A ferrugem-asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, é considerada uma das doenças mais complexas e devastadoras da cultura da soja. Além de apresentar elevado potencial de redução da produtividade, características como a eficiente dispersão dos esporos, a possibilidade de ocorrência em diferentes estádios de desenvolvimento da cultura e a redução da sensibilidade do patógeno a determinados fungicidas tornam o manejo da doença ainda mais desafiador.
Diante da rapidez com que a ferrugem-asiática pode se desenvolver e se disseminar na lavoura, recomenda-se que as estratégias de controle sejam adotadas de forma preventiva. No entanto, a realização de aplicações de fungicidas calendarizadas pode elevar significativamente os custos do manejo fitossanitário, aumentando o custo de produção e reduzindo a rentabilidade da cultura.
Nesse contexto, uma das estratégias para tornar o manejo da doença mais racional e econômico é a adoção do monitoramento integrado, associando diferentes ferramentas para acompanhar o risco de ocorrência da ferrugem-asiática. Entre essas ferramentas, destacam-se os coletores de esporos e o acompanhamento das atualizações sobre a ocorrência e a evolução da doença nas diferentes regiões produtoras.
Conforme destacado por Oliveira et al. (2020), o monitoramento de Phakopsora pachyrhizi por meio de coletores de esporos pode contribuir para um melhor planejamento das pulverizações e, em determinadas situações, reduzir o número de aplicações de fungicidas em comparação com programas exclusivamente calendarizados. Entretanto, a presença ou ausência de esporos não deve ser utilizada isoladamente para definir a necessidade de aplicação.
A tomada de decisão deve considerar, de forma integrada, outros fatores, como a presença de outras doenças, o estádio fenológico da soja, as características da cultivar, as condições ambientais, a previsão do tempo e a capacidade operacional da propriedade rural (Oliveira et al., 2020).
Figura 1. Visão geral do coletor de esporos (A); aspecto do coletor na lavoura (B); tubo visto de frente mostrando o suporte com a lâmina de vidro acoplada (C); lâmina de vidro com a fita dupla face (com a proteção superior parcialmente retirada) (D).

Sobretudo, é importante destacar que o coletor de esporos deve ser utilizado como uma ferramenta complementar no manejo da ferrugem-asiática, e não como um “gatilho automático” para definir a necessidade de aplicações de fungicidas. Embora apresente elevada eficiência na coleta de esporos do fungo causador da doença, a simples detecção desses propágulos não significa, necessariamente, que exista risco iminente de infecção na lavoura, uma vez que parte dos esporos coletados pode não apresentar viabilidade ou não encontrar condições ambientais favoráveis para a infecção e o desenvolvimento da doença.
Além disso, a representatividade das informações obtidas pelo coletor pode variar conforme fatores como direção e intensidade dos ventos, relevo, localização da lavoura e proximidade de fontes de inóculo. Dessa forma, a ausência de esporos no coletor também não deve ser interpretada isoladamente como ausência de risco, pois essa condição pode proporcionar um falso senso de segurança.
No entanto, quando utilizado de forma integrada a outras ferramentas de monitoramento e critérios para a tomada de decisão, o coletor de esporos pode contribuir significativamente para o manejo da ferrugem-asiática. A antecipação da detecção da presença do patógeno permite aprimorar o planejamento das estratégias de controle e, em determinadas condições, reduzir a necessidade de aplicações de fungicidas. Resultados obtidos com essa estratégia indicam, inclusive, a possibilidade de redução de até 33% no número de aplicações, quando comparada a programas baseados exclusivamente em aplicações calendarizadas (Oliveira et al., 2020).
Figura 2. Esporos de Phakopsora pachyrhizi (ferrugem-asiática da soja) em microscópio óptico com diferentes aumentos. A e B3 – Foto feita sem lamínula; B e C – Fotos feitas com lamínula.

Vale destacar que o uso do coletor de esporos não substitui o monitoramento da lavoura. As inspeções de campo continuam sendo fundamentais para identificar sintomas, acompanhar o estádio de desenvolvimento da cultura e verificar a ocorrência de outras doenças. Além disso, as informações obtidas durante o monitoramento devem ser interpretadas em conjunto com as condições ambientais e climáticas, uma vez que esses fatores exercem influência direta sobre o processo de infecção e o desenvolvimento da ferrugem-asiática.
De modo geral, para que ocorra a infecção da planta, além da presença de inóculo de Phakopsora pachyrhizi, são necessárias condições ambientais favoráveis. Segundo Soares et al. (2023), o fungo necessita de pelo menos seis horas de molhamento foliar, sendo observada maior intensidade de infecção quando o período de água livre sobre as folhas varia entre 10 e 12 horas. Temperaturas amenas, entre 18 °C e 26,5 °C, também favorecem o processo de infecção. Portanto, a simples presença de esporos não determina, isoladamente, a ocorrência da doença, sendo fundamental considerar a interação entre a presença do patógeno e as condições favoráveis ao seu estabelecimento.
Outro aspecto importante é o acompanhamento da distribuição geográfica da ferrugem-asiática ao longo da safra. Considerando que os esporos de Phakopsora pachyrhizi são dispersos predominantemente pelo vento, a ocorrência de casos da doença em regiões próximas às áreas de cultivo, associada à presença de condições ambientais favoráveis, representa um importante sinal de alerta para o aumento do risco de infecção e para a necessidade de intensificar o monitoramento e planejar adequadamente as estratégias de controle.
No Brasil, a evolução da ocorrência da ferrugem-asiática pode ser acompanhada por meio do Consórcio Antiferrugem, uma parceria público-privada que monitora e divulga os casos da doença durante a safra da soja. Na safra 2025/2026, foram relatados 379 casos de ferrugem em áreas comerciais de soja (Figura 3). Essas informações, quando associadas ao monitoramento da lavoura, à detecção de esporos e às condições ambientais, podem contribuir para uma tomada de decisão mais assertiva, permitindo antecipar estratégias de manejo e reduzir os riscos de perdas ocasionadas pela doença.
Figura 3. Mapa de distribuição dos casos de ferrugem-asiática em áreas comerciais de soja na safra 2025/2026.

Além das ferramentas de monitoramento, o manejo integrado da ferrugem-asiática deve envolver a adoção de diferentes estratégias para reduzir a sobrevivência, a disseminação e o impacto do patógeno na lavoura. Medidas como o cumprimento do vazio sanitário, a utilização de cultivares de ciclo precoce, a semeadura da soja no início do período recomendado e o emprego de cultivares com genes de resistência constituem importantes ferramentas para a redução do risco e o manejo da doença (Oliveira et al., 2020).
O controle químico também desempenha papel fundamental nesse sistema, devendo ser realizado de forma preventiva ou nos estádios iniciais de desenvolvimento da doença, sempre associado ao monitoramento da lavoura e às demais estratégias de manejo. A integração dessas práticas é essencial para aumentar a eficiência do controle, reduzir a pressão de seleção de populações resistentes e minimizar os impactos da ferrugem-asiática sobre a produtividade da soja
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Referências:
CONSORCIO ANTIFERRUGEM. Consórcio Antiferrugem: Parceria público-privada no combate à ferrugem asiática da soja, 2026. Disponível em: < http://www.consorcioantiferrugem.net/#/main >, acesso em: 08/09/2026.
HELING, A. L. et al. MONITORAMENTO DE Phakopsora pachyrhizi NA SAFRA 2023/2024 PARA TOMADA DE DECISÃO DO CONTROLE DA FERRUGEM-ASIÁTICA DA SOJA. Embrapa Soja, Circular Técnica, n. 211, 2024. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1169637/1/circular-tecnica-211.pdf >, acesso em: 08/09/2026.
OLIVEIRA, G. M. et al. COLETOR DE ESPOROS: DESCRIÇÃO, USO E RESULTADOS NO MANEJO DA FERRUGEM-ASIÁTICA DA SOJA. Embrapa, Circular Técnica, n. 167, 2020. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1129482/1/Circ-Tec-167.pdf >, acesso em: 08/09/2026.
SOARES, R. M. et al. MANUAL DE IDENTIFICAÇÃO DE DOENÇAS DE SOJA, ed. 6. Embrapa, Documentos, n. 256, 2023. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1158639 >, acesso em: 08/09/2026.





