A cotação do trigo, para o primeiro mês, fechou a quinta-feira (27) em US$ 7,42/bushel, contra US$ 6,82 uma semana atrás. A cotação deste dia 27/08 foi a mais alta desde o dia 25 de julho de 2023, portanto há mais de três anos.
A baixa produção nos EUA, pela redução de área e atuais problemas climáticos, acompanhada dos conflitos bélicos, especialmente entre Rússia e Ucrânia, com efeitos na região do Mar Negro, estão na origem deste movimento altista.
Dito isso, a colheita do trigo de inverno está encerrada nos EUA, enquanto o trigo de primavera registrava uma colheita em 62% da área cultivada, em 23/08, contra 52% na média para esta data.
Já as exportações do cereal, por parte dos EUA, somaram 426.000 toneladas na semana encerrada em 20/08, ficando próximas do nível máximo esperado pelo mercado.
E no Brasil, os preços seguem em alta, sustentados pela menor oferta de produto de qualidade superior, em especial na pronta entrega. A maioria dos compradores já buscam realizar compras da nova safra, a qual será bem menor neste ano. Diante disso, quem ainda possui trigo para vender segura o produto, adotando cautela, na expectativa de preços ainda melhores. Em tal contexto, a qualidade do trigo será, como sempre, outro fator decisivo na formação do preço e no nível de liquidez do mercado a partir da próxima colheita.
Dito isso, a colheita nacional do trigo chegou a 6,7% nesta semana, segundo a Conab. No mesmo período do ano passado o percentual era de 7,7% e a média histórica é de 8%.
Atualmente, o clima ganhou uma importância muito maior do que o normal, pois já há perdas registradas no país e a tendência meteorológica, especialmente para o Rio Grande do Sul, traz grandes preocupações até o momento da colheita e mesmo na sequência.
Entre os estados que já iniciaram a colheita, Goiás chegou a 76%, Minas Gerais a 53%, Mato Grosso do Sul a 57% e São Paulo a 5%.
Assim, em síntese, o mercado de trigo no Sul do Brasil segue marcado por oferta limitada, baixa liquidez e resistência dos produtores em antecipar a comercialização da nova safra. Os preços encontram sustentação na menor disponibilidade doméstica, nos riscos climáticos e na recuperação das cotações internacionais.
Segundo análise da TF Agroeconômica, diversos aspectos merecem atenção:
1) no Rio Grande do Sul a disponibilidade de trigo é estimada em aproximadamente 100.000 toneladas. A necessidade dos compradores, até a entrada da próxima safra, contudo, alcança cerca de 300.000 toneladas. A diferença deverá ser coberta por estoques de outras regiões ou por importações.
Algumas operações de maior volume foram realizadas entre R$ 1.500,00 e R$ 1.550,00/tonelada CIF, com o produto entregue nos moinhos. No mercado FOB, vendedores pedem aproximadamente R$ 1.350,00/tonelada, enquanto as indicações dos compradores chegam a R$ 1.320,00. A distância entre as referências limita o número de negócios.
2) Os moinhos do Rio Grande do Sul avançaram na contratação de trigo e já apresentam cobertura para as necessidades até o fim de setembro. O movimento ocorre em um ambiente de baixa moagem e margens pressionadas.
A diferença entre o custo do trigo e os preços obtidos com a comercialização das farinhas permanece elevada, levando as indústrias a adotarem cautela nas aquisições. De fato, a demanda enfraquecida por farinha dificulta o repasse integral do custo da matéria-prima. Por isso, parte dos moinhos compra apenas os volumes necessários para manter as operações e evitar exposição excessiva a uma eventual correção dos preços.
3) Enquanto isso, o trigo importado chega a R$ 1.540,00/tonelada no Rio Grande do Sul. Considerando câmbio, frete e demais custos, a referência equivale a aproximadamente R$ 1.540,00 por tonelada entregue em moinhos próximos de Porto Alegre. Assim, quando o trigo nacional se aproxima ou supera o custo do produto estrangeiro, os moinhos passam a avaliar com maior interesse as compras no Mercosul.
4) Lembrar que a competitividade do cereal importado depende do dólar, da qualidade, dos custos portuários e da disponibilidade logística. Enfim, por enquanto a comercialização antecipada da nova safra de trigo é pouco significativa.
5) Já em Santa Catarina, a comercialização apresenta ritmo reduzido. O trigo destinado à fabricação de pão é indicado entre R$ 1.350,00 e R$ 1.400,00 por tonelada. Também foi registrado negócio com trigo branqueador a R$ 1.500,00 por tonelada FOB. Os preços recebidos pelos produtores permaneceram estáveis nas principais praças. A baixa liquidez reflete o interesse limitado dos compradores e a resistência dos vendedores em aceitar valores inferiores às referências pretendidas.
6) Os moinhos catarinenses continuam ajustando as compras ao ritmo de comercialização das farinhas, evitando a formação de estoques elevados.
7) E no Paraná, a demanda apresentou alguma recuperação com a proximidade do fim do mês. Os moinhos buscam repor estoques antes do reajuste programado nos preços das farinhas em setembro.
8) O trigo da safra velha é negociado ao redor de R$ 1.500,00 por tonelada CIF moinho. Para a nova safra, as ofertas começam próximas de R$ 1.450,00 por tonelada FOB. Apesar das indicações, muitos produtores preferem aguardar a evolução das lavouras e os possíveis efeitos do El Niño antes de avançar nas vendas.
9) A firmeza do mercado paranaense oferece sustentação às cotações regionais, mas a realização de novos negócios dependerá da qualidade do cereal e da capacidade das indústrias de repassar os custos para a farinha.
10) De forma geral no país, a evolução dos preços continuará dependente do comportamento de Chicago, do câmbio, dos fretes, da qualidade do produto e da demanda por farinha. Nesse cenário, a média de preços, a partir de vendas escalonadas, torna-se uma estratégia para aproveitar possíveis altas sem deixar todo o estoque exposto a uma reversão do mercado.
Fonte: CEEMA UNIJUI
Autor: Prof. Dr. Argemiro Luís Brum – Professor Titular do PPGDR da UNIJUI, doutor em Economia Internacional pela EHESS de Paris-França,
coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA (PPGDR/FIDENE/UNIJUI).



