadas sem custos adicionais para aumentar o controle. Além disso, considerando produtores sem irrigação, a pulverização no início da manhã pode agregar no controle em virtude da maior incidência de orvalho nas plantas.

Outra lagarta importante no estabelecimento da cultura do milho é a lagarta-rosca (Agrotis ipsilon) (Figura 4). São lagartas robustas, de coloração marrom-escuro e com manchas pretas em todo o corpo. Trata-se de uma praga esporádica que ocorre em reboleiras e preferencialmente em anos mais secos, com predominância em áreas de maior acúmulo de matéria orgânica. Além disso, é uma lagarta de superfície, realizando o corte das plântulas rente ao solo logo após a emergência das mesmas e ocasionando redução no stand inicial da cultura (Coelho, 1995).

Figura 4. Lagarta-rosca (A. ipsilon) e dano típico em plântula de milho.

Fonte: Embrapa. Imagem original disponível aqui

Para o controle da lagarta-rosca recomenda-se um manejo integrado, isto é, entender o histórico da área, eliminar de plantas daninhas hospedeiras de forma antecipada, tratamento de sementes e utilização de híbridos com tecnologia Bt.

Por fim, a lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus) também apresenta importância durante o estabelecimento do milho. São lagartas pequenas, de coloração verde-azulada com estrias transversais pardo-escuras. Embora seja também uma praga esporádica, pode ocasionar danos em plantas de milho maiores do que as atacadas pela lagarta-rosca. Somado a isso, apresenta danos mais severos associados à estiagem no estabelecimento do milho. Os danos ocasionados pela lagarta-elasmo incluem a perfuração do colmo ou da base da planta, além de poder gerar sintomas de “coração morto”, quando as folhas em desenvolvimento começam a secar (Figura 5). Pode ser observada a morte de plantas ou atraso no desenvolvimento em altas infestações (Viana, 2009).

Figura 5. Ataque de lagarta-elasmo (E. lignosellus) no milho.

Fonte: Embrapa. Imagem original disponível aqui.

A preferência dessa praga são solos com textura arenosa e bem drenados; além disso, solos secos cultivados sob sistema convencional favorecem seu desenvolvimento e mobilidade, visto que se esconde no solo durante o dia e sai para se alimentar à noite. O controle passa pelo tratamento de sementes com clorpirifós ou clorantraniliprole, por exemplo, além de pulverizações noturnas em caso de alta infestação. Além disso, pode ser necessário elevar o volume de calda, visto que as lagartas dessa espécie se protegem no solo e tornam mais difícil atingir com eficiência o alvo.

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro  e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM



REFERÊNCIAS:

Bialozor, A.; Perini, C.R.; Arnemann, J.A.; Pozebon, H.; Melo, A.A.; Padilha, G.; Stacke, R.S.; Puntel, L.; Drebes, L.; Guedes, J.V.C. Water in maize whorl enhances the control of Spodoptera frugiperda with insecticides. Pesqui. Agropecu. Trop. 50. 2020. Disponível em https://doi.org/10.1590/1983-40632020v5059517

Coelho, A.M.; França, G.E. Seja doutor no seu milho: nutrição e a adubação. Arquivo do Agrônomo. Piracicaba, SP: Potafós, 1995. 25p

Hoffmann-Campo, C.B.; Moscardi, F.; Corrêa-Ferreira, B.S.; Oliveira, L.J.; Sosa-Gómez, D.R.; Panizzi, A.R.; Corso, I.C.; Gazzoni, D.L.; Oliveira, E.B. Pragas da Soja e Seu Manejo Integrado. Embrapa Soja. Circular Técnica, 30. Dez/2000.

Omoto, C.; Bernardi, O.; Salmeron, E.; Sorgatto, R.J.; Dourado, P.M.; Crivellari, A.; Carvalho, R.A.; Willse, A.; Martinelli, S.; Head, G.P. Field-evolved resistance to Cry1Ab maize by Spodoptera frugiperda in Brazil. Pest Management Science, Oxford, v.72 n.9, p.1727-1736, 2016.

Tavares, M. Manejo Integrado da Spodoptera frugiperda no milho. Promip. Set/2019. Disponível em < https://promip.agr.br/o-manejo-integrado-da-spodoptera-frugiperda-no-milho/#:~:text=A%20lagarta%20do%20cartucho%20do,sua%20r%C3%A1pida%20dissemina%C3%A7%C3%A3o%20e%20multiplica%C3%A7%C3%A3o. >.

Viana, P.A. Manejo de elasmo na cultura do milho. Embrapa, Circular Técnica 118. Dez/09. Disponível em < https://www.embrapa.br/documents/1344498/2767891/manejo-de-elasmo-na-cultura-do-milho.pdf/9ca5be8d-688e-4520-9ec7-4fd385c51e3e >.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.