- Estudo identificou 14 isolados de fungos do gênero Trichoderma em áreas nativas e plantações de melão da Caatinga.
- Tais fungos mostraram capacidade de combater microrganismos que causam podridões e murchas em cultivos agrícolas.
- Isolados de Trichoderma provenientes de áreas cultivadas apresentaram maior tolerância ao calor.
- Alguns isolados desse gênero também se destacaram pela elevada produção de esporos, característica essencial para biofungicidas comerciais.
- Pesquisa reforça o potencial da biodiversidade microbiana da Caatinga para uma agricultura mais sustentável e adaptada às mudanças climáticas.
Um estudo conduzido com fungos do gênero Trichoderma isolados de solos da região semiárida da Caatinga revelou que espécies nativas desse bioma possuem características importantes para o controle biológico de doenças agrícolas, além de elevada resistência térmica e capacidade de adaptação a ambientes extremos.
Os pesquisadores investigaram fungos coletados em áreas de vegetação nativa e em lavouras irrigadas de melão nos estados da Bahia e do Piauí. Ao todo, foram identificados 14 isolados pertencentes a cinco espécies diferentes de Trichoderma: Trichoderma asperellum, Trichoderma asperelloides, Trichoderma koningiopsis, Trichoderma virens e Trichoderma spirale. Os resultados indicam que a composição dessas comunidades microbianas varia conforme o uso do solo e as características químicas do ambiente.
A pesquisa reforça que a Caatinga abriga uma diversidade microbiana ainda pouco explorada, capaz de fornecer organismos adaptados às condições adversas de calor e escassez hídrica. Esses microrganismos podem se tornar aliados importantes no desenvolvimento de biofungicidas voltados à agricultura sustentável em regiões semiáridas.
Semiárido sob pressão
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e se caracteriza por chuvas escassas e irregulares, altas temperaturas e vegetação adaptada à seca. Mesmo em condições climáticas adversas, a agricultura irrigada se expandiu fortemente no Nordeste, inclusive na área coberta pelo bioma, principalmente para culturas de alto valor comercial como o melão.
No entanto, o cultivo intensivo favorece o surgimento de doenças que ocorrem no solo difíceis de controlar. Fungos, a exemplo do Fusarium, Macrophomina, Rhizoctonia, e oomicetos — classe de microrganismos filamentosos que se assemelham a fungos — como Pythium provocam podridões radiculares e murchas vasculares, doenças que reduzem drasticamente a produtividade agrícola.
Segundo Gabriel Mascarin, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente (SP) e um dos autores do estudo, “compreender as interações ecológicas de microrganismos benéficos com patógenos é fundamental para se criar estratégias agrícolas menos dependentes de fungicidas químicos e mais resilientes às mudanças climáticas”.
Guerra microscópica no solo
Os fungos do gênero Trichoderma já são conhecidos mundialmente pelo potencial de controlar doenças de plantas. Eles atuam por diferentes mecanismos: competem por nutrientes, parasitam outros fungos, produzem substâncias tóxicas contra patógenos e ainda podem estimular mecanismos naturais de defesa das plantas, explica Wagner Bettiol, também pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.
Além do controle biológico, diversas espécies desse gênero promovem crescimento vegetal e ajudam as plantas a suportar estresses ambientais, como seca e salinidade.
No estudo, os pesquisadores avaliaram dois principais mecanismos de antagonismo dos isolados da Caatinga: o confronto direto — envolvendo competição e micoparasitismo, fenômeno em que um fungo consome outro para obter nutrientes — e a produção de compostos voláteis capazes de inibir o crescimento de patógenos mesmo sem contato físico.
Os testes foram realizados contra cinco organismos causadores de doenças agrícolas: Fusarium sulawesiense, Fusarium solani, Macrophomina phaseolina, Rhizoctonia solani e Pythium myriotylum.
Fungos adaptados ao calor
Um dos resultados da pesquisa foi a constatação de que os isolados provenientes das áreas cultivadas com melão apresentaram maior tolerância ao calor do que aqueles encontrados em áreas nativas.
Os cientistas testaram o crescimento dos fungos em temperaturas de até 40 °C. Embora todos tenham crescido de forma semelhante a 25 °C e 30 °C, diferenças importantes surgiram apenas a 35 °C. Assim, o estudo comprovou que isolados de Trichoderma asperellum, Trichoderma asperelloides e Trichoderma virens oriundos de solos agrícolas mostraram tolerância superior sob estresse térmico.
Os autores interpretam esse resultado como um possível reflexo da adaptação ecológica ao ambiente agrícola irrigado do semiárido, onde as temperaturas elevadas e as oscilações térmicas são frequentes.
Essa tolerância ao calor é considerada uma característica estratégica para futuros bioinsumos agrícolas, uma vez que muitos microrganismos utilizados comercialmente perdem eficiência quando aplicados em regiões climáticas diferentes daquelas de onde foram originalmente isolados.
Estratégias diferentes contra cada doença
No caso das doenças agrícolas, os testes laboratoriais revelaram que os mecanismos de controle biológico variaram conforme o patógeno-alvo.
Contra Rhizoctonia solani e Macrophomina phaseolina, o confronto direto foi mais eficiente. Nesses casos, os isolados de Trichoderma cresceram rapidamente sobre os patógenos, dominando suas colônias por competição e parasitismo.
Já contra Pythium myriotylum e espécies de Fusarium, especialmente Fusarium solani, os compostos voláteis produzidos pelos fungos desempenharam papel predominante. Em alguns casos, os compostos liberados pelos isolados reduziram em mais de 70% o crescimento do patógeno.
Os pesquisadores destacam que diferentes espécies de Trichoderma parecem utilizar estratégias distintas dependendo do inimigo encontrado no solo. Isso reforça a necessidade de se selecionar linhagens específicas para cada sistema agrícola e tipo de doença.
Entre todos os isolados avaliados, o Trichoderma koningiopsis destacou-se como o mais promissor. Ele apresentou desempenho consistente contra todos os patógenos testados e em diferentes mecanismos de antagonismo.
Outros isolados, como o Trichoderma virens, também demonstraram elevada atividade antagônica, embora com resultados menos uniformes.
Produção de esporos é desafio industrial
Além da eficiência no controle biológico, os pesquisadores também analisaram a capacidade de produção de esporos, células de reprodução também presentes em fungos, utilizados na fabricação de biofungicidas comerciais.
“Esse fator é decisivo para viabilizar a produção em larga escala de produtos biológicos. No Brasil, a maior parte dos biofungicidas à base de Trichoderma ainda é produzida em fermentação sólida utilizando grãos de cereais”, afirma Mascarin.
No experimento, os fungos foram cultivados em arroz parboilizado. Os melhores produtores de esporos foram isolados pertencentes às espécies Trichoderma asperelloides e Trichoderma asperellum, que alcançaram mais de 1,4 bilhão de conídios (esporos assexuados produzidos por alguns fungos) por grama de substrato após dez dias de cultivo.
Por outro lado, alguns dos isolados mais agressivos contra patógenos apresentaram baixa produção de esporos, indicando que eficiência de controle biológico e produtividade industrial nem sempre caminham juntas.
Segundo os autores, isso sugere que diferentes espécies de Trichoderma investem energia em estratégias ecológicas distintas: algumas priorizam competição e antagonismo, enquanto outras apresentam maior capacidade reprodutiva.
Solo influencia biodiversidade microbiana
A pesquisa também demonstrou que propriedades químicas do solo influenciam fortemente a distribuição das espécies de Trichoderma.
Os pesquisadores observaram que o Trichoderma virens e o Trichoderma asperellum estavam associados aos solos com maior fertilidade, maior teor de fósforo e matéria orgânica.
Já o Trichoderma spirale apareceu relacionado a solos mais ácidos e ricos em alumínio e ferro, características comuns em ambientes naturais menos manejados.
Esses resultados indicam que a composição microbiana da Caatinga é moldada tanto pelas condições naturais quanto pelas práticas agrícolas, explica Rodrigo Mendes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.
Potencial para agricultura resiliente
Os autores afirmam que os resultados reforçam a importância de se explorar a biodiversidade microbiana brasileira em busca de soluções agrícolas adaptadas às condições locais.
Biofungicidas produzidos com microrganismos originários da própria Caatinga podem apresentar maior sobrevivência, persistência e eficiência em ambientes semiáridos do que produtos importados ou desenvolvidos para outras regiões climáticas.
“Além disso, o uso de agentes biológicos reduz a dependência de fungicidas sintéticos e contribui para sistemas agrícolas mais sustentáveis”, comenta Bettiol.
Os pesquisadores defendem, como próximos passos, que sejam realizados testes em campo, avaliação da capacidade desses fungos colonizarem plantas de melão e estudos sobre possíveis efeitos no crescimento vegetal e na produtividade agrícola.
Também sugerem investigar o uso de consórcios microbianos, combinando diferentes espécies ou isolados de Trichoderma para ampliar a proteção contra doenças e aumentar a resistência das plantas ao estresse hídrico e térmico.
O estudo pode ser acessado aqui
Fonte: Embrapa




