A planta daninha buva (Conyza spp.) está entre as principais encontradas em todo o mundo. As principais espécies são Conyza bonariensis, Conyza canadensis e Conyza sumatrensis (Tabela 1). Apresenta ciclo de vida anual e porte herbáceo, com elevada produção de sementes, encontradas em diversos ambientes agrícolas, como por exemplo, lavouras de grãos. Gênero com espécies amplamente adaptáveis, de grande diversidade genética e complexa identificação morfológica na diferenciação entre espécies. A dispersão da buva ocorre exclusivamente por meio de sementes presentes no fruto do tipo aquênio. O número de sementes varia de 100 a 200 mil por planta (Dauer et al., 2007), podendo chegar a mais de 300 mil sementes dispersáveis por vento e colhedoras.

Interferência em cultivos

A buva é uma planta daninha comum em grandes culturas, como a soja e milho, com a importância aumentada nos últimos. Estudo de Trezzi et al. (2015) indicou que, apenas, 2,7 plantas de C. bonariensis m-2 já podem reduzir em 50% a produtividade da soja. Enquanto outros estudos demonstraram que apenas 1 planta de buva m-2 pode reduzir de 12-14,6% (Albrecht et al., 2018) (Figura 1). Para o cultivo do milho, Ford et al. (2014) observaram redução de até 92% na produtividade quando não é feito o controle da buva.

Algumas características ajudam a explicar a alta interferência da buva, entre as quais o crescimento vigoroso (Weaver, 2001), alta produção de sementes (Dauer et al., 2007) e outras características anteriormente mencionadas, que lhe são atributos de adaptabilidade e agressividade. Alguns estudos também indicam efeitos alelopáticos de buva em outras espécies de plantas (Ferreira et al., 2020). Isso pode ajudar a explicar a dominância de espécies de buva em alguns ambientes, com a presença de poucas daninhas de outras espécies (Djurdjević et al., 2011).

Casos de resistência aos herbicidas 

A repetida utilização dos mesmos herbicidas, nos últimos anos, tem causado à pressão de seleção em algumas espécies de plantas daninhas, com consequente surgimento de populações resistentes. Os primeiros casos de resistência da buva foram registrados no Japão e Taiwan em 1980, ao herbicida paraquate. Somadas C. bonariensis, C. canadensis e C. sumatrensis apresentam 146 casos de resistência em todo o mundo (Heap, 2020). No Brasil, tem se intensificado os relatos de buva resistente, sobretudo C. sumatrensis, com resistência múltipla ao herbicidas clorimurom e glifosato (Santos et al., 2014), resistência simples ao paraquate (Zobiole et al., 2019), 2,4-D (Queiroz et al., 2020), tripla ao glifosato, paraquate e clorimurom (Albrecht et al., 2020a) e quíntupla ao paraquate, saflufenacil, diurom, 2,4-D e glifosato (Pinho et al., 2019). Maiores detalhes sobre todos os casos no Brasil de C. bonariensis, C. canadensis e C. sumatrensis resistentes a herbicidas são apresentados a seguir (Tabela 2).

Opções de manejo

Em análise da situação no Brasil fica evidente a necessidade do uso de diferentes táticas de controle para o manejo de buva, haja visto os vários casos de resistência à herbicidas. Neste contexto é primordial a integração das diferentes medidas de controle, lançando mão sobretudo de medidas culturais (como rotação de culturas e geração de palha) em conjunto com o uso de herbicidas, que inclua associação e rotação de herbicidas de diferentes mecanismos de ação.

Assim, primeiramente destaca-se a importância no manejo da buva na entressafra, este é recomendado especialmente quando o período entre cultivos é longo. Em muitas regiões do Brasil, pensando na cultura da soja como a principal, o período entressafra ocorre aproximadamente entre os meses de julho a outubro, entre a colheita do milho segunda safra e a semeadura da soja. Nesta situação muito comum de cultivo, o pico de emergência da buva ocorre no final do ciclo ou logo após a colheita do milho (Constantin et al., 2013). Observa-se que práticas como consórcios (exemplo do milho + braquiária), implantação de “mix” de culturas de cobertura e terceiro cultivo (no lugar da entressafra, como é o caso do trigo ou aveia em algumas regiões), pode minimizar o impacto da buva, mitigando ou quase eliminando os fluxos de emergência da mesma.

Embora a buva não seja tão problemática no milho segunda safra, é muito importante pensar no seu manejo ainda neste cultivo. Deixar o controle apenas para a pré-semeadura e pós-emergência da soja, pode resultar em aumento nos custos e reduções em produtividade da soja. Neste contexto, uma prática de controle químico estratégico factível de indicação, é a utilização da dose máxima recomendada da atrazina, que pode ser preconizada, esta dose varia com a textura do solo, maiores doses para solos mais pesados/argilosos. Contudo, por vezes são utilizadas doses menores, pensando basicamente no controle de soja voluntária, mas a dose máxima pode resultar em menor fluxo de emergência da buva no final do ciclo do milho e entressafra. A aplicação de atrazina em diferentes associações foi eficaz no controle da buva e redução na densidade das plantas no cultivo do milho (Langdon et al., 2020). Notando que a atrazina, em dose “cheia”, pode ser dividida em sequenciais na pós-emergência do milho, além de associada com outros herbicidas, possuindo grande flexibilidade de uso e baixo custo.

Pensando nas aplicações antes da semeadura, destaca-se o uso de herbicidas auxínicos em associação com glifosato. Um dos mais utilizados nesta situação é o 2,4-D, no entanto, ele tem perdido sua eficácia principal mente na região Oeste do Paraná, se expandindo para outras regiões do Paraná e também para metade sul do Mato Grosso do Sul, partes do Oeste de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, haja visto a resistência da buva para esta molécula, pelo “mecanismo” de resistência da rápida necrose (Queiroz et al., 2020). Ainda assim este herbicida é importante no controle de outras plantas daninhas ou em áreas sem relatos de rápida necrose da buva. Outros herbicidas auxínicos podem ser utilizados nesse momento, com eficácia no controle da buva, como dicamba (Hedges et al., 2018) ou triclopir (Polito et al., 2020), entre outros, como halauxifen, fluroxipir e MCPA.

Na aplicação sequencial, após aplicação de glifosato + auxínico, destacava-se até então o paraquate, com menção também ao diquate, glufosinato e saflufenacil+glifosato. Contudo o paraquate apresentava diminuição em sua eficácia, pelos casos de buva resistente (Zobiole et al., 2019; Pinho et al., 2019; Albrecht et al., 2020a), além dos casos de resistência, têm-se o banimento do paraquate no Brasil, assim precisam ser pensadas alternativas ao seu uso, e em substituição a herbicidas inibidores do fotossistema I na presença de resistência. Pode-se assim destacar o herbicida glufosinato, sobretudo em associação com saflufenacil (Albrecht et al., 2020b), que apresenta inclusive efeito sinérgico observado para o controle de outras plantas daninhas (Takano et al., 2020). Menciona-se também que, associações triplas de herbicidas podem ser usuais em situações de plantas fora de estádio, mais comuns na primeira aplicação das sequenciais, como exemplo temos: glifosato + herbicida auxínico + inibidor da PROTOX, ou glifosato + herbicida auxínico + inibidor da ALS (por mais que haja uma preferência por associação entre sistêmicos na primeira, é necessário observar a possibilidade de populações resistentes a ALS). A busca de nossas possibilidades é contínua! (pesquisas ilustradas na Figura 2).

O uso de herbicidas em pré-emergência das plantas daninhas é também muito importante, pensando na entrada da soja. Podem ser utilizados nas modalidades de manejo “outonal” ou antecipado, e ainda no “apliqueplante” ou “plante-aplique”, pensando no manejo de buva e outras plantas daninhas folhas largas. Podem ser destacados alguns herbicidas inibidores da ALS (a exemplo do diclosulam) (Cesco et al., 2019). Também herbicidas inibidores da PROTOX, como flumioxazina e sulfentrazona (Zimmer et al., 2018), etc. Ainda pode-se destacar algumas associações de fábrica, já disponíveis para o produtor ou que estarão em breve, como sulfentrazone + diurom, imazetapir + flumioxazina, entre outras. Cabe salientar que o uso antecipado de herbicidas, como o diclosulam, são válidas no sentido de diminuir as emergências de buva na entressafra (que pode ser longa) e facilitar o controle via dessecações em sequencial. Enquanto as aplicações na proximidade da semeadura da soja, são efetivas em conferir uma dianteira competitiva a cultura, aumentando o PAI (período anterior a interferência) e diminuindo por consequência o PCPI (período crítico de prevenção e interferência).

Em pós-emergência da planta daninha e da soja, é importante pensar nessa aplicação como um complemento, não como a principal aplicação, seja na soja ou no milho (significativamente na soja essas aplicações tendem a ser meramente paliativas). Poucas são as opções para o controle da buva, se não tiver sido feito um controle preventivo, em pós-emergência dos cultivos, ainda mais em condições de alta infestação e plantas grandes (fora de estádio). Ainda assim, além de glifosato e glufosinato (em cultivos transgênicos tolerantes), tem-se ainda alguns herbicidas, como inibidores da ALS (destaca-se o cloransulam), onde atenção do recomendante é necessária para se evitar fitointoxicações. Também se destaca as novas tecnologias transgênicas que conferem tolerância a 2,4-D ou dicamba na soja, inclusive combinando tolerância destes com glifosato e/ou glufosinato, mas mesmo para estes novas tecnologias a aplicação dos herbicidas em pós-emergência da soja deve ser um complemento para o manejo da buva e outras plantas daninhas.

Infere-se que é relevante a adoção de diversificadas estratégias e frentes de ação para o controle químico da buva, inclusive a associação dessas medidas com as medidas não químicas, como as que geram palha no sistema, são cruciais (pois a buva apresenta semente fotoblástica positiva). Um sistema de plantio direto bem implantado, limpeza de implementos e colhedoras, manejo de herbicida pensando em sistema e aplicações assertivas são parte das boas práticas agrícolas no manejo integrado de plantas daninhas (MIPD).

Deve-se ter atenção para não se confundir resistência a herbicidas, como mal controle. Portanto, cuidado especial com estádio da buva para controle (ideal é de 6 a 8 folhas), intervalo entre aplicações sequenciais e condições ambientais no período das aplicações. E havendo comprovação de populações resistentes, é necessário a substituição do mecanismo de ação e configuração de novas associações de herbicidas, dentro do conjunto do MIPD (aspectos ilustrados na Figura 3).

Autores:

  • Leandro Paiola Albrecht – Universidade Federal do Paraná
  • Alfredo Junior Paiola Albrecht – Universidade Federal do Paraná
  • André Felipe Moreira Silva – Crop Science Pesquisa e Consultoria Agronômica

Referências 

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