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Complexidade no manejo do Caruru (Amaranthus spp.)

Inúmeras espécies de plantas daninhas apresentam característica que as tornam complexas de manejar. Além da evolução de casos de resistência a herbicidas, certas espécies, como as pertencentes ao gênero Amaranthus spp., destacam-se como um desafio quando presentes nas lavouras. O manejo eficiente dessas plantas daninhas demanda estratégias integradas, bem como a compreensão de suas particularidades biológicas.

Conforme destaca Rizzardi, existem no mundo em torno de 60 espécies do gênero Amaranthus das quais cerca de 20 apresentam importância como planta daninha. Destas, aproximadamente de 10 têm ocorrido como infestantes em áreas agrícolas no Brasil. O caruru, como é popularmente conhecido, é considerado uma planta daninha anual, sua reprodução ocorre por meio de sementes e, uma única planta tem a capacidade de produzir até 500.000 sementes, as quais são dispersas pelo vento, facilitando a rápida infestação das áreas cultivo.  A infestação de caruru nas culturas agrícolas é caracterizada pelo difícil manejo, atribuída ao extenso período de germinação do banco de sementes, ao crescimento e desenvolvimento acelerados, à elevada produção de sementes viáveis, à longa viabilidade de suas sementes no solo e à dificuldade na identificação das diferentes espécies no campo (Nicolai et al., 2021).

Algumas espécies e cruzamentos possuem uma pigmentação avermelhada ou arroxeada, manifestando-se em diferentes partes da planta, como panículas, caules, ramos, pecíolos e limbos foliares. Em alguns casos, observa-se a presença de manchas prateadas ou amarronzadas nos limbos foliares, especialmente durante determinados estádios de desenvolvimento (Rizzardi). A identificação das espécies presentes na área de cultivo é fundamental para orientar a escolha do herbicida a ser utilizado no controle. No entanto, a identificação no campo não é uma tarefa simples, devido elevada plasticidade fenotípica das espécies. Essa plasticidade implica na capacidade das plantas de manifestarem diferentes características em resposta às condições ambientais em que se encontram, além da possibilidade de hibridação (HRAC – BR, 2022).

Conforme resultados obtidos em estudos conduzidos por Carvalho & Christoffoleti (2007), tanto a luz quanto a temperatura exercem influência na germinação de todas as espécies de Amaranthus avaliadas (Amaranthus deflexus (caruru-rasteiro), A. hybridus (caruru-roxo), A. retroflexus (carurugigante), A. spinosus (caruru-de-espinho) e A. viridis (caruru-de-mancha)). Observou-se que as taxas mais elevadas e as velocidades mais rápidas de germinação foram alcançadas em condições de fotoperíodo com alternância de temperaturas, com 8 horas de luz a 30° C e 16 horas de escuro a 20° C.

De acordo com Borsato et al. (2022), os meses de maio a julho tendem a apresentar fluxos de emergência mais baixos, enquanto o pico de emergência da espécie A. hybridus concentra-se nos meses de setembro a outubro, prolongando-se até os meses de dezembro a fevereiro. Os autores destacam a importância de compreender o fluxo de emergência das plantas daninhas, sendo uma ferramenta importante para definir as melhores estratégias de controle. No caso do caruru, a recomendação para seu controle envolve o uso de herbicidas pré-emergentes, principalmente os herbicidas inibidores da PROTOX ou inibidores da síntese de ácidos graxos de cadeia longa.

Figura 1. Fluxos de emergência de Amaranthus hybridus ao longo do ano, monitoramento realizado pelo setor de Herbologia na região dos Campos Gerais, Paraná, Brasil.

Fonte: Borsato et al. – Fundação ABC (2022).

As plantas do gênero Amaranthus são consideradas plantas daninhas agressivas, apresentam ciclo fotossintético do tipo C4, conferindo-lhes vantagem em termos de eficiência na produção de carboidratos, maior capacidade de competir por recursos essenciais, com água luz e nutrientes, principalmente quando comparadas a culturas que possuem mecanismo fotossintético C3 (Carvalho, 2006). Além dessa característica fisiológica, as espécies de Amaranthus possuem casos de resistência a herbicidas, que dificultam ainda mais seu manejo.

 Os primeiros registros de resistência do gênero Amaranthus surgiram em 2011 no Brasil, onde foi identificado casos de resistência em duas espécies, A. viridis e A. retroflexus, a dois mecanismos de ação, aos inibidores da ALS e aos Inibidores do FSII. Posteriormente, foram surgindo novos casos de resistência, o último foi registrado em 2018, onde a espécie A. hybridus adquiriu resistência aos herbicidas inibidores da ALS e Inibidores da EPSP’s (Heap, 2023).

Figura 2. Ano do registro de plantas de Amaranthus resistentes a diferentes mecanismos de ação no Brasil.

Fonte: Gazziero et al. (2020).

A presença de A. hybridus nas culturas do milho e soja, pode ocasionar reduções significativas de até 80% no rendimento das culturas, além de inviabilizar a colheita mecânica. Em áreas infestadas por essa espécie, é importante adotar medidas preventivas para evitar a disseminação das sementes para as áreas vizinhas, principalmente por meio do trânsito de máquinas e animais, e sobretudo, para as áreas ainda não infestadas (Penckowski et al., 2020).



O controle através da aplicação de herbicidas pré-emergentes deve levar em consideração as características do produto e do ambiente, aspectos como interação com o solo, relação com a palhada, umidade do solo, seletividade para a cultura da soja e potencial de carryover (resíduo para a cultura subsequente), características as quais devem ser avaliadas para garantir o controle eficiente (Oliveira et al., 2021). No entanto, mesmo com o controle em pré-emergência, após 30 a 45 dias o efeito residual dos herbicidas reduz, permitindo que haja a emergência de novas plantas, fazendo necessário o controle em pós emergência da cultura (Borsato et al., 2022).

Para o controle eficiente do caruru, recomenda-se realizar a dessecação pré-semeadura antes do início da safra de verão, garantindo que a cultura se estabeleça no limpo, sem a presença de plantas daninhas. De acordo com Borsato et al. (2022), os melhores resultados de controle são obtidos com aplicação sequencial, sendo uma dessecação antecipada aproximadamente 14 dias antes da semeadura, seguida por uma complementação no dia da semeadura. No caso do manejo em pós emergência, o controle com aplicação de herbicidas deve ocorrer nos estádios iniciais do caruru, com plantas entre 2 e 4 folhas, onde são observados melhores controles. Na cultura da soja, controle na pós-emergência restringe-se basicamente aos herbicidas inibidores da protox, os quais por serem herbicidas de contato podem causar fitotoxicidade para a cultura (Nicolai et al., 2021).

Figura 3. Estádio recomendado para o controle do caruru em pós emergência.

Além do controle químico, algumas estratégias podem ser adotadas, como a rotação de culturas, medidas culturais e mecânicas. Conforme destacam Nicolai et al. (2021), através dessas medidas, há mortalidade de ambos os biótipos de plantas daninhas, sejam suscetíveis ou resistentes, e a pressão de seleção é mantida. Já por meio do controle químico, pode-se reduzir a pressão de seleção através do uso de diferentes mecanismos de ação a fim de manter a diversidade de biótipos no banco de sementes do solo.

As plantas de cobertura ou pastagens durante o inverno desempenham um papel importante na manutenção da palhada para a semeadura da cultura de verão, uma vez que a palhada tem o potencial de reduzir até 60% a emergência de plântulas de caruru (Lamego et al., 2021). Nesse sentido, a palhada além de proporcionar cobertura para o solo, também cria um ambiente desfavorável para a germinação e o desenvolvimento inicial do caruru, contribuindo para o manejo dessa planta daninha.


Veja mais: Características, casos de resistência e estratégias de manejo do Azevém (Lolium multiflorum)



Referências:

BORSATO, E. F. et al. Amaranthus hybridus, COMO ESTÁ O CONTROLE DESSA PLANTA DANINHA NA SUA LAVOURA? Fundação ABC, ed. 50, 2022. Disponível em: < https://fundacaoabc.org/wp-content/uploads/2022/09/202209revista-pdf.pdf >, acesso em: 12/12/2023.

CARVALHO, S. J. P. CARACTERÍSTICAS BIOLÓGICAS E SUSCETIBILIDADE A HERBICIDAS DE ESPÉCIES DE PLANTAS DANINHAS DO GÊNERO AMARANTHUS. ESALQ/USP, Dissertação (Mestrado), Piracicaba – SP, 2006. Disponível em: < https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/11/11136/tde-07032007-141229/publico/SaulCarvalho.pdf >, acesso em: 12/12/2023.

CARVALHO, S. J.; CHRISTOFOLLETI, P. J. INFLUÊNCIA DA LUZ E DA TEMPERATURA NA GERMINAÇÃO DE CINCO ESPÉCIES DE PLANTSA DANINHAS DO GÊNERO AMARANTHUS. Bragantia, v.66, n.4, p.527-533. Campinas – SP, 2007. Disponível em: < https://www.scielo.br/j/brag/a/SzLdWpwXzWSsdSJKLjWsfHN/?format=pdf&lang=pt >, acesso em: 12/12/20223.

GAZZIERO, D. L. P. et al. PLANTAS DANINHAS E SEU CONTROLE. Tecnologias de Produção de Soja, sistemas de produção,17, cap. 11. Embrapa Soja, Londrina – PR, 2020. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/223209/1/SP-17-2020-online-1.pdf >, acesso em: 12/12/2023.

HEAP, I.  THE INTERNATIONAL HERBICIDE-RESISTANT WEED DATABASE.  Online, 2023. Disponível em: < https://weedscience.org/Pages/Species.aspx >, acesso em: 12/12/2023.

HRAC – BR. SAIBA MAIS SOBRE Amaranthus. Comitê de Ação a Resistência aos Herbicidas, 2022. Disponível em: < https://www.hrac-br.org/post/saiba-mais-sobre-amaranthus >, acesso em: 12/12/2023.

LAMEGO, F. P. et al. CARURU RESISTENTE. Revista Cultivar, Grandes Culturas, n. 267, 2021. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1134394/1/Caruru-resistente.pdf >, acesso em: 12/12/2023.

NICOLAI, M. et al. IDENTIFICAÇÃO E CONTROLE DE Amaranthus palmeri e Amaranthus hybridus. HRAC – BR, Comitê de Ação a Resistência aos Herbicidas, 2021. Disponível em: < https://drive.google.com/file/d/1WTIjh60bkeAv-JBUX-6KJrYwKwdH54OL/view?pli=1 >, acesso em: 12/12/2023.

OLIVEIRA, C. et al. NOVO DESAFIO PARA O AGRICULTOR: MANEJO DE Amaranthus hybridus RESISTENTE AO GLIFOSATO E ALS NO SUL DO BRASIL. Revista Plantio Direto & Tecnologia Agrícola, 2021. Disponível em: < https://www.plantiodireto.com.br/artigos/22 >, acesso em: 12/12/2023.

PENCKOWSKI, L. H. et al. ALERTA! CRESCE O NÚMERO DE LAVOURAS COM AMARANTHUS HYBRIDUS RESISTENTE AO HERBICIDA GLIFOSATO NO SUL DO BRASIL. Revista Fundação ABC, 2020. Disponível em: < https://www.upherb.com.br/ebook/REVISTA-Fabc.pdf >, acesso em: 12/12/2023.

RIZZARDI, M. A. PLANTAS DANINHAS: CARURU. Up. Herb, Academia das Plantas Daninhas. Disponível em: < https://www.upherb.com.br/int/caruru >, acesso em: 12/12/2023.

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Equipe Mais Soja
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