No dia 18/06 ocorreu o 11° Fórum Nacional de Máxima Produtividade do CESB, em Londrina -PR. Durante o evento, o Dr Gustavo Spadotti A. Castro, Supervisor do Grupo de Gestão Territorial Estratégica da Embrapa Territorial, situada em Campinas -SP, falou sobre sustentabilidade agropecuária com foco na produtividade da soja.

O pesquisador destaca na palestra a importância de se produzir cada vez mais aliado à sustentabilidade, e no Brasil, produção e preservação andam juntas. Para demostrar isso, existem grandes conceitos que devem ser levados em consideração, um deles é a atribuição das terras no país.

A atribuição das terras é um papel do governo, que atribui para determinados fins, seja para uso ou para a preservação do meio ambiente, como é o caso da Unidade de Preservação. O Brasil atribuiu 1800 unidades de conservação, incluindo as Áreas de Proteção Ambiental (APAS), que se somadas resultam em 18% da unidade territorial do país. Porém, somado a esse valor também deve-se contabilizar as terras indígenas, que não são destinadas para fins comerciais e que são preservadas, e hoje temos 600 terras indígenas em todo o país, que resultam em 14% do nosso território.

Gustavo coloca que a ONU e a FAO possuem um conceito que é chamado de terras protegidas, que é a soma de todas as unidades de conservação mais as terras indígenas, que são dedicadas para a proteção integral de suas terras. Como há sobreposição em algumas áreas, a soma não é igual, no entanto, são mais de 2.471 áreas protegidas que hoje totalizam 30,2% do nosso território. Dessa forma, tem-se que de 851.576.705 ha no país, 30,2% são protegidos e incluem todos os biomas existentes no país.

Quando nos comparamos com os demais países com extensão territorial semelhante ao nosso, o pesquisador destaca que o Brasil já é reconhecido internacionalmente como o maior protetor de terras do mundo, uma vez que de toda a América Latina e Caribe, nosso país contém a metade de toda a área que é preservada. Outra colocação importante do pesquisador foi de que entre os 10 maiores países do mundo no que se refere à extensão territorial, com mais de 2 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil protege mais de 30% de suas terras e a média de todos os demais países está em 10%, podendo-se afirmar que o Brasil protege por lei, 3 vezes mais áreas do que a média dos outros países.

Dentro desses 10 maiores países também é importante destacar a qualidade dessas áreas que são preservadas, onde, por exemplo, a Austrália, a China, os Estados Unidos, a Rússia e a Sibéria possuem grande parte das suas áreas que são destinadas para a preservação em locais onde situam-se desertos, que são áreas impróprias para a produção agrícola e de difícil potencial para exploração, ao contrário do Brasil, que destina áreas com grande potencial de utilização e principalmente onde chove muito, incluindo todos os diferentes biomas existentes no país (Amazônia, cerrado, caatinga, mata atlântica, pantanal e pampa).

Outra questão importante colocada na apresentação foi que depois do advento do Cadastro Ambientar Rural (CAR), pode-se verificar o quanto o Agro brasileiro está contribuindo com a preservação do meio ambiente, pois a ocupação das terras pode ser de diversos fins, e apenas metade delas são destinadas à agricultura, sendo que dentro dessas propriedades também existem áreas destinadas ao uso e ao não uso, que são as áreas de preservação que o produtor rural deve conter na propriedade.

Na Figura 1 temos um exemplo da quantidade de áreas de preservação que foram declaradas no CAR para o estado de São Paulo, que representam a soma de APP, reserva legal e mais algum tipo de excedente de vegetação nativa que o produtor declarou no CAR. Nota-se que as áreas de reserva legal e as áreas de APP se interligam entre sim, formando e estimulando os chamados corredores da biodiversidade, que preservam os recursos naturais e diferentes espécies animais. Gustavo coloca que São Paulo que é o estado de maior nível de industrialização, possui o maior PIB do agronegócio do país, preserva, em média 22% de suas áreas rurais atualmente, valor maior do que é exigido no CAR para o estado, que é de 20%.

Figura 1: Imagem aérea de parte do estado de São Paulo com as áreas de preservação que foram declaradas no CAR.

Fonte: Apresentação Dr. Gustavo Spadotti – Embrapa Territorial – CESB 2019.

Se avaliarmos os dados do CAR, em 2019 para todo o Brasil, temos que 219 milhões de ha são destinados à preservação pelos agricultores dentro das propriedades rurais. Isso significa que em média, de cada propriedade rural no país, metade é utilizada para a agricultura e a outra metade é destinada à preservação, representando 26% do nosso território, ou seja, ¼ do Brasil é preservado pelos agricultores que se projetados por exemplo na Europa, cobririam todo o continente.

Pensando na dimensão econômica, o pesquisador coloca que o produtor é o responsabilizado por tudo o que pode vir a acontecer dentro da sua propriedade, como um incêndio, roubo, caça de animais, tudo é de responsabilidade do agricultor, que devido a esses fatores, possui um custo de manutenção, devendo cercar a área, proteger e preservar de possíveis dados que possam vir a acontecer. Além disso, também existe o custo de oportunidade, que é o custo que o produtor tem por deixar de utilizar essa área, que se estivesse em países como Estados Unidos ou Argentina estariam sendo utilizados e produzindo-se nelas.

Figura 2: Valor patrimonial imobilizado no Brasil.

Fonte: SICAR/SFB 2019; EMBRAPA CNPM, 2019; FNP, 2018.

Esse levantamento foi realizado pela Embrapa, que ao considerar o valor da terra no país, concluiu que são atualmente 2,4 trilhões de reais de patrimônio imobilizados no Brasil e destinados à preservação do meio ambiente, isso significa que o agricultor pagou por essa terra e dedica ela ao meio ambiente. Só no RS são 130 bilhões de reais imobilizados, no entanto, este é apenas o custo de quem comprou ou obtém essas terras sem estar produzindo, contudo, essas áreas também possuem um custo de oportunidade por não estarem sendo ocupadas para a produção, o que também foi calculado pela Embrapa.

O cálculo foi realizado com a cultura do milho, retirando as áreas de APP e de declividade maior que 30% (restando 111 milhões de ha) para se obter o valor anual que o agricultor deixa de estar ganhando por não estar produzindo e preservar parte de suas lavouras. O valor final obtido para o custo de oportunidade dos agricultores que mantêm áreas de preservação em suas propriedades foi de 190 bilhões de reais anuais, ou seja, nossos agricultores deixam de ganhar 190 bilhões de reais por ano para preservarem suas terras e manterem áreas de preservação. Esse valor, caso fossem cultivadas essas áreas, representariam 1 bilhão de reais para o Funrural, gerando 4,4 milhões de empregos no país, o que reduziria nossa taxa de desemprego de 13 para menos de 8%.

Figura 3: Porcentagem de uso e ocupação das terras no Brasil por categoria.

Para confirmar os dados levantados pela Embrapa, o pesquisador mostra que o mesmo estudo foi realizado pela NASA, que confirma a confiabilidade desses dados através de levantamento realizado da porcentagem de áreas cultivadas de cada país, inclusive coloca um valor inferior para as áreas cultivadas de 7,8 para 7,6% do território brasileiro. O resultado do estudo pode ser observado na Figura 4.

Figura 4: Porcentagem de áreas cultivadas dos maiores produtores agrícolas.

O pesquisador comenta que de maneira nenhuma o intuito dessa pesquisa foi demonstrar que a Embrapa está trabalhando contra a preservação e manutenção da reserva legal e das áreas de preservação no nosso país, mas que isso é um ônus que o nosso agricultor tem, por manter essas áreas e abrir mão de produzir nesses locais para a preservação, mesmo que alguns produtores sigam mais à rica a legislação do país e outros em déficit, a média nacional demostra que de maneira geral nossos agricultores realizam uma dedicação financeira e patrimonial para o país. Foi destacado também que não existe no mundo, nenhuma outra categoria profissional que dedique tempo e dinheiro à produção e preservação do meio ambiente como faz o produtor rural.

Se colocados lado a lado, produção e preservação, nosso país produz em 7,8% de seu território e preserva 30,2%. Nas áreas de produção, temos:

  • 235/245 milhões de toneladas de grãos;
  • 35 milhões de toneladas de tubérculos;
  • 40 milhões de toneladas de frutas;
  • 10 milhões de toneladas de hortaliças;
  • 1 milhão de toneladas de amêndoas e nozes;
  • 34 milhões de toneladas de açúcar.

Essa produção é responsável por alimentar mais de 1,5 bilhão de pessoas no exterior, sem ser considerada toda a produção pecuária. Gustavo coloca que o grande salto na produtividade brasileira da década de 60 até os dias atuais, se deu principalmente em virtude do aumento de produtividade por área, o que permite que possamos continuar preservando nossas áreas e biomas, por isso a pesquisa agropecuária e o incremento de tecnologias no campo devem ser cada vez mais fomentadas e incentivadas no nosso país.

Figura 5: Evolução do desmatamento da Amazônia.

Foi demostrado também a questão do desmatamento da amazônia, onde os principais protagonistas do desmatamento são extratores de madeira ilegal, não o agricultor, que contribui para o agronegócio, gerando emprego e renda. Além disso, a agricultura é extremamente eficiente na produção de energia limpa, sendo que apenas a cana-de-açúcar contribui com 17% de toda a matriz energética do Brasil, através dos subprodutos, etanol e queima de bagaço para a cogeração de energia elétrica, o que representa mais do que a soma de todas as hidrelétricas brasileiras, que somam 12% da energia produzida no país, demonstrando a alta eficiência também na geração de energia dos nossos agricultores.

Dessa forma, fica evidenciado de que o nosso agricultor merece reconhecimento pelo trabalho que exerce e que mereceria remuneração pelo viés de sustentabilidade e preservação, valorizando cada grão de soja que produzimos, porque uma agricultura que é realizada de maneira sustentável como no nosso país não deveria competir com um produto de outros países que não preservam como nós, incentivando assim o nosso produto.

Por fim, o pesquisador coloca que essas informações colocadas ao longo da palestra devem ser levadas a diante, temos um tesouro em nossas mãos e precisamos usá-lo ao nosso favor, estimulando a parceria entre a pesquisa agropecuária com a extensão rural e o produtor rural que necessitam de estímulos para seguirem essa trajetória que vem sendo descrita.

Confira a palestra do Dr. Gustavo Spadotti A. Castro, Supervisor do Grupo de Gestão Territorial Estratégica da Embrapa Territorial clicando aqui.

Elaboração: Andréia Procedi – Equipe Mais Soja. 

 

Texto originalmente publicado em:
CESB
Autor: CESB

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