O percevejo marrom, Euschistus heros, é uma espécie nativa da Região Neotropical e tem a soja como seu hospedeiro principal. Devido ao seu hábito alimentar, o percevejo-marrom causa prejuízos severos à cultura da soja e danos irreversíveis a partir de determinados níveis populacionais, o que afeta diretamente o rendimento e a qualidade das sementes (CORRÊA-FERREIRA et al., 1999).

O controle biológico é uma importante estratégia que, através da liberação, incremento  e conservação de inimigos naturais, impede que os insetos-praga atinjam níveis capazes de causar dano econômico. Além disso, tem como principais vantagens a ausência de resíduos no ambiente, não-toxicidade para o homem e especificidade do alvo (OLIVEIRA; ÁVILA, 2010).

Várias espécies de inimigos naturais são encontrados nas lavouras de soja, podendo reduzir as populações dos percevejos e mantê-las abaixo do nível de dano econômico. Os parasitoides de ovos constituem o grupo de inimigos naturais mais importante. Algumas espécies de parasitoides, como Telenomus podisi e Trissolcus basali, demonstram preferência por ovos de percevejo-marrom em relação às demais espécies de percevejos (PACHECO et al., 2000).

O controle biológico aplicado de percevejos da soja é feito principalmente através da liberação massal do parasitoide de ovos T. basalis. Trata-se de uma pequena vespa, de cor preta e com aproximadamente 1 mm de comprimento. Este parasitoide deposita seus ovos dentro dos ovos dos percevejos, onde se desenvolvem até a fase adulta, quando então emerge o parasitoide do ovo do percevejo.

Figura 1. Fêmea de T. basalis parasitando ovos de percevejo.

Fonte: M. Roche

Recomenda-se que T. basalis seja liberado nas primeiras semeaduras, quando a soja encontra-se no final da floração, época em que se inicia a oviposição dos percevejos. Assim, o efeito do parasitoide sobre a população de percevejos é antecipado, mantendo-os abaixo do nível de controle. Segundo Correa-Ferreira (2002), deve-se  liberar 5000 indivíduos de T. basalis por hectare, de preferência nos períodos de menor insolação, e em diferentes pontos da área escolhida.

Após a liberação dos parasitoides, é importante que o produtor continue fazendo o acompanhamento periódico da população de percevejos na sua área. Desse modo, é possível verificar se a liberação surtiu o efeito desejado ou se será necessário utilizar outras ferramentas de controle, incluindo uma nova liberação de parasitoides. Assim como T. basalis, a espécie T. podisi oviposita no interior dos ovos dos percevejos. Após serem parasitados, os ovos apresentam alteração na coloração de acordo com a fase de desenvolvimento da vespa, tornando-se pretas próximas da emergência do adulto. No decorrer da safra, os índices de parasitismo em ovos podem variar de 30 a 70% nos meses de outubro a dezembro, demonstrando seu grande potencial de uso no controle biológico na soja (SIMONATO et al., 2014).

Figura 3. Adultos de T. podisi realizando oviposição em ovos de percevejo.

Fonte: Adair Carneiro/Arquivo Embrapa

Considerações finais

O uso contínuo de inseticidas químicos como única estratégia de manejo de insetos- praga pode acarretar na pré-seleção de indivíduos resistentes, resultando na perda de eficiência dos inseticidas ao longo do tempo. Além disso, o uso indiscriminado de inseticidas pode afetar negativamente a abundância e diversidade de inimigos naturais, como os parasitoides associados à cultura da soja. Nesse contexto, o controle biológico tem ganhado importância na busca por métodos alternativos ao controle químico para o manejo de percevejos em soja.

Redação: Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM

Elaboração: Lauren Brondani Castilhos, Graduanda em Agronomia

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro

REFERÊNCIAS:

CORREA-FERREIRA, BEATRIZ S.; PANIZZI, ANTÔNIO R. Percevejos da soja e seu manejo. Embrapa Soja-Circular Técnica (INFOTECA-E), 1999.

CORRÊA-FERREIRA, Beatriz S.; NUNES, Maria C.; UGUCCIONI, Luzilene D. Ocorrência do parasitóide Hexacladia smithii Ashmead em adultos de Euschistus heros (F.) no Brasil. Anais da Sociedade Entomológica do Brasil, v. 27, n. 3, p. 495- 498, 1998.

CORRÊA-FERREIRA, B. S. Trissolcus basalis para o controle de percevejos da soja. In: PARRA, J. R. P.; BOTELHO, P. S. M.; CORRÊAFERREIRA, B. S.; BENTO, J. M. (Ed.). Controle biológico no Brasil: parasitóides e predadores. São Paulo: Manole, 2002. p. 449-476.

PACHECO, Deoclecio JP; CORRÊA-FERREIRA, Beatriz S. Parasitismo de Telenomus podisi Ashmead (Hymenoptera: Scelionidae) em populações de percevejos pragas da soja. Anais da Sociedade Entomológica do Brasil, v. 29, n. 2, p. 295-302, 2000. DE OLIVEIRA, H. N.; ÁVILA, C. J. Controle biológico de pragas no Centro-Oeste brasileiro. Embrapa Agropecuária Oeste-Artigo de divulgação na mídia (INFOTECA-E), 2010.

GODOY, Karlla Barbosa; GALLI, Júlio César; ÁVILA, Crébio José. Parasitismo em ovos de percevejos da soja Euschistus heros (Fabricius) e Piezodorus guildinii  (Westwood)(Hemiptera: Pentatomidae) em São Gabriel do Oeste, MS. Ciência Rural, v. 35, n. 2, p. 455-458, 2005.

HERMEL, A. O. et al. Preferência do parasitóide Telenomus podisi a ovos obtidos de Euchistus heros criado em laboratório ou coletado em campo. In: Embrapa Soja- Artigo em anais de congresso (ALICE). In: JORNADA ACADÊMICA DA EMBRAPA SOJA, 11., 2016, Londrina. Resumos expandidos… Londrina: Embrapa Soja, 2016., 2016.

SIMONATO, Juliana; GRIGOLLI, José Fernando Jurca; DE OLIVEIRA, Harley Nonato. Controle biológico de insetos-praga na soja. Embrapa Agropecuária Oeste-Capítulo em livro científico (ALICE), 2014.

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